O maior problema

Moacir Rauber

Quase sempre quando interagimos e nos relacionamos com outras pessoas, sejam elas da empresa na qual trabalhamos ou mesmo em qualquer outro círculo social, as conversas recaem sobre os problemas que se enfrentam. Apontam-se as situações problemáticas de comportamento da sociedade como um todo, dos meios de comunicação, de alguma organização,  de alguns indivído em específico, do chefe, do vizinho, do cachorro, do papagaio, enfim, de todos a nossa volta que já não demonstram atitudes adequadas e éticas. Quase em sua totalidade estão fora de nós e esquecemo-nos dos problemas derivados de nosso comportamento. Na grande maioria das vezes, na nossa visão, os nossos problemas são derivados daqueles que antes citamos. Dificilmente passa por nossas cabeças que os nossos problemas poderiam ser resultados das nossas próprias escolhas, muitas delas equivocadas. Das nossas omissões em não resolver, mas de trasnferir.  Principalmente se considerarmos que errar é humano, