No signal!

Moacir Rauber

Tudo pronto! O teatro está lotado. Os parceiros divulgaram o evento, a associação comercial vendeu os ingressos e as pessoas compareceram. O som foi testado e todo o equipamento também foi revisado. A apresentação foi ensaiada. Está tudo realmente ok! O mestre do cerimonial já anuncia a palestra que vai anteceder o lançamento do livro. É na minha cidade natal. Conheço um grande número das das pessoas que estão na platéia e que de uma ou de outra forma fazem parte da minha história. Um momento marcante em que nada pode dar errado. Por isso que tudo foi conferido e reconferido nos mínimos detalhes. Enquanto é feita a apresentação dos parceiros e apoiadores do evento a ansiedade cresce, o frio na barriga espalha-se por todo o corpo. Finalmente a palavra me é passada e já não há mais nada que eu possa fazer, a não ser aquilo que se espera que eu faça: a palestra de lançamento do livro Olhe mais uma vez! Em cada situação novas oportunidades. Agradeço a apresentação e a presença de todos. Contextualizo a platéia sobre o programa da noite e em seguida inicio o conteúdo. Logo na sequência procuro quebrar o gelo com uma anedota encadeada ao tema e tudo passa a correr conforme o planejado. As palavras fluem. A interação com o público é boa. Falo sobre a importância do conhecimento nas nossas vidas, ressaltando, entretanto que se vive uma época de emburrecimento individual. Não mais dominamos o ciclo completo dos fatos e cada vez mais dependemos do conhecimento que se encontra em outras cabeças e, principalmente, nos equipamentos tecnológicos. Rapidamente avanço sobre questões como iniciativa, criatividade e flexibilidade, que compõem o quadro da palestra, também presente no livro. A relevância de saber viver em comunidade, uma vez que não se vive ilhado, assim como a importância de saber reagir frente a situações inesperadas. Em seguida discorro sobre os sonhos. Além de toda a argumentação em torno dos sonhos e de como eles influenciam nossas vidas, naquele momento eu estava realizando mais um sonho. Comecei a enfatizar que cada sonho tem o seu preço e que nós estaremos tão mais dispostos a pagar mais pela sua realização quanto maior for o valor que cada sonho representa. Quanto vale um sonho para você? E para demonstrar que o sonho sobre o qual eu estava falando e que havia alcançado teve um preço a ser pago, anunciei: Agora vou mostrar um vídeo de dois minutos em que vocês poderão ver parte do preço que paguei para a realização do sonho. Nada disso que até agora mostrei veio de graça. Houve um preço e eu o paguei! Viro-me para o telão e clico no controle para iniciar a projeção do vídeo quando tudo escurece. A luz dá uma piscadela e o telão reaparece com a imagem: No signal. O espetáculo que deveria começar desmorona diante de meus olhos. O vídeo seria um dos pontos altos da palestra, pois expressava o quanto havia pago em termos de sacrifício para a realização do meu sonho. A noite estava se tornando um pesadelo. O meu cérebro entrou em choque. Pensei comigo mesmo: Não, isso não pode estar acontecendo comigo! Era a incredulidade que sempre nos acomete quando situações que parecem impossíveis nos acontecem, sejam elas positivas ou negativas. A incredulidade traduz-se em negação. Mesmo aquele sujeito que acerta as seis dezenas da megasena automaticamente reage com um Eu não acredito!, que em seguida é acompanhada pela sensação de euforia, entre outros sentimentos positivos. Já no meu caso, mesmo não acreditando a situação era real. A incredulidade vinha acompanhada por todas as sensações ruins. Apesar de haver revisado e testado todos os equipamentos no momento em que mais os precisava eles estavam falhando. O pânico tomava conta de mim por dentro. Olhei para o operador do computador que abanava a cabeça negativamente dizendo que não estava entendendo o que acontecia. Olhei para o promotor do evento em busca de apoio. Olhei para a platéia que se movia nervosamente nas cadeiras percebendo a minha aflição. Frente a mim mais de setecentas pessoas. O que é que eu faço? Pensava comigo mesmo. Apesar da incredulidade, que se confirmava na realidade, hoje posso claramente ver que as reações iniciais me empurravam para a busca de uma alternativa. Merda!, foi o que me veio a cabeça, embora não pudesse praguejar, porque  o microfone estava funcionando. Mentalmente continuei insultando a Deus, ao diabo e ao mundo. Olhe mais uma vez! Em cada situação novas oportunidades, pensava. Onde estão as oportunidades que eu mesmo digo que existem em cada situação? Apesar de todos os problemas externos e da turbulência interna mantive o controle e procurava a alternativa. Evidentemente que nós podemos escolher as negativas ou positivas. Negativamente, frente a um problema inesperado, podemos reagir lutando contra aquilo que não tem solução. Poderia bater no computador, xingar o operador, ter um xilique, enfim uma série de comportamentos de quem quer sustentar o que é insustentável. O cérebro trabalhando a mil por hora, acompanhado por um sorriso amarelo no rosto.  Não, de nada adiantaria ter um xilique! Busquei manter contato com o público, por meio de uma brincadeira para minimizar a situação e camuflar o meu estado de choque. Ainda nas situações negativas algumas pessoas ficam passivas, fogem ou se ocultam na ilusão de que nada está acontecendo frente as dificuldades. Essas reações, além de não resolverem nada normalmente agravam o problema. Embora saiba-se muito bem que boa parte de nossos problemas são muito mais imaginários do que reais, ali a situação constrangedora não tinha absolutamente nada de aparente.

Por outro lado, podemos buscar alternativas pela vertente positiva quando nos ocorre algo tão imprevisível como o que me ocorrera naqule momento. Deve-se avaliar a situação para saber até que ponto vai a gravidade da dificuldade. Relembrando a situação, mesmo enquanto mentalmente insultei a tudo e a todos, meu cérebro estava procurando a solução, Vai demorar demais até que se reinicie o computador e se consiga voltar ao ponto… Fiz alguma graça com o ocorrido e disse que os havia alertado no início da palestra, quando falei do nosso emburrecimento e da nossa atual dependência tencológica. Nessa vertente a segunda possibilidade é expor com franqueza e foi o que fiz quando expus o pretendido, mas que iria continuar a palestra sem os recursos de imagem e de som que esperava que produzissem um grande impacto no público. Era a única oportunidade que me ocorria no momento, pois buscava a cooperação da platéia para a minimização do embaraço que a situação havia provocado. Entretanto, a incredulidade ainda pairava em meus olhos e na minha expressão. Eu precisava reagir. Forçosamente o show não poderia parar. Retomei o assunto e destaquei aquilo pelo que estava passando naquele momento, explorando  alguns pontos sobre como nós reagimos frente a situações para as quais não estamos preparados. Em seguida, como já havia dito, voltei ao tema da palestra, uma vez que eu a conhecia de cabo a rabo. Não necessitava das muletas tencológicas. Avancei nos tópicos que ainda faltavam, enquanto esperava que o operador conseguisse fazer com que os equipamentos voltassem a funcionar. Eu estava mortificado, mas continuei como se nada tivesse acontecido. Depois de mais de vinte minutos, finalmente, pude exibir o vídeo e terminar a palestra conforme o inicialmente programado.

Esse fato continuou me incomodando por muito tempo. Apesar de não ter interrompido a palestra e de não ter dado mostras de que o ocorrido houvesse me perturbado, por um longo período eu sempre pensava sobre o tema. Mesmo sabendo que a principal tese defendida desde o título da palestra e do livro era a de que se deve deitar um novo olhar sobre todas as situações, inclusive nas aparentemente mais difíceis, e ver nelas oportunidades, não conseguia me conformar. Considerava que não havia reagido o suficientemente bem. Havia me deixado levar pelo constrangimento da situação, apesar das afirmativas contrárias dos presentes ao final do evento. Lembrava-me do título do livro e da palestra Olhe mais uma vez! Em cada situação novas oportunidades e me perguntava: como não consegui ver oportunidades naquele momento? ainda me mortificava aquela situação sobre a qual já não tinha mais nada a fazer. Logo eu que sempre afirmava que se um problema não tem solução, solucionado está. Depois de tanto pensar sobre a situação e de como eu poderia ter mais bem reagido, finalmente cheguei a um consenso interno. Sobre aquele fato realmente eu nada mais poderia fazer, são águas passadas. Entretanto, eu poderia explorá-lo melhor nas próximas oportunidades. Foi assim que passei a inserir em minhas palestras uma tela de power point com a imagem de fundo No signal! Sigo o mesmo roteiro, crio toda a expectativa em torno do vídeo que me preparo para apresentar e na hora “H” entra a tela de “sem sinal”, indicando que não há comunicação entre o computador e o projetor. Isso aparentemente. Faço todo o teatro que a situação requer. Jogo a questão para a platéia e pergunto o que cada um faria naquela situação. Interajo com o público, brinco e vejo as diferentes reações das pessoas frente ao inesperado, para depois explicar que é apenas uma brincadeira. Exibo o vídeo e termino a palestra.

Zona de conforto, habilidades e atitudes

Moacir Rauber

Numa das palestras que realizo estava eu começando a tratar sobre conhecimentos, habilidades e atitudes. Falei sobre os conhecimentos, depois passei a falar sobre as habilidades, demonstrando na prática como se consegue mais com menos. Com minha cadeira de rodas demonstrei que posso subir um degrau, descer dois ou três, empinar, dançar, enfim, fazer quase tudo que os demais fazem. Logicamente que essas habilidades não vieram de graça. Para aprender a usar a cadeira de rodas de forma ágil e dinâmica foram horas e horas de treinamento e muita prática. Enfim, não havia outra alternativa, pois ela estava sempre comigo, além de ser o único recurso do qual eu dispunha. Vivem-se situações parecidas nas empresas, nas profissões e no cotidiano. Eu estava literalmente flutuando n o palco com minha cadeira de rodas, enquanto falava sobre o tema. Logo passaria a falar sobre as atitudes. Na última manobra fiz um movimento mais radical, fui traído pela minha zona de conforto e ao executar mal o movimento eu me estatelei no chão. Ao fazer um giro de 360º, enrosquei com meus dedos nos raios da roda que travou. O meu ponto de equilíbrio foi para o espaço e eu fui para o chão. Caí de maduro no palco. Isso em frente a mais de 400 pessoas. O choque foi geral. Os olhos das pessoas se arregalaram. Praticamente todos se levantaram instantaneamente num momento de comoção. Fiquei deitado com o rosto virado para o chão. Como iria encarar toda aquela gente depois de um vexame desses? Logo percebi que algumas pessoas corriam em minha direção. Olhei ao redor e vi gente com lágrimas nos olhos, paralisadas, chocadas e com uma expressão de dó e de pena em seus rostos que chegava a comover. Alguns deviam estar pensando, O manquinho se ferrou! Também, tava querendo se exibir demais… O mesmo ocorre conosco em situações do dia-a-dia, quando vemos um amigo se estatelar em seu novo empreendimento também ficamos chocados e com dó, inicialmente. Ficamos comovidos, mas não ficamos impedidos de dirigir-lhe algum pensamento maldoso ou mesmo uma crítica aberta. Por outro lado, para quem está no fundo do poço, para quem está quebrado, falido ou estirado no chão os sentimentos provocados nos demais, aquele misto de comiseração e pena, muitas vezes servem como alívio e como estímulo para nada mais fazer. Os sentimentos de pena e dó são cruéis. Por um lado trazem abrandam a dor, mas podem fazer com que alguém não queira mais se levantar. E para sair dali de onde eu estava, no chão, no fundo do poço da minha apresentação haveria somente uma coisa a ser feita. Havia somente uma forma de sair dali dignamente e seria através da atitude. Levantei a cabeça, olhei diretamente para as pessoas que vinham em minha direção para ajudar-me e disse-lhes, Não, não precisam ajudar. Caí sozinho e vou me levantar sozinho! Girei e sentei-me. Puxei minha cadeira para perto de mim. Posicionei-me de forma a poder subir na cadeira. Fiz um movimento vigoroso e brusco subindo novamente na cadeira de rodas. Ajustei-me a ela, arrumei minhas roupas e outra vez peguei o microfone. Olhei a platéia de frente. Eles ainda estavam perplexos, exibindo feições que demonstravam um sensação de alívio, pela minha volta a cadeira, e também de vergonha alheia, pelo vexame pelo qual havia passado. Foi a partir desse momento que retomei a reflexão sobre as habilidades que nos levam para uma zona de conforto. Discorri sobre o tema, falando que da mesma forma como eu caí justamente numa manobra que faço todos os dias todos nós podemos cair em qualquer uma de nossas atividades. Sejam elas corriqueiras ou não. Entretanto, para sairmos da zona de conforto ou do desconforto em nossas quedas, somente há uma forma e ela se chama atitude. Atitude para fazer o que deve ser feito. Atitude para não aceitar o falso conforto que encontramos no fundo do poço. Atitude para mover-se em direção aos nossos objetivos. Atitude para encenar uma queda e levantar-se, sabendo que estaria pagando um mico tremendo, mas que certamente seria uma ótima forma de se demonstrar como somente as atitudes nos tiram de situações difíceis.

O desafio de preparar as pessoas para gerir pessoas


Moacir Rauber
Acompanhar o processo de recrutamento e seleção numa das maiores empresas brasileiras e mundiais pode nos levar a algumas ilações interessantes sobre o atual modelo de gestão de pessoas. A empresa em questão figura entre as dez melhores para se trabalhar por vários anos da Revista Exame e mantém uma área específica para a gestão de pessoas, que tem assento na direção estratégica da organização. Tudo certo como manda o figurino da moderna gestão de pessoas em busca da melhor competitividade, partindo do pressuposto de respeito ao indivíduo que trabalha na organização. Entretanto, a prática de recrutamento e seleção desmente essas iniciativas e até as orientações do corpo diretivo da empresa.

Havia uma vaga, foi feito um processo de seleção e elegeu-se um candidato, que havia se deslocado 800km para efetuar a candidatura. Acertou-se o salário e as condições de trabalho para o selecionado, bem como o seu início para dali a 15 dias. Esse seria o tempo que o selecionado teria para retornar a sua cidade, organizar as questões pessoais que são todas afetadas numa mudança dessa dimensão. Tudo certo entre o candidato e o novo chefe. Este pediu que aquele passasse na área de Gestão de Pessoas e Sustentabilidade Social. O selecionado chegou e comunicou o combinado e solicitou as informações necessárias para a formalização da contratação. Passam-lhe a lista de documentos e as demais exigências como de praxe, entre elas a de retornar em sete dias para o exame admissional. O selecionado explicou a situação da distância e dos quinze dias que teria para se organizar antes de retornar. Houve um impasse e a contratação não aconteceu. O nome pomposo da área de Gestão de Pessoas e Sustentabilidade social na prática se revelou completamente avesso as suas prerrogativas, nada mais sendo do que um departamento de pessoal.

Um artigo com o nome “Pessoas do século 21, empresas do século 20”, escrito Gil Giardelli na Você S/A, diz que atualmente se tem modelos organizacionais do século XIX, companhias do século XX, a educação do século XIV e as pessoas do século XXI. Apesar de ser interessante não concordo totalmente com ele, uma vez que não há como as pessoas estarem no século 21 e as organizações se manterem no século passado, porque há uma interdependência entre elas em que uma não existe sem a outra. E a situação exposta pode nos indicar justamente o contrário do se afirma no artigo. Apesar da política explícita nas diretrizes organizacionais de valorizar as pessoas, procurando alinhar-se as suas necessidades como forma de reter os melhores talentos, os integrantes da área de gestão das pessoas mantiveram-se no século XIX, gerindo tão somente processos. Pelo cenário descrito pode-se presumir que as falhas na contratação do colaborador são muito mais responsabilidades dos indivíduos que compõem a área do que das políticas, uma vez que se dispensou um colaborador selecionado por uma simples questão de processos. Não eram essas as diretrizes da organização, mas foi esse o comportamento exibido pelos integrantes da área, assentado aos processos e que não conseguiram visualizar nada fora do quadrado que determinou o desfecho negativo da situação. E trata-se de uma pessoa como você, como eu ou como o colaborador selecionado, que não foi contratado porque não pode viajar 800km especilamente para fazer o exame admissional.

São comportamentos como esses que determinam em qual século se encontra a empresa e que estão muito mais ligados as pessoas que a compõem do que propriamente as suas diretrizes. Por isso, talvez um dos grandes desafios seja o de preparar as pessoas para a gestão de pessoas, cabendo as organizações, a partir de seu corpo diretivo, prepará-las para essa nova realidade, garantindo que os talentos selecionados permaneçam na mesma melhorando a sua competitividade. Porque somente as pessoas farão as organizações a deixarem para trás a educação do século XIV e os modelos organizacionais do século XIX, levando-as definitivamente para o século XXI.

Empresa não é família

Moacir Rauber
Muitos proprietários de pequenas e médias empresas, incluem-se aqui alguns gestores de grandes empresas, estufam o peito para dizer que a sua empresa funciona como uma grande família, dizendo para muitos de seus colaboradores, Este é meu irmão ou intitulando-se como pai de todos. Essa é uma abordagem completamente equivocada e pouco verdadeira, porque a relação profissional está em primeiro plano. Os colaboradores são contratados para realizarem determinadas tarefas, incorporarem-se a equipes de trabalho e produzirem resultados, que se não alcançados ensejam seu despedimento. Após o desligamento do colaborador da empresa rompem-se os vínculos entre as partes. Por outro lado, um relacionamento familiar não se dá dessa forma, pois simplesmente não se pode “demitir” um filho, um pai ou um irmão. Logicamente que de uma empresa se pode demitir qualquer ente familiar, mas não é isso que fará com que o filho deixe de ser filho, o pai deixe de ser pai ou o irmão deixe de ser irmão. Não é o fato de dizer “você não é mais meu filho” que fará com que isso se transforme numa verdade.
Tome-se como base a simples questão conceitual por trás das palavras. Por família, segundo o dicionário Priberam de língua portuguesa, entende-se o conjunto de todos os parentes de uma pessoa, e, principalmente, dos que moram com ela, destacadamente o conjunto formado pelos pais e pelos filhos. Outras definições do dicionário remetem a grupos de determinadas espécies ou vocábulos com a mesma raiz, mas nada que se coadune com a relação havida entre patrão e empregado numa empresa. Denotam-se a partir desses conceitos relações muito mais complexas entre os membros familiares que, muitas vezes, extrapolam as questões de legalidade. Para o mesmo dicionário, entende-se empresa como sendo sociedade ou companhia que explora qualquer ramo de indústria ou comércio ou também especulação industrial ou mercantil, inserindo-se nesse contexto a relação com o grupo de colaboradores que a formam. Portanto, um colaborador não tem na sua relação com a empresa as características encontradas nas relações familiares, encaixando-se muito mais no conceito de integrante de uma equipe, que se entende como sendo um grupo de pessoas reunidas para uma mesma tarefa ou um mesmo objetivo, uma empresa. Desse modo, integra-se a equipe enquanto o conjunto que a compõe acredita que se está cumprindo com os objetivos para os quais a pessoa está ocupando aquele lugar. No momento em que se deixa de corresponder com as expectativas de resultados corre-se o risco de ser desligado da equipe. Assim é no futebol, no basquete, no vôlei ou em outro esporte qualquer, mas assim funcionam as relações, principalmente, no ambiente empresarial. Passado o período inicial da contratação, em que fatores como a socialização mais ou menos adequada são consideradas aceitando-se alguns deslizes, como um período de ajuste entre as partes, a relação se mantém ou se suspende dependendo dos resultados. Nesse ponto não importa ser chamado de irmão, pai ou filho pelos superiores, pois se os frutos não aparecerem você estará fora da equipe, ou melhor, da empresa. Logicamente que criar um ambiente de confiança, transparência e lealdade é importante para que as pessoas sintam-se bem e confortáveis, mas deve-se ser claro também nas responsabilidades e da forma como se dá a relação. Ou seja, todos que estão na equipe devem alinhar seus objetivos com os da organização, esclarecendo-se o que se espera de cada um e a forma como todos serão avaliados individualmente e na relação com os demais. Isso tudo é muito diferente das relações familiares, pois estas se mantém muito mais pelos laços consaguineos e afetivos do que pelos resultados, pela lealdade ou pela ética, caracteríticas mais facilmente encontradas nas relações entre os membros de uma equipe, seja ela esportiva ou empresarial.

Portanto, trate o seu colaborador com o respeito, a confiança, a ética e a transparência que as atividades numa organização empresarial exigem, sendo correto e justo, sem usar termos familiares para manter uma falsa aproximação com os colaboradores. Do mesmo modo, não há a necessidade de ser demagogo para manter uma equipe focada e motivada em busca de resultados e objetivos comuns. Digo falsa e demagogo para essas tentativas de uso de denominações familiares nas relações empresariais, porque elas realmente são. A menos que os seus colaboradores façam parte de sua família e também estejam em seu testamento e tenham direito a sua herança. Eles fazem parte? Eles tem os mesmos direitos legais que os seus irmãos, pais e filhos sobre os seus bens? Em caso afirmativo, ótimo, chame-os de irmãos, de pais ou de filhos, pois somente assim eles realmente são parte integrantes de sua família.

Direitos e deveres: uma ligação intrínseca

Moacir Rauber

Lembro-me de um período em que trabalhei numa universidade, na qual dava aulas três vezes por semana. Nos dias que me dirigia a ela, quase sempre estacionava no mesmo lugar, uma vez que havia vagas reservadas para pessoas com deficiência. Meu caso de cadeirante. Logicamente que a vaga não estava reservada exclusivamente para mim, mas para todas as pessoas com deficiência, desde que disso dessem visibilidade identificando o carro com o selo apropriado. Numa determinada noite cheguei ao trabalho para aplicar uma prova. As vagas estavam todas ocupadas. Observei os veículos que ocupavam as duas vagas reservadas e pude identificar um como sendo de um aluno da universidade, também cadeirante. O outro era de uma empresa conhecida na cidade. O vigia da universidade que me conhecia aproximou-se e disse: Olha, eu não sei quem é esse cidadão, mas ele não tem deficiência. Quando o vi disse-lhe que ele não poderia estacionar nessa vaga, mas ele não me deu a mínima! Depois dessa informação estacionei tão próxima da traseira do carro que estava inapropriadamente estacionado que não haveria como ele manobrar para sair antes de mim. Desembarquei, dirigi-me a sala de aulas e comecei a aplicar a prova. Passados uns 20 minutos o vigia bateu na porta da sala para dizer-me que o dono do carro havia voltado e gostaria de sair. Disse-lhe que assim que os alunos terminassem a prova eu iria tirá-lo. Passaram-se mais de 30 minutos até que, finalmente, todos os alunos terminaram a avaliação. Somente então voltei calmamente até o carro. Observei o dono do carro de longe. Lá estava ele, engravatado, com sua pasta executiva numa mão e na outra o celular, falando com alguém. Ele caminhava de um lado para o outro, todo nervoso. Aproximei-me em minha cadeira de rodas. Ao ver-me ele se acercou e pediu-me mil e uma desculpas, dizendo que havia chegado atrasado para uma reunião da universidade que deveria ter sido rápida e que agora já estava atrasado para outra reunião. Cumprimentei-o, embarquei no carro, carreguei minha cadeira e fui embora.
Certamente que os compromissos desse senhor eram importantes para ele, assim como os meus são para mim e os seus são para você. Todavia isso não dá o direito para quem quer que seja de invadir o direito de outrem. E mais. A reserva de vagas para as pessoas com deficiência representa um aspecto legal, proposto, discutido, debatido e regulamentado em lei, além do bom senso comum indiscutível. Em muitas situações não faço questão de me beneficiar dessas “vantagens” destinadas as pessoas com deficiência, mas especificamente no caso da reserva de vagas de estacionamento sempre busco esses espaços, porque senão meu veículo ocuparia dois lugares. Explico. Os cumpridores das leis não estacionam em vagas reservadas, motivo pelo qual, se eu, pessoa com deficiência, estacionar numa vaga convencional e deixar uma vaga reservada sem uso, ocuparei dois espaços. E isso também não é justo, assim como não é a situação exposta acima. Por isso que direitos e deveres estão tão intrinsecamente ligados, reforçando o dito popular que o direito de um vai até onde começa o direito do outro. Nem um centímetro a mais!

A nossa vida em projetos

Moacir Rauber

A tendência de gestão por projetos tem ganhado mais espaço gradativamente e tem sido apontado como uma novidade. Entretanto a questão da novidade é falsa. A gestão por projetos é tão antiga quanto a própria história da humanidade. Vive-se tão somente uma fase em que os projetos estão sendo diminuídos em tempo, espaço e tamanho. Antigamente tinha-se projetos para uma vida, como o casamento na esfera individual, ou a construção de uma catedral na esfera comunitária. O casamento uma vez assumido, independentemente da felicidade ou não dos parceiros, era cumprido a risca até o final da vida dos cônjuges. Amantes, traições e até agressões não eram motivos suficientemente fortes para superar a vergonha de uma separação. Era necessário concluir o projeto a qualquer custo. Os projetos de construção de obras de grande porte ilustram a história da humanidade. As pirâmides, os castelos e as catedrais eram projetos que igualmente se estendiam pelo prazo de uma vida.
No atual contexto individual ou organizacional mais e mais as metas e objetivos são divididos em projetos, que uma vez alcançados desdobram-se em outros tantos. Tem-se a vantagem de que são projetos curtos e que ainda assim podem ser interrompidos e mudados. As informações e as mudanças nos permitem mudar de rumo, tanto em nossas opções individual quanto nas escolhas organizacionais. E não há demérito nisso. Essa capacidade de mudança pode revelar a capacidade de se ajustar a novas verdades que fazem com que de projeto em projeto possamos ampliar nossa expectativa de vida pelo acúmulo de experiências.
E como vão os projetos da sua vida? Imutáveis? Fixos? Maleáveis? Ampliáveis?

