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E se fosse a sua filha?

Nas últimas semanas minha esposa e eu fizemos várias palestras nas quais atuamos conjuntamente. Ela, uma mulher jovem, linda, inteligente e profissionalmente bem-sucedida. Eu, um homem menos jovem. Bom, com relação à minha beleza ou inteligência não vou falar nada…  Profissionalmente, atuo naquilo que gosto. Alguns detalhes: ela é filha única e eu sou um usuário de cadeira de rodas.
Nas nossas apresentações discorremos sobre competências técnicas, mas sempre lembrando das competências humanas que as pessoas deveriam exibir no ambiente de trabalho. Destacamos que somente o bom desempenho fundamentado no saber fazer não garante que sejamos bons profissionais. Desempenho se espera de qualquer um. Precisamos muito mais do que isso. Precisamos saber estar com as pessoas, porque as oportunidades existem com elas. Para esse fim, a humildade sem a subserviência e a assertividade sem a arrogância podem permitir que consigamos enxergar a pessoa e o profissional por trás de um rótulo qualquer. É fácil conseguir isso? Não creio que seja, mas é possível. Essa crença se fundamenta naquilo que minha esposa e eu vivemos no período em que nos conhecemos, namoramos e casamos. Em várias ocasiões, logo após o encerramento das palestras, as pessoas se aproximam de nós para nos dizer, “Que casal bonito vocês formam!!!”, “Parabéns, vocês são um exemplo!!!”, entre outros elogios que recebemos com muito carinho e consideração. Porém, os elogios e as felicitações, muitas vezes, nos são dadas porque essa situação não aconteceu na família de quem nos cumprimenta. Pode parecer rude essa afirmação, mas reflete uma realidade. Não há julgamento sobre as pessoas serem boas ou más na afirmação, há somente a constatação de que o desconhecido continua a nos assustar. Também não há nada de errado nisso, porque estranhar o desconhecido faz parte do nosso instinto de sobrevivência. A diferença está naquilo que fazemos frente ao desconhecido. Procuramos conhecer ou nos fechamos no que pensamos sobre o que não conhecemos? Há duas semanas nós nos deparamos com uma situação que evidencia isso.
Encerrada a nossa palestra no evento, minha esposa e eu fomos para uma área onde as pessoas circulavam no tempo livre entre uma atividade e outra. Conversávamos com várias pessoas que nos haviam assistido. De repente se aproxima de nós uma mulher que deveria ter lá seus quarenta e cinco anos. Ela nos cumprimentou e, educadamente, pediu:
Eu poderia falar com vocês por alguns instantes?
Percebemos que a intenção era falar em particular. Logo concordamos e nos deslocamos para um local isolado. Ali a mulher começou a dizer:
Não sei nem como começar, mas nós temos um problema na nossa família…

Ela interrompeu a fala, corou, gaguejou um pouco e continuou:

Não deveria ser um problema, mas é difícil… Meu marido e eu temos uma única filha. Ela está com 18 anos e está namorando um… Mais uma vez se engasgou. Sentimos a emoção tomando conta daquela mulher.

Parecia que ela não sabia como continuar. Nós ficamos em silêncio, respeitando o tempo dela. Por fim ela disse:

– Olhando para vocês eu me senti com muita culpa, porque a minha filha está prestes a se casar com um cadeirante e nós não queríamos isso. Nós queríamos o melhor para a nossa filha. Por isso, já tivemos muitas brigas lá em casa. Às vezes perguntávamos para ela, “O que você vai fazer com ele? Ele nunca poderá acompanhá-la em todas as atividades…”. Mas ela está determinada a namorar e a se casar com ele. Só que vendo vocês dois juntos há tanto tempo, felizes, não está me parecendo tão ruim… Ela parou de falar. As lágrimas surgiram em seus olhos. Internamente tive que rir pela expressão, “…não está parecendo tão ruim…”.

Depois de alguns segundos em silêncio a minha esposa disse:
Olha, eu também sou filha única. Eu casei com o Moacir, não com o cadeirante. Muitas pessoas próximas a mim me questionaram da mesma forma e acho que dá para entender a preocupação.
A mulher olhava para a minha esposa com admiração. Eu estava quietinho. A minha esposa prosseguiu:
Quero dizer que eu nunca vi a cadeira de rodas do meu marido, eu sempre vi a pessoa que ele é. Acho que a felicidade que nós vivemos nesses quase vinte anos de casamento não tem nada a ver com a cadeira. Também não foram somente flores. Tivemos nossos problemas. Eu acredito que para a sua filha se casar bem o que realmente importa é quem é a pessoa com a qual ela vai se casar…
A Andreia continuou a falar sobre algumas situações vividas por nós, as nossas viagens e as nossas aventuras e desventuras. Comecei a participar da conversa. Contamos casos engraçados como aquele de uma amiga dela que lhe perguntara como ela faria quando quisesse viajar e o marido não a pudesse acompanhar… O destino, com sua dose de ironia, tratou do assunto. Menos de seis meses após o nosso casamento eu viajei para Cuba pelo período de trinta dias, sozinho! Via-se nos olhos daquela mulher que aquilo lhe fazia bem. Por fim ela disse:
Muito obrigado pelo tempo e pelo exemplo. Estou muito melhor com relação à decisão da minha filha… e se despediu na sequência. Minha esposa e eu nos entreolhamos. Sim, quase vinte anos depois e continuamos vivendo muito bem!
Saber estar com as pessoas é ver a pessoa e não somente o seu rótulo. É um cadeirante? Não, é uma pessoa. É um padre? Não, é uma pessoa. É um engenheiro? Não, é uma pessoa. Por isso, não é o fato de que o namorado tenha um rótulo ou outro que dará a chance de que aquela filha única seja feliz, mas sim a pessoa é que fará a diferença. E a cadeira não tem nada a ver com isso, é apenas um detalhe. Certamente que os pais querem o melhor para os seus filhos, por isso estranhar não é problema. Questionar não é problema. Porém, lembrar que procurar entender, aceitar, superar, evoluir e respeitar é o que nos torna melhores, permitindo que vejamos a pessoa por trás dos rótulos. Quem for capaz disso até terá um desempenho melhor…
Por fim, fica a pergunta: o que você diria se a sua única filha quisesse se casar com um cadeirante?
No próximo post vou contar como o meu sogro e a minha sogra receberam a notícia que a única filha deles estava namorando um cadeirante…

Um queijo por um beijo…

Era quinta-feira. Tínhamos algumas horas que não havia nada para fazer até que pudéssemos pegar alguns resultados de exames médicos na clínica da cidade. Não queríamos voltar para casa, uma vez que não valeria a pena fazer todo o caminho. Por isso, fomos até o cinema que estava ao lado da clínica. Seria a primeira vez naquele cinema. Olhamos o que estava em cartaz e escolhemos um filme de acordo com o horário. Fomos na fila para comprar os ingressos. A moça nos atendeu. Escolhemos as poltronas da primeira fila que são aquelas a que os usuários de cadeira de rodas tem acesso. E, geralmente, são ótimas! Na hora de fazer o pagamento a minha esposa lembrou de uma informação que havíamos recebido de amigos no dia anterior, assim perguntou:
– Hoje não é o dia em que se tem desconto por um beijo?

A menina nos olhou meio incrédula. Devia estar pensando, Sim e daí… porque certamente não imaginava que pudéssemos ser um casal. Assim, ela respondeu meio sem saber porque respondia:
– Sim…, disse titubeando. Hoje os casais que se beijam recebem desconto de 50% num ingresso.

Não deu nem tempo para pensar, pois a minha esposa já estava me beijando. A moça arregalou os olhos, pois fora uma surpresa. A expressão do seu rosto revelou o espanto. Agora devia estar pensando, Meu Deus, eles são um casal… ou será que estão fraudando a promoção? Porque eu também havia ficado boquiaberto. Mas foi muito bom. O beijo nos rendeu o desconto, além dos seus próprios benefícios.


Um queijo por um beijo? Acho que é mais isso que significa a expressão…


E essas pernas, como vão?

Cheguei no clube de remo pela manhã. Não era tão cedo, mas acompanhei o nascer do sol nas margens do Arroio Pelotas. Conversava com os meus amigos acompanhado pelo tradicional chimarrão. Alguém saiu para remar. Outro saiu para pegar mais um barco. Eu estava ali para remar, mas já estava me dando uma preguiça danada de ir remar. Só de pensa no exercício estava ficando cansado. Seria mais um daqueles dias em que eu iria até o clube, mas voltaria para casa sem remar… Nisso, uma pessoa, para mim desconhecida, chegou na roda. Cumprimentou as pessoas, deu-me uma olhada analítica de cima até embaixo e lascou uma pergunta de aproximação:
E essas pernas, como vão?

Silêncio. O assunto morreu. Não por falta de educação, mas depois de tantos anos como usuário de cadeira de rodas ainda fico sem palavras com a abordagem que algumas pessoas usam para conversar comigo. Um dos meus amigos deu um sorriso e saiu de fininho. O outro também desapareceu. Deixaram-me com aquela “mala” ali no meio do pátio do clube. Olhei para um lado e outro em busca de socorro que eu sabia que não viria. Lá vou eu ter que explicar para o sujeito… Falei:
Tá tudo bem. Vim aqui para dar uma remada…

Deixei a pergunta de lado. De qualquer maneira, ele não queria que eu respondesse a pergunta. Ele queria falar de si. Aproveitou a minha pausa para emendar:
Sim, eu também estive numa dessas por um tempo…  e blá, blá, blá. Continuou depejando um besteirol digno de um campeonato de misérias.

Num momento de distração dele, enquanto buscava lembrar das suas misérias para continuar a despejá-las, aproveitei e disse:
Vou indo, chegou a minha vez de remar…

E fui. Você quer maior incentivo para remar do que esse que eu tive?

O último testemunho… END POLIO NOW!

E lá vai o Zé Caetano entre os carros vendendo as suas bandeirinhas do Brasil. É momento de copa do mundo. Muitas pessoas querendo exibir o orgulho de ser brasileiro. O Zé Caetano sorri feliz toda vez que vende um produto. Agradece. A pronúncia sai toda enrolada. Dá um passo para frente. Mais um para o lado. Dá um passo atrás, pega impulso e segue. Dá-nos a impressão que cedo ou tarde vai parar debaixo de um carro. Alguém que o observa de longe poderia dizer que está alcoolizado. Quem interaje com ele percebe que não se trata disso. Zé Caetano é um dos atingidos pela poliomielite, uma doença que ataca o sistema nervoso central deixando sequelas irreversíveis em quem a adquire. Felizmente foi erradicada do Brasil desde 1994. Ainda faltam dois países em que mais de 200 pessoas continuam contraindo esta enfermidade todos os anos.
Zé Caetano é um dos últimos atingidos no Brasil. Não foi escolha sua contrair a doença, mas é sua a escolha de ser um trabalhador. Tem no quintal da casa de sua mãe uma máquina de marceneiro para alisar a madeira que serve de haste na qual ele cola as suas bandeirinhas. Também faz outras peças de madeira, como cabides. Trabalha alguns dias produzindo. Outros dias coloca tudo em sua bicicleta triciclo que tem um cesto na garupa e vai até o centro da cidade para vendê-las. Tudo isso foi mostrado num vídeo de cinco minutos na XVI Conferência Distrital do Distrito4651 do Rotary, na cidade de Capivari de Baixo-SC. Trata-se de um testemunho impactante para aqueles que ficam se lamentando com as dificuldades de sua vida. Todos se emocionam. Creio que alguns até se envergonham. O apresentador do evento pede para que o Zé Caetano, personagem central do vídeo, levante-se. Sim, ele está presente no evento. Também eu estava emocionado. Uma estrondosa salva de palmas ecoa pelo auditório. As pessoas não param de aplaudir aquele exemplo vivo de superação. Veem nele uma força que alguns pensam não ter. Mas eles também a têm, senão não estariam envolvidos no programa END POLIO NOW, que visa erradicar a poliomielite do mundo.

As fotos foram tiradas do material disponível no youtube: 
https://www.youtube.com/watch?v=7xI5XgyUgek
A programação do evento com foco na Campanha END POLIO NOW segue. O testemunho do Zé Caetano em si foi uma benção para todos nós. O fato de ele não ter podido fazer a escolha é que não foi justo. Os dados sobre a existência da doença em outros países, fez com que me lembrasse que por mais 40, 50 ou 60 anos ainda teremos a possibilidade de outros testemunhos como aquele. Sou usuário de cadeira de rodas resultado das minhas escolhas e estava ali para falar de motivação. Saí completamente motivado pela causa abraçada pelo Rotary que vai garantir, num futuro não muito distante, que não precisemos ouvir testemunhos de pessoas que não puderam fazer as suas escolhas. Vamos ter testemunhos de algum Zé Caetano baseado nas escolhas que fez, simplesmente por que a Polio Ended.
Parabéns Rotary!
Obrigado Laerte e Ana Lúcia pela oportunidade de ter compartilhado um sábado com vocês!

O turista e o aquário…

O turista foi visitar o grande aquário submarino de Lisboa. Ficou encantado com os diferentes tipos de peixes e a diversidade da vida marinha. Estava no paraíso. O dia passou voando! O pessoal que trabalha no aquário controla a entrada e também a saída dos turistas. Na hora de encerrar as visitas perceberam que um turista não havia saído. Ficaram preocupados. Iniciaram as buscas. Percorreram todos os corredores e as diferentes áreas do imenso aquário. De repente se deparam com uma cena inusitada. Viram o turista em frente a um dos aquários olhando fixamente para um ponto. Ele estava estático. Aproximaram-se e viram que ele encarava um peixe fazendo os seus movimentos com a boca. Parecia até que soltava bolhinhas…
Moral da história: a mente do mais forte domina a mente do mais fraco. Às vezes me sinto fazendo bolhinhas…

Futebol, equipes de um homem só…

Gosto muito de futebol. Considero-o um dos esportes mais justos e estratégicos que existe. No meu ponto de vista, ele é justo porque permite que quase qualquer indivíduo possa desenvolver habilidades importantes para o jogo conforme o seu biotipo e não somente por causa dele. Pode-se ter um craque alto ou baixo, rápido ou nem tão rápido, diferentemente de outros esportes como o basquete, o atletismo ou o voleibol. Para mim o futebol é um esporte estratégico porque há a necessidade de que pelo menos a grande maioria jogue bem para que o resultado seja positivo. Para esse fim é necessário uma certa harmonia entre os componentes da equipe para que a sincronia das jogadas surta efeito. O goleiro precisa cumprir com o seu papel, assim como os defensores, os meio-campistas e os atacantes. Se é importante fazer gols também o é não sofrê-los. O resultado favorável depende dessa combinação. Porém, a observação que quero fazer refere-se ao desserviço que a imprensa tem prestado ao futebol ao transformar um esporte coletivo em individual. 
Como assim? Transformar esporte coletivo em individual? Explico. Quando rememoro as conquistas do futebol brasileiro na copa de 1970 me vem à lembrança uma série de jogadores. Não dá para falar dessa copa sem lembrar de Tostão, Jairzinho, Rivelino, Clodoaldo, Pelé, entre outros jogadores que nunca vi jogar, porém com a sua memória preservada no registro pela imprensa. Ao voltar para a copa de 1982, em que a nossa seleção não conquistou o título, vem-me a memória o time inteiro. Tudo bem que foi a primeira que assisti na plenitude de minha juventude, mas lembro-me que a imprensa esportiva destacava a beleza do futebol coletivo dessa equipe que tinha jogadores como Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, Leandro, Toninho Cerezo, Éder & Cia. Entretanto, ao avançar para as copas de 1994 e de 2002, as quais assisti já como adulto, não consigo lembrar tão facilmente dos jogadores. Por quê? Não sei se somente é uma percepção minha, mas ao buscar os registros sobre 1994 o que se ouve e se lê é que foi a copa de Romário. Algumas reportagens falam da parceria de Romário com Bebeto e olha lá… Alguém lembra que havia o Mazinho? Ao falar sobre a conquista de 2002 somente se dá destaque a Ronaldo, o Fenômeno! Alguém dá o devido destaque ao incansável Gilberto Silva? Do eficiente Kléberson? Não, parecem fantasmas, assim como os outros 22 jogadores que compunham o elenco. Às vezes parece que nessas copas entrava em campo apenas um jogador sem a ncessidade de que outros dez também jogassem. Esse virou o mote. O ungido pela imprensa e mais dez! E essa prática, a meu ver, continua. A seleção brasileira de 2014, ao entrar em campo, assemelha-se a um esporte individual porque se fala somente num jogador. A imprensa já escolheu. Quase todas as notícias e as imagens são feitas do mesmo jogador. Os suspiros, as caretas e o penteado destacados são desse mesmo jogador. Pouco importa o que aconteça os holofotes voltam-se para o ungido. Se ele fez o gol, é goleador implacável. Se ele deu o passe, é genial. Poderia ser inverter a situação, mas “genial” e “implacável” continuaria sendo o ungido. Não consigo entender a necessidade dessa mistificação individual num esporte que tem uma dependência coletiva tão grande. Faz-me perder o encanto. Eis aí parte do desserviço da imprensa ao vincular o sucesso de uma equipe a um jogador muito além da realidade.

O exemplo que repercute na sociedade dessa forma de veicular as notícias é outro desserviço. Outro dia escrevi um texto sobre a importância de se destacar a interdependência existente mesmo em trabalhos e esportes supostamente individuais(ver link). Nele falo sobre a importância de elementos de suporte e de apoio que são menos visíveis nesses esportes e profissões, entretanto não menos importantes, criticando pessoas que acreditam ser “euquipes”. São aquelas pessoas que não conseguem perceber a importância do outro no caminho para a realização individual. Esse sentimento é completamente desprezível num esporte ou numa atividade coletiva, sendo mais um desserviço prestado pela imprensa ao estimular o comportamento de indivíduos como se “euquipes” fossem. Isso porque o exemplo se estende para outras esferas da nossa sociedade. São as crianças e os jovens que começam a fazer ilações equivocadas sobre as relações sociais e interpessoais, passando a acreditar que tudo deve girar em torno deles. São as pessoas nas organizações que não medirão esforços para se sobressaírem, mesmo sem o devido mérito. As competições (link para um texto sobre o tema) nos levam a buscar o primeiro lugar e isso é positivo. Mas devemos lá chegar fazendo o melhor que pudermos aquilo que fazemos, sempre reconhecendo a importância dos outros nesse processo. Em esportes coletivos esse comportamento deve ser notícia, sem desmerecer os destaques e não o contrário. Caso continuemos a divulgar o esporte como o fazemos hoje melhor seria que começássemos a disputar jogos de futebol com equipes de um homem só. Na imprensa já é assim…

Você entende muito de futebol…

Copa do Mundo rolando solta. Assisti ao jogo entre o Uruguai e a Costa Rica na Globo. Há opção melhor? O Luiz Roberto narrava o jogo com os comentários do Roger. Em determinado momento o comentarista Roger disse o seguinte:
Luiz Roberto, você entende muito de futebol…
Eu em casa concordei com o Roger, porque gosto das transmissões que o Luiz Roberto faz, recheada com comentários inteligentes, engraçados, inusitados e que quase sempre me surpreendem. Não quer dizer que eu sempre concorde com ele. Por isso, acreditei que o Roger complementaria a sua afirmação com algo como, Você fez uma análise sob um ponto de vista que não me ocorreu…. Mas para a minha surpresa ele emendou:
– … falou exatamente aquilo que eu também pensei!
Não teve jeito. Caí na gargalhada e logo pensei comigo mesmo, Eis aí mais uma prova real que ratifica a teoria. Qual teoria? A teoria de que normalmente temos uma imagem sobre nós mesmos muito acima da média. Nós, quase que naturalmente, nos achamos!Se nos perguntarem sobre as nossas habilidades como motoristas, certamente nós nos posicionaremos na metade superior dos melhores motoristas. Se nos perguntarem sobre as nossas qualidades como jogadores de futebol, também nos posicionaremos da mesma forma. Se a pergunta incidir sobre as nossas competências para fazer análise de diferentes cenários não há nem comentários, porque as nossas opiniões são sempre as melhores.
No complemento da afirmação do comentarista Roger também ficou muito claro que o elogio não foi para o narrador, mas sim para si mesmo. O comentarista deve estar impressionado até agora com a sua inteligência e perspicácia. Quase não deve entender como alguém como o Luiz Roberto possa ser quase tão inteligente como ele…
Pergunto: e se a opinião fosse diferente da própria análise, qual seria a reação? Continuaria ele achando o Luiz Roberto inteligente? Ficam também outras questões a serem pensadas. Como nós analisamos aqueles que pensam diferente de nós? Inteligentes? Burros?

Julgar como inteligentes quem pensa como nós é fácil. Agora quero ver reconhecer inteligência em quem pensa diferente de nós… Você consegue? Parabéns! Acha fácil? Você é um sábio!!!

Acho que vi o Sinhô…

Combinei de me encontrar às 8h30 em frente ao hotel com um amigo que me daria uma carona. Desci um pouco antes para esperar. Fiquei observando o trânsito e as pessoas caminhando de um lado a outro. Uma cidade mineira onde eu estava pela primeira vez. Logicamente que eu também era observado. Um cadeirante na rua ainda desperta a curiosidade de alguns. Passava um e me cumprimentava. Eu retribuía. Passava outro e só me dava uma olhadinha meio de lado. E assim foram várias as pessoas. Ora um cumprimento, ora uma olhada. De repente passa por mim aquela pessoa que se alguém descrever um mineirinho seria ele. O estereótipo materializado. Ele me disse:
– Bom dia…

Respondi:
– Bom dia, tudo bem?
– Tudo bem, sim Sinhô…

Ele seguiu em frente, embora tenha me parecido que estava matutando… Uns quinze metros adiante ele parou, deu meia volta e retornou até mim para perguntar:
– O sinhô tava naquele jogo de basquete de cadeirantes? Acho que o vi o Sinhô jogando…
– Ah, teve um jogo de basquete sobre rodas?
– Sim, Sinhô. É um trem muito doido
– Não, não… Não era eu.
– Mas que era parecido com o Sinhô era…

Para muitas pessoas todos os usuários de cadeira de rodas são parecidos. Nesse caso, a semelhança está na cadeira, não necessariamente nas pessoas. 


Na realidade somos todos parecidos, somos todos diferentes, somos todos humanos…

Joia ou bijuteria

Outro dia estava no balcão de atendimento de uma companhia aérea para despachar minha cadeira de rodas. Logo atrás duas filas. Uma para todos os clientes e outra para os prioritários. Na fila dos prioritários estavam um senhor muito idoso, outro cadeirante, uma senhora com uma criança de colo e, na frente deles, uma linda, elegante e jovem senhora.  Aparentemente, ela não tinha nenhuma característica que a identificasse como prioridade. Uma pessoa da companhia aérea a indagou sobre o fato de estar posicionada na fila das prioridades. Ela respondeu, já agredindo em alto e bom tom:
Eu sou cliente… (deu o nome da categoria especial a que pertencia, uma joia rara. Poderia ser para ela ou para a companhia) e exijo atendimento prioritário.

A elegância daquela senhora desapareceu imediatamente. A joia deixou de brilhar. As cabeças de todas as pessoas se voltaram para ela. A pessoa do balcão, educadamente, tentou explicar:
Minha senhora, a companhia não tem atendimento diferenciado aqui nesta cidade, porque temos poucos pontos de atendimento…

A plateia estava na expectativa, pois estávamos na eminência de um barraco. A senhora, percebendo a atenção da plateia, não se deu por vencida e aumentou o tom:
­- Isso é uma vergonha. Por que então sou cliente (mais uma vez deu o nome da jóia da sua categoria)? Quero falar com o supervisor…

O tom alto de sua voz diminuiu o brilho de sua beleza e elegância. Todos ali já viravam a cabeça de um lado a outro, quase como num jogo de tênis. Qual seria o próximo golpe? A moça do balcão respondeu:
Eu sou a supervisora nesta cidade. Pode falar comigo…

Aquela joia de senhora, momentaneamente, titubeou. Pareceu-me que havia perdido o ímpeto e o brilho completamente, porém ainda respondeu:
Vou falar com quem manda nessa companhia, porque eu os conheço…

Na sequência dirigiu-se para a outra fila, sacou, quase como se fosse uma arma, um celular e começou a fazer ligações. O tumulto parou por aí. A vida seguiu.

Sempre que é anunciado a abertura para o embarque de um voo vejo as pessoas formarem aquela fila imensa. Não entendo muito bem quais os benefícios de ser o primeiro a embarcar num voo… Talvez porque como usuário de cadeira de rodas eu quase sempre seja o primeiro a embarcar, querendo ou não. Por outro lado sou o último a sair…

Naquele dia, o que vi, foi uma joia ser transformada em bijuteria, tanto para a senhora como para a companhia.


Meu trabalho é individual…

… não tenho equipe!

Esse é um erro de interpretação cometido por muitos profissionais que executam as suas tarefas num ambiente solitário. Ouvi advogados falando isso. Ouvi dentistas. Ouvi arquitetos. Ouvi os mais variados profissionais autônomos fazendo essa afirmação, assim como atletas de alto rendimento que competem sozinhos. Esse sentimento também está presente em grupos de trabalho em diferentes organizações, muitas vezes revelado em pessoas com alto conhecimento técnico e grande desempenho. Essas pessoas e profissionais têm desenvolvido o sentimento da “euquipe” e não de “equipe”. Normalmente acreditam ser mais importantes ou indispensáveis para um determinado projeto. Particularmente, não acredito nisso, porque de uma forma ou outra as nossas atividades estão interligadas com as de outros numa relação de interdependência. Posso até ser a parte mais visível de um determinado processo, mas não necessariamente a mais importante.

Como exemplo sempre uso a competição individual de remo. Nesse caso, o remador compete sozinho, mas ganha ou perde representando uma equipe. No momento da prova não há muito o que outra pessoa possa fazer por ele. Se ele não estiver treinado física e tecnicamente e bem preparado psicologicamente, certamente não vai chegar na frente. Porém, tudo isso ocorre num ambiente em que interage com técnicos, terapeutas, dirigentes e auxiliares que trabalham para que o atleta que compete sozinho tenha condições de alcançar o resultado esperado. O atleta faz parte de uma equipe. Por isso, as chances de vitória diminuem para aqueles que se entendem como “euquipes” e não reconhecem a importância dos demais no processo. Nas profissões autônomas, o exemplo se repete. Posso até exercer as tarefas finais individualmente, mas sempre há a necessidade de buscar material, suporte ou apoio em fornecedores ou em toda uma rede de contatos que faz com que o meu trabalho seja melhor.

A questão também se revela nas organizações em que o sentimento de “euquipe” atinge as pessoas dentro de um grupo de trabalho. O ambiente se torna difícil e, tendencialmente,  menos produtivo. Isso não tem nada a ver com o não reconhecimento da individualidade. A ideia é exatamente a oposta. Sempre defendo que cada indivíduo deve se reconhecer como a pessoa mais importante para si mesmo e entender que o outro também o é para ele. Assim, o reconhecimento da individualidade, da importância própria e do outro, é que gera um verdadeiro espírito de equipe. Entenda-se equipe como um grupo de pessoas que se envolvem na mesma tarefa ou que despendem esforços tendo um propósito comum como norte. Os times de esportes coletivos representam muito bem esse conceito, pois é necessário que haja um forte espírito de equipe para que o melhor de cada um possa aparecer, contribuindo para o êxito de todos. Nesse processo, o respeito por si e pelos demais é fundamental. Ao gestor cabe estimular o aparecimento desse espírito, seja numa equipe de futebol ou num grupo de trabalho de uma organização empresarial. Pode-se ter aquelas pessoas que são as mais visíveis no processo, mas se deve ter o entendimento que a importância depende de outras variáveis.

Há um exemplo para isso. Não me recordo mais quem disse, mas lembro-me da pergunta feita:
– Quando você vai fazer um Raio-X qual é a parte mais importante: a máquina de Raio-X ou o cabo que a alimenta com energia?

Não há como definir, porque as partes isoladas nada podem fazer. Há que se entender que todos os envolvidos num processo são importantes. Não há espaço para pessoas que se queiram crer mais importantes do que as outras. Não há lugar para quem acredita ser uma “euquipe”. O importante é fazer a sua parte em benefício próprio e da EQUIPE!