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O desafio de preparar pessoas para gerir pessoas (Parte 2)

Moacir Rauber
Em julho de 2011 escrevi um texto “O desafio de preparar pessoas para gerir pessoas” publicado no link http://facesfacetas.blogspot.com/2011/07/o-desafio-de-preparar-as-pessoas-para.html. Naquele texto descrevi uma situação em que o processo de seleção escolheu um profissional que não foi contratado por uma questão puramente burocrática. Os responsáveis pela área de Gestão de Recursos Humanos da empresa não souberam olhar para além do seu quadrado departamental, afrontando as diretrizes da organização em nome da própria comodidade. Certamente gerou prejuízos para o indivíduo e para a organização. Entretanto, na última semana acompanhei o processo de seleção em uma das áreas mais atraentes e em expansão do cenário brasileiro, o setor da aviação. Um piloto de aviação com muitos anos de experiência em aeronaves menores tem buscado migrar para uma empresa que opere aeronaves maiores. Manteve contato com algumas das principais companhias aéreas brasileiras e inscreveu-se nos respectivos processos de seleção. Participou de vários, que normalmente são compostos por diferentes etapas. Conhecimentos técnicos, simuladores de voo, exame psicotécnico, situações de risco, entre outras provas. Até aí tudo bem. O que me espanta e me causa irritação é o processo de comunicação, ou melhor, da não comunicação durante ou sinalizando o término do processo. Trata-se do processo de seleção de uma mão de obra altamente qualificada e mesmo assim o profissional em questão me relatou inúmeras situações absurdas ocorridas. Disse-me que numa organização inscreveu-se no processo seletivo juntamente com mais 40 candidatos. Fez a primeira etapa e ao final foi comunicado que dariam uma resposta em 10 dias. Já se passaram mais de 30 dias e nenhum contato foi feito. Noutra empresa fez a primeira etapa do processo e foi logo selecionado para a segunda, com outros sete candidatos. Havia uma vaga. Cumpriu a fase e recebeu a informação que o resultado sairia em 48 horas. Nada, nada já lá vão14 dias desde a realização da prova e nenhum contato foi mantido pela empresa. Contou-me assim ainda outras histórias e absurdos que ocorrem no processo de seleção em diferentes empresas de aviação no Brasil.
Pode-se deduzir que em algumas empresas o descaso com as pessoas é parte de uma política organizacional, enquanto de outras trata-se apenas de política desorganizacional da área de gestão de pessoas. Nem uma nem outra situação se justificam num período em que o discurso das organizações se voltam para a valorização do ser humano. A não comunicação gera frustração nas pessoas que aguardam uma resposta, porque ficam na expectativa de que serão chamados, mas ao mesmo tempo a resposta não vem. A comunicação deve ocorrer tanto em casos positivos como negativos, porque em ambos os casos se permite que a pessoa toque sua vida em frente. Em caso negativo a pessoa pode buscar outra colocação. Em caso afirmativo a pessoa pode se preparar para ingressar na própria organização. Custa tanto mandar um e-mail, dar um telefonema ou mesmo outra forma de comunicação? Por isso me causa assombro a não comunicação, pois trata-se uma questão de respeito para quem está na posição de candidato, independentemente se o processo se refere a contratação de pessoas altamente qualificadas ou não. Esse respeito deve ser dado a todas as pessoas para todos os cargos. O discurso da valorização das pessoas deve ser posto em prática pelas pessoas que compõem aquela empresa, uma vez que o fato de se estar na condição de recrutador ou de candidato é simplesmente circunstancial.
Por isso é importante que os profissionais de recursos humanos que trabalham nos processos seletivos se perguntem todos os dias:  eu gostaria de ser tratado como trato as pessoas no processo de seleção que estou conduzindo?
O piloto em questão terminou por ser contratado por uma das empresas para as quais se candidatou, porém formou uma imagem tremendamente negativa das demais. Fato esse largamente disseminado para outras tantas pessoas!!!

Quando ONGs se tornam INGs

Moacir Rauber

A criação de uma ONG – Organização Não-Governamental precisa de um grupo de pessoas para a sua formação e ter como objetivo o desenvolvimento de atividades de interesse público. Uma iniciativa louvável, que foi vista pelo Estado como um possível solucionador de problemas coletivos pela própria coletividade. Assim, surgiram inúmeras ONGs nas mais diversas áreas propondo-se a resolver demandas da sociedade, desde os problemas de uma comunidade, passando por questões ambientais, direitos das minorias, combate a fome, até problemas de garantias dos direitos humanos. Tudo muito justo e muito bonito!

Nessa mesma linha de raciocínio muitas pessoas têm iniciativas individuais, aplicando parte dos seus proventos diretamente em questões nas quais eles acreditam poder contribuir. Alguns abatem parte dessa contribuição do Imposto de Renda, mas outros, literalmente, doam daquilo que ganham. Este último é o melhor exemplo de um Indivíduo Não-Governamental preocupado em resolver os problemas que afetam outras pessoas diretamente, mas que podem atingi-lo por outras vias.

Entretanto, o ser humano tem uma criatividade para além da imaginação comum. Muitas ONGs passaram a ser governamentais, pois dependem e somente existem com recursos oriundos da esfera pública. Até aí ainda muitas são aceitáveis. O problema se apresenta quando as ONGs somente o são no papel. Um sujeito com uma visão deturpada e oportunista convida outros para criarem uma ONG. Cumprem com toda a rotina burocrática, escrevem um projeto para resolver uma demanda social e se propõem a captar os recursos. Com a colaboração de algum contato conseguem aprová-lo, para em seguida receber os recursos. Aplicam uma parte ínfima dos recursos no objetivo a que se propuseram inicialmente e o restante é distribuído entre os integrantes como salários, horas técnicas, assessoria e é direcionado para empresas que eles próprios são os donos. Ao se referirem as ONGs que eles criaram e coordenam falam em alto e bom som, A minha ONG!”, referindo-se a ela como propriedade e não como a uma organização para quem eles prestariam serviços. As próprias matérias jornalísticas, seja na televisão ou outro meio, referem-se aos diretores das ONGs como, “O Senhor Fulano, dono da ONG tal…” e nem sequer se dão conta do quanto está desvirtuda a situação. Do absurdo que dizem e escrevem! Uma ONG não pode ter dono. Uma ONG deveria ser não governamental sempre, desde as pessoas e os recursos. Uma ONG deveria servir os interesses da coletividade e não de indivíduos que as transformaram em INGs, mas altamente governamentais. Isso porque vivem e enriquecem com recursos públicos que deveriam atender a uma demanda pública.

Você conhece alguma ONG que se transformou em ING e somente atende interesses individuais?

O maior problema

Moacir Rauber

Quase sempre quando interagimos e nos relacionamos com outras pessoas, sejam elas da empresa na qual trabalhamos ou mesmo em qualquer outro círculo social, as conversas recaem sobre os problemas que se enfrentam. Apontam-se as situações problemáticas de comportamento da sociedade como um todo, dos meios de comunicação, de alguma organização,  de alguns indivído em específico, do chefe, do vizinho, do cachorro, do papagaio, enfim, de todos a nossa volta que já não demonstram atitudes adequadas e éticas. Quase em sua totalidade estão fora de nós e esquecemo-nos dos problemas derivados de nosso comportamento. Na grande maioria das vezes, na nossa visão, os nossos problemas são derivados daqueles que antes citamos. Dificilmente passa por nossas cabeças que os nossos problemas poderiam ser resultados das nossas próprias escolhas, muitas delas equivocadas. Das nossas omissões em não resolver, mas de trasnferir.  Principalmente se considerarmos que errar é humano, mas atribuir a culpa a outro é fundamental. E assim, vamos empurrando nossas culpas e procurando atalhos em busca do caminho mais fácil. Esquecemos que se nós assim pensamos também os outros possivelmente o fazem e transferem para nós as responsabilidades dos seus problemas, criando-se um círculo vicioso no qual ninguém resolve os próprios problemas.

O maior problema de cada um é literalmente de cada um. Algumas pessoas podem viver situações mais drásticas, terríveis e assustadoras, entretanto somente ela mesma poderá resolvê-las, por mais ou menos grave que seja. Ninguém pode resolvê-las para você, exceto você. Outras pessoas até podem se compadecer, se solidarizar ou mesmo colaborar com você em algum momento, mas ninguém pode resolver nada por você. Não se trata de egoísmo. Nós até podemos nos importar com os outros e entender que a situação vivida por aquele meu colega é difícil, mas cabe a ele resolvê-la ou não. Até o fato de transferir para os outros a responsabilidade que é sua é decicido por você. Por isso, o seu maior problema é o seu. Resolva-o que é a melhor maneira de colaborar para a resolução dos demais problemas!