Vamos cruzar a rua?

Moacir Rauber

O mundo organizacional pressiona-nos para que sejamos pró-ativos e tenhamos iniciativa nas diferentes esferas das nossas vidas, seja ela pessoal ou profissional. Queiramos ou não dificilmente consegue-se separar uma da outra. Assim, aqueles pró-ativos vão ocupar os melhores lugares nas empresas ou nas organizações que compõem a nossa forma de sociedade. Também vão chegar na frente na disputa por parceiros! Isso se reflete no comportamento do cidadão comum.

Estava eu, um dia desses, no centro de Florianópolis aguardando uma amiga. Havíamos marcado nosso ponto de encontro num cruzamento bem em frente ao prédio onde ela morava, que não tinha acesso para um cadeirante. Como sou meio ansioso cheguei antes do horário. Fiquei ali próximo ao semáforo, olhando para o relógio e para o outro lado da rua de onde ela supostamente viria. O sinal estava fechado para pedestres. As pessoas foram se aglomerando a minha volta. Logo em seguida deu sinal verde. A movimentação foi intensa e eu fiquei ali, parado, esperando. De repente chegam dois sujeitos correndo, meio que esbaforidos e me perguntam já empurrando minha cadeira de rodas: “Você quer cruzar para o outro lado? Nós te ajudamos.” Não tive tempo de reagir ou responder, pois estava tentando não cair da cadeira ou não perder a minha pasta que estava sobre as minhas pernas. Aos trancos e barrancos chegamos ao outro lado e os dois bondosos pró-ativos soltaram a minha cadeira e um deles perguntou: “Tudo certo? Tá beleza?”, certamente esperando um obrigado, porque afinal haviam feito a boa ação do dia. Respondi, “Comigo tá tudo bem, o único problema é que eu não queria cruzar a rua…” O queixo de um e do outro quase que caiu. Entreolharam-se e um deles murmurou, “Mas você não disse nada…” Eu ri e comentei que estava tudo bem, mas que de uma próxima vez, para poder ajudar, deveriam eles saber como fazer e se era aquilo mesmo que o ajudado estava procurando.

Entenda-se que a pró-atividade também tem a ver com entender e colocar-se no lugar de quem é o objeto da iniciativa. Por isso, antes de empurrar alguém para cruzar a rua procure saber se é isto que a pessoa deseja. E na tua organização vocês estão empurrando os clientes para onde vocês querem ou para onde eles pretendem ir?

Você é um workaholic?

Moacir Rauber

Assim como os demais viciados, o workaholic também tem prazer naquilo que faz, porém conta com a aprovação daqueles que estão em seu entorno. Os amigos se impressionam. Ou melhor, os conhecidos, porque amigos já nos os tem. O próprio viciado propala aos quatro ventos as suas capacidades de trabalhar ininterruptamente, por não sei quantas horas, por quantos dias, meses ou anos, sem necessitar de férias ou algum convívio social sem que seja em função do trabalho. O único assunto é trabalho. Orgulha-se disso. Entretanto, orgulhar-se de trabalhar em excesso é um passo para reconhecer a própria incompetência. O mais difícil, no final, é que para curar-se desse vício há um paradoxo. Para curar-se de um vício, normalmente, precisa-se de tratamento. Para buscar tratamento deverá procurar um profissional para auxiliá-lo. Para obter os serviços de um profissional que o ajudaria a livrar-se do vício, precisará pagá-lo. Para pagá-lo terá que trabalhar ainda mais. Esse é um verdadeiro círculo vicioso.
Por isso trabalhe melhor, não mais ou demais!


Somos únicos. Somos múltiplos.