Onde está o seu maior problema? Já conseguiu identificá-lo para poder resolvê-lo?

Epitáfio…

Moacir Rauber

Uma pergunta muito comum feita às crianças e aos muitos jovens recém contratados nas organizações é, o que você quer ser na vida? Trata-se de uma abordagem inconveniente e errônea, uma vez que ser nós somos desde o momento que passamos a existir. A indagação deveria ser outra, o que você vai fazer da sua vida? Essa sim é uma pergunta que cada um pode responder, porque sobre as nossas vidas nós temos autonomia. O tracinho existente entre o ano de nascimento e o ano da morte cabe a cada um preenchê-lo com as suas decisões, ações e consequências. Essa autonomia pode ser comprovada nos exemplos de tantas vidas de pessoas que souberam vivê-las, assim como pode ser constatada em muitos epitáfios de lápides de pessoas que souberam fazer da sua vida aquilo que queriam, ou não.

Para exemplificar, pode-se escolher duas pessoas com a mesma origem social, com semelhantes graus de instrução e com igualdade de condições financeiras e se encontrará uma realizada e outra frustrada. Encontram-se pessoas que conquistaram tudo o que o dinheiro pode oferecer, mas não conseguiram levar a vida de forma a encontrar nela o bem-estar. Da mesma forma, outras pessoas com boas condições de vida souberam viver bem, inclusive transmitindo a sensação de bem-estar para os demais. Também se pode encontrar pessoas com poucos recursos materiais, mas que conseguiram encontrar o equilíbrio para levar uma vida plena, enquanto outros se prendem as frustrações daquilo que não conquistaram. Certamente que existem fatores fora de nosso controle que afetam as vidas, de todos sem exceção. Portanto, o que fazer da sua vida é uma decisão é pessoal e intransferível! Também os epitáfios oferecem muitos exemplos de pessoas que souberam ou não preencher o seu tracinho. Vejo alguns cômicos, mas nem por isso menos reveladores. “Aqui jaz um homem que morreu de saco cheio”, poderia até ser o Papai Noel, mas provavelmente esconde alguém angustiado. “Agoras estás com o Senhor. Senhor, cuidado com o dinheiro”, certamente trata do caráter ou da falta dele. “Bom esposo, bom pai, péssimo eletricista em casa”, expõe que por trás dessa lápide poderia estar alguém um pouco descuidado, mas que por certo teve uma passagem digna. Entretanto, ver numa lápide o dizer “Uma andorinha que fez verão!” certamente revela uma pessoa que teve uma vida plena e que soube o que fazer com aquele traço entre as datas de nascimento e morte. Por isso, o desafio é que cada um possa ter a frase que o define já em vida, antes que os outros escrevam por você.

Logo, vem a pergunta, o que você quer que escrevam sobre você abaixo do seu nome quando sobre ele estiver a expressão Aqui jaz?

A sociedade do propósito

Moacir Rauber

Assistir a uma conferência sobre o conhecimento é sempre interessante, porque se questiona o próprio conhecimento. Considera-se, portanto, que não basta buscar o conhecimento pelo conhecimento, pois este deve cumprir com o objetivo de melhorar quem o busca para também melhorar o mundo para aqueles que não o detém. Desse modo, a sociedade do conhecimento deve avançar para a sociedade do propósito, porque também o conhecimento deve tê-lo. 

O todo e a avaliação de desempenho

E a sua organização, como vai?
Moacir Rauber
 
O foco de todo o sistema de avaliação de desempenho desenvolvido e aplicado dentro das organizações sempre é o desempenho do colaborador. Correto, justo e positivo, pois a partir dessa ferramenta se pode ter parâmetros de produtividade que nos auxiliem a avaliar nossa competitividade frente as demais orgnaizações, bem como a organizar ou reorganizar nosso quadro de colaboradores, com vistas a oferecer um produto ou serviço o mais customizado possível. Entretanto, a gestão das organizações deveria também se preocupar em responder outras duas questões:
 
(1)   Como seria a avaliação de desempenho da sua organização a partir da visão do indivíduo?
 
(2)   A sua organização consegue entender o todo individual dos colaboradores que a compõem?

A importância do segundo


Moacir Rauber

Encostei o barco no trapiche da linda raia de Munique, na Alemanha. Estava ofegante, exausto, completamente esbaforido. Havia terminado a regata em quarto lugar, um resultado muito aquém do esperado. Logicamente, neste momento passam pela cabeça todo o período de dedicação, as opções feitas e, consequentemente, as abdicações resultantes daquela escolha. O período de treinamento dedicado, visando especificamente este campeonato mundial de remo, havia começado em fevereiro e agora estávamos em setembro. Foram horas, dias, semanas e meses de treinamentos diários, com raras folgas, muito esforço e muito suor, frutos de uma rotina cansativa de treinos repetitivos de musculação e remadas. Um circuito completo dos exercícios de musculação consistia no uso de dez diferentes aparelhos e equipamentos, entre eles o temível remo ergômetro, totalizando três horas. Puxa e solta o peso, repete uma, duas, quinze, trinta vezes. Olhar fixo na parede, no branco que não nos reconforta. Intervalo de um minuto e meio entre uma repetição e outra. Neste momento o tempo voa, depois pára. Voa no intervalo e pára no exercício. Cansaço e suor. Um objetivo fixo na memória, os exercícios e os dias se repetem. “Não há esporte de alto rendimento sem sofrimento, sem comprometimento”, dizia o treinador. O sofrimento fazia parte dessa rotina e o comprometimento tinha dois lados. O primeiro era o compromisso do atleta com o programa de treinos, o objetivo traçado de alcançar o melhor resultado com a maior doação. O segundo lado do comprometimento se referia aos malefícios trazidos ao corpo pelo ritmo excessivo de treinos, sobrecarga a que são expostos os músculos, os ossos, os ligamentos, as articulações e toda a estrutura orgânica do atleta visando um desempenho acima do que permite o próprio corpo, pensando em superar os tempos dos adversários. “Esporte de alto rendimento não é saúde, é exagero” vaticinava outra vez o treinador. E deixava bem claro que se nós quiséssemos ter mínimo de êxito nas competições deveríamos ter superação, dedicação e comprometimento em todos os dias de nossa preparação. Os treinos na água eram menos tediosos, porém não menos desgastantes. A minha categoria, que rema usando somente os braços, faz em média dez quilômetros de percurso na água por sessão de treinamento, muitas vezes se dava em dois períodos diários. Mas esse percurso não consiste em remadas de passeio. São diferentes exercícios sempre buscando o melhor desempenho. Na saída a orientação para que se fizesse cinco quilômetros de aquecimento, iniciando num ritmo mais lento, mas gradativamente alcançando uma pegada mais forte. Depois vinham exercícios de força e velocidade. Repetições intermináveis de vinte remadas em força máxima, dez remadas suaves, vinte, dez, e assim até completar mais quatro quilômetros. Por fim, mais um quilômetro de tiro livre em força máxima.

Toda essa preparação, toda a infindável repetição dos treinos diariamente para chegar em QUARTO lugar? Lembrar de todos os domingos que fiquei em casa ou no alojamento, enquanto meus familiares se reuniam para churrascos de fim de semana ou mesmo para alguns dias na praia… Todas as sextas à noite em que fui cedo para a cama, enquanto meus amigos se divertiam nas baladas… Não ter aceitado nenhuma oferta de trabalho para poder me dedicar exclusivamente aos treinos pensando em chegar em primeiro… Mas, no final, apesar de todo o empenho, cheguei em quarto lugar naquela derradeira regata! Naquele momento, soube que seria a última, pois não teria mais pique nem ânimo para repetir tudo outra vez. Mas, por outro lado, olhando para aquelas mais de vinte mil pessoas assistindo à regata, telões armados, empresas instaladas no local, emissoras de televisão transmitindo ao vivo, enfim, o circo armado, percebi que nada disso seria feito se somente participasse do evento aquele que chegou em primeiro lugar. Percebi que isso se aplica a todos os esportes. No futebol participam de uma competição 20 ou trinta equipes, mas em primeiro lugar chega somente uma. No tênis o ranking enumera mais de 1500 atletas, sendo um privilégio constar na lista, mas primeiro lugar existe somente um. Nas corridas de Fórmula 1, são vinte equipes, mas ao final da etapa somente uma chega em primeiro, bem como no final do campeonato… Também lembrei que sempre há lugar para o segundo, para o terceiro, para o quarto lugar, enfim… sempre há lugar para aquele que faz o melhor que pode! Afinal, quem seria o primeiro se não houvesse o segundo? E o segundo sem o terceiro? E o que seria de todos os anteriores se não houvesse o último? E este último certamente é melhor do que aquelas milhões de pessoas que sequer tentaram!! O nosso mundo é formado muito mais por pessoas que não alcançaram o primeiro lugar, ou seja, de segundos, terceiros e tantos lugares quanto haja na classificação.

E você, está buscando ser o primeiro ou está


caminhando para ser sempre melhor?

Tava pedindo!

Moacir Rauber

A expressão que dá título ao texto tem sido usada cada vez com mais frequência, representado uma inversão completa de valores que a sociedade vai aceitando como normal. Quem já não ouviu a notícia de um assalto em que os comentários do público não se indignam com o comportamento do infrator, mas com o descuido da vítima? Essa realidade tem se repetido por todas as cidades brasileiras, desde as metrópoles até as mais pequenas.

Outro dia estávamos nós no centro de Porto Alegre acompanhando uma equipe de remadores na competição estadual. No final do dia, logo após o período de treinamento, nos dirigimos ao mercado público para jantar. Ao cruzarmos a rua, próximo a um acesso subterrâneo, vimos uma mulher ser assaltada e ouvimos os seus gritos desesperados, porque o ladrão havia levado a sua bolsa. Algumas pessoas levantaram a cabeça e direcionaram-lhe um olhar, para em seguida continuar seu caminho, imersos em seus pensamentos com os seus próprios problemas. Nós, ali parados feito um bando, da mesma forma olhamos, até nos espantamos com a tranquilidade com que o assaltante se evadiu do local e também seguimos para o jantar. Entre um e outro do grupo que ainda se admirava do ato violento presenciado a grande maioria concordava que a mulher estava “pedindo para ser assaltada”. Como poderia ela caminhar com tanto descuido, deixando a sua bolsa dependurada no seu ombro com o conteúdo voltado para trás? Esse pensamento é de uma incivilidade tremenda a que estamos sendo levados sem nos darmos por isso. O mesmo raciocínio se aplica aos moradores que não cercam com muros e que não protegem suas casas com alarmes, câmeras e vigilância 24h; aos moradores de prédios e condomínios que não mantém todo um aparato de segurança; aos proprietários de veículos que não trancam seus carros, que não os equipam com alarmes e sistema de monitoramento por satélite, além do seguro que encarece não pela probabilidade de acidente, mas pela alta frequência dos roubos. É por isso que as pessoas gastam tanto com serviços de segurança que não deveriam, elevando drasticamente o custo de vida. Considere-se que a grande maioria da população é composta por pessoas de boa índole e que se comportam como as boas regras da convivência determinam. Entretanto, essa mesma maioria tem-se deixado levar pela imposição de comportamento de uma minoria de assaltantes que estão implantando uma nova ordem moral em que as pessoas ficam indignadas com a vítima e não com o crime ou com o criminoso. O certo seria eu poder andar tranquilamente pelas ruas de qualquer cidade em qualquer horário sem ser molestado por assaltantes ou delinquentes, muito menos ser taxado de descuidado ao sofrer uma violência contra meu direito de ir e de vir. Da mesma forma o certo seria poder deixar o carro aberto, as casas e os jardins sem muros e os condomínios sem grades. O certo seria que o ato de um assaltante gerasse indignação o suficiente para que os transeuntes se reunissem, o detivessem e o encaminhassem para a delegacia mais próxima, porque era ele quem “estava pedindo” para ser preso.

Todos deveriam se indignar com aquilo sobre o qual já não se indigna mais, pedindo que as regras da boa convivência sejam respeitadas e que as leis sejam cumpridas para que se tenha a liberdade de desfrutar de paz e tranquilidade sem correr o risco de sofrer um ato violento e ainda ser considerado culpado por isso. Considera-se, assim, que se precisa um pouco mais de rigor na observância das leis que acordamos como sociedade, porque somente esta poderá proporcionar a liberdade que em tese se tem num país democrático.

É isso que se está pedindo!

Incompetentes para a vida!

Moacir Rauber

Estimula-se, com razão, que as pessoas trilhem a sua vida buscando constantemente novos conhecimentos que melhorem a sua competência em diferentes áreas. Amplia-se, desta forma, a própria expectativa de vida, uma vez que o sujeito passa a ver o mundo sob diferentes ângulos. Entretanto, muitas pessoas têm ultrapassado o limite da competência, transformando essa busca numa obsessão que os têm deixado incompetentes para a vida.

Entenda-se competência como o saber do indivíduo que se transforma em ação pela vontade explícita em consonância com os recursos disponíveis para fazê-lo, alinhados com o meio no qual está inserido. Para destrinchar esse conceito deve-se percorrer o saber, o saber fazer, o querer fazer, o poder fazer e o saber ser/estar. O saber pode ser obtido por meio da aprendizagem formal, informal e de convívio, que forma o arsenal de conhecimento da pessoa. Essa busca pelo conhecimento, na abordagem motivacional, pode estar vinculada a autonomia, que é a iniciativa de fazer aquilo que se quer, quando e com quem se quer fazer. Contudo, existem pessoas que conhecem muito, mas não sabem fazer. Por isso, o sujeito, além de conhecer, deve saber fazer, que é justamente aplicar o conhecimento em situações práticas dentro da atividade que desempenha, seja na esfera social ou profissional. Essa condição pode ser conectada a ideia da excelência das teorias motivacionais, uma vez que o saber fazer demanda esforço e dedicação para executar com perfeição aquilo que se sabe. Entretanto, somente saber e saber fazer não basta. Deve-se querer fazer, que está diretamente vinculado a vontade de realizar aquilo que se sabe fazer. Volta-se novamente a ideia de autonomia, pois existem muitas pessoas que sabem e sabem fazer, sem, contudo, ter a determinação para querer fazê-lo. Dando um passo adiante, além de saber, de saber fazer e de querer fazer, deve-se poder fazer, sendo essa uma das muitas muletas usadas por aqueles que não querem fazer. São inúmeras as pessoas que usam este subterfúgio para não realizar aquilo que até gostariam, encontrando outros culpados pelo caminho. Por fim, o tema principal deste texto, reporta-se ao saber ser e saber estar, que onde os obsessionados pela busca de conhecimento muitas vezes falham. Estudam, qualifcam-se, aprimoram-se e desenvolvem tantas habilidades que se estupidificam, pois esquecem que para que todo esse conhecimento tenha algum valor precisam do outro, devem saber ser para poder bem estar. Para isso precisam de um propósito.

Muitas organizações ainda tem como propósito única e exclusivamente o dinheiro. Pelas tendências encontradas, em que cada vez mais as empresas que oferecem os melhores ambientes para se trabalhar têm obtido destaque, acredita-se que num futuro breve as organizações movidas somente pelo dinheiro deixarão de existir. Essa crença é reflexo de indivíduos que já não trabalham mais somente pela recompensa financeira, pois passaram a vislumbrar um propósito. As pessoas passaram a ter aspirações e motivações que até trazem resultados financeiros, mas não tão somente. São essas pessoas que sabem ser e sabem estar com os outros que transformarão os propósitos organizacionais. Por outro lado, pode se observar que muitos profissionais ultraqualificados têm se isolado. São profissionais de altíssimo desempenho, mas que se consideram uma ilha de competência cercados por incompetentes, segundo a própria visão. Desempenham suas tarefas de tal forma que as pessoas a sua volta já não querem mais ali estar, pois estas sentem-se diminuídas, fato que aqueles não fazem questão de minimizar. Projetam-se, expõem-se e exibem o seu desempenho, que consideram ser o seu grande diferencial, de tal forma que estão sempre vários passos à frente dos colegas. Desse modo, produzem muito, irritam-se com a falta de produtividade dos colegas e isolam-se cada vez mais. Terminam assim por magoar as pessoas com as quais convivem e frustram-se com isso. Nesse caminho as relações sociais também tornam-se áridas, pois toda a abordagem volta-se para o desempenho profissional, não restando margem para nada fora desse círculo. Nas confraternizações, no café, na rua, na chuva e na fazenda estão sempre competindo e desempenhando a sua função profissional. Cria-se, assim, o profissional com todas as competências, mas incompetente para a vida que termina por transformá-lo no maior dos incompetentes, porque não sabe ser e não sabe estar com os outros. Não tem um propósito maior para a propria vida do que o desempenho profissional. E justamente é no saber estar e no saber ser que se encontram as maiores oportunidades, que não se limitam ao âmbito profissional. É nesse saber que as pessoas se realizam. É nesse saber que se encontra o propósito de vida, que deve ir muito além de um excelente desempenho profissional, que até pode garantir dinheiro, mas certamente não garante bem estar. A vida não pode ser tomada somente sob o próprio prisma, pois deve-se entender que se todos são seres únicos, também as visões de vida são diferentes. Por isso, a competência deve incluir o saber ser para que as organizações tornem-se lugares melhores para o indivíduo estar.

Aprenda sempre, principalmente para não ser um imcompetente para a vida!

Um mundo com propósito!

Aqui estamos nós, num mundo de oportunidades. Descobriu-se a infinitude do macro e do micro universo, porque se  tudo pode ser multiplicado e tudo pode ser dividido,  tem-se infinitos planos infinitos. É por isso que se acredita que há uma sucessão de oportunidades despertadas pela consciência da infinitude de nosso mundo, que não havia sido alcançada por volta do ano 1000 da era cristã. Aqui também estava eu, próximo ao ano 2000, um cadeirante aos 19 anos de idade. Seria também para mim um mundo de oportunidades? Poderia ser uma cadeira de rodas uma oportunidade para um jovem? Pense-se nas dificuldades de acessibilidade que restringem a mobilidade. Pense-se nos impactos psicológicos provocados por um trauma dessa magnitude. Pense-se no ainda presente preconceito das demais pessoas com relação as capacidades de um usuário de cadeira de rodas. Pense-se em todas as dificuldades oriundas das limitações impostas por uma deficiência física nas motivações do atingido. Depois dessa reflexão pergunte-se se uma cadeira de rodas poderia ser uma oportunidade na vida de qualquer pessoa? Certamente que não há pai, mãe, irmão, primo, amigo ou mesmo inimigo que deseje uma cadeira de rodas para o próximo, garantindo-lhe que está diante de uma grande oportunidade. Entretanto, considere-se agora diante da inevitabilidade do fato e lembre-se que a sua vida é única e instranferível. Lembre-se também do ambiente no qual viviam as pessoas por volta do ano 1000 da era cristã. Analise sob diferentes aspectos e começa-se a vislumbrar possibilidades.

Pergunte-se o que você faria se não tivesse medo? Essa pergunta pode e deve ser feita e respondida por um cadeirante ou por qualquer outra pessoa. Ao respondê-la perca o medo que paralisa o cérebro. Perca o medo que embota a imaginação. Perca o medo que  limita a criatividade. Perca o medo que tira a iniciativa. Perca o medo que rouba a motivação. Depois faça algo que o leve para aquilo que você faria caso não tivesse medo, porque a maioria dos nossos medos se reportam a problemas imaginários.

Para isso é importante buscar conhecimento sobre aquilo que o pode levar até onde você quer ir. Conhecimento que deve gerar competência. Competência que se baseia no saber, no saber fazer, em querer fazer, em poder fazer e em saber ser. Ao estudar e compreender esse ciclo consegue-se entender as próprias motivações, assim como das pessoas circundantes. Lamentavelmente a motivação tem sido tratada muito superficialmente, apresentando-se com algumas regrinhas como se fossem fórmulas mágicas que resolvem todos os problemas. Mas a realidade não é assim. A motivação e suas variáveis podem e devem ser estudadas aprofundadamente. É a partir de uma análise mais profunda é que ser um cadeirante aos 19 anos de idade pode ser uma oportunidade.


Voltando-se no tempo, no início da trajetória humana no planeta terra as motivações dos seres humanos se resumiam a terminar o dia vivo, preferencialmente bem alimentado com a ambição maior de perpetuar a espécie. Num passado mais recente as motivações humanas já buscavam premiações e recompensas, assim como o evitamento das punições. Logo, parte das atuais organizações trabalham sob a ótica do “se, então” que fica muito bem representada pela metáfora do burro e da cenoura. Para fazer com que um burro caminhe na direção desejada ofereça-lhe a possibilidade de obter uma cenoura, mas não lha dê. Mantenha na mente daquele que se quer motivar a possibilidadede alcançá-la. Caso essa estratégia não mais funcione aplique o chicote. Uma punição, sob essa perspectiva motivacional, motiva de forma contundente. E se mesmo assim o burro não for na direção desejada, troque-o. Agora aplique essa regra para a sua vida. Você se contenta com a cenoura que lhe oferecem? Pode até ser que sim. Depois pense na cenoura que se poderia oferecer para um cadeirante e você chegará a conclusão que a única iniciativa que um cadeirante deveria ter seria a de se dar um tiro na cabeça. Como alguém conseguiria se motivar na base das punições e recompensas? Alguém quer maior punição do que ser um cadeirante? E qual o motivo de tal punição?

Entrementes, felizmente, a humanidade evoluiu e com ela evoluíram as motivações. As pessoas já não se satisfazem com somente terminar mais um dia vivo, de barriga cheia ou simplesmente tendo recebido uma recompensa ou não sendo punido. As pessoas se deram conta da sua unicidade e da própria finitude da vida, o que a faz buscar algo mais em sua vida. Nesse cenário até para um cadeirante poderia haver motivações. E as pessoas que gerem as organizações, obrigatoriamente trabalham com outras pessoas, porque nada existe fora da natureza que não seja feito por elas e para elas. Vive-se num dos únicos momentos da história em que cada um pode ser aquilo que pretende ser, inclusive um cadeirante pode ser um empresário, um professor ou um atleta de alto rendimento. Para esse fim as pessoas devem buscar a autonomia, desenvolver a excelência e ter um propósito. Um cadeirante pode buscar autonomia, pode desenvolver a excelência e pode ter um propósito.

A autonomia dá a possibilidade da auto-direção em que todos podem conduzir a própria vida de forma a ter o destino em suas mãos. Segundo Pink (2010), as pessoas precisam de autonomia sobre o que fazem, sobre quando o fazem, sobre com quem o fazem e também sobre como o fazem. A autonomia que as pessoas precisam está expressa na construção da maior e mais popular enciclopédia produzida pela humanidade, a wikipédia, que não contrata, não remunera, não motiva com uma cenoura e não pune com um chicote. A autonomia leva as pessoas a ter iniciativa, a fazer o que deve ser feito e quando deve ser feito. A autonomia motiva as pessoas a fazerem aquilo que se quer mesmo quando não se está com vontade. A autonomia leva as pessoas a fazer aquilo que não se gosta na busca daquilo que se quer. A autonomia se aproxima da ideia de disciplina coadunada com a liberdade, porque por meio daquela você pode exercer esta. Desse modo, uma pessoa autônoma desenvolve a proatividade e a assertividade em busca dos objetivos próprios e organizacionais. Para um cadeirante a autonomia pode ser expressada por questões tão simples como cruzar a rua sem ajuda, morar sozinho ou praticar um esporte, mas que lhe abre um horizonte com oportunidades.

Pessoas que exercem a autonomia com responsabilidade vão em busca da excelência, que é encontrada em atividades que os cativam de tal modo que não percebem o tempo passar. Entram em fluxo, segundo Pink (2010). Mas ser excelente é um ideal e, portanto, inalcançável. A excelência somente se dá em pequenos e fugazes momentos que leva a que se busque um novo estado, porque ela já está em outro patamar. A excelência está sempre em mutação e é passível de melhoria contínua. Mas para alcançar esses momentos necessita-se de esforço, dedicação e prática deliberada encontrada na repetição, na observação e na mudança de padrões. O atleta busca a excelência na rotina dos treinamentos e a encontra na competição. Sim, muitos cadeirantes passaram a ser atletas por lazer, atletas amadores e também profissionais. A atual conjuntura mundial, combinada com o grau de evolução tecnológica e mudança dos padrões motivacionais permite que qualquer pessoa busque a excelência na atividade que goste. A excelência, por ser inalcançável, revela-se entre os sentimentos de frustração e sedução, mas é na sua busca que se encontra a criatividade e se desenvolvem as habilidades. O mundo tem possibilitado essas alternativas a quase todos.

Por fim, o atual estágio da motivação tem sua base no propósito. Ao se dar conta da infinitude do universo e da finitude da própria vida, a maximização do lucro, puramente financeiro, começa a dividir sua relevância com o propósito. Caminha-se, assim, rapidamente para uma mudança de paradigmas organizacionais provocada pela mudança de objetivos individuais. Logicamente que somente poderia ser assim. Não há organização sem pessoas. Ao pensar sobre as questões abordadas reforça-se a ideia defendida no texto de que se vive num mundo de oportunidades, inclusive para um cadeirante. Oportunidades essas estimuladas pelas possibilidades encontradas na motivação do indivíduo que tem autonomia para escrever a própria história. A autonomia que leva uma pessoa a procurar a excelência numa atividade até então inimaginável. Excelência que permite um cadeirante ser integrante da seleção brasileira de remo e disputar três campeonatos mundiais. É dessa motivação que muitas organizações ainda carecem, a motivação baseada num propósito. Desse modo, com pessoas que passem a dar maior relevância a um propósito do que exclusivamente ao dinheiro, a cenoura, as organizações também mudarão. Indivíduos com propósitos criarão uma nova geração de organizações que reformularão os negócios e a forma de ver o mundo. 

Um mundo repleto de oportunidades para aqueles que têm propósito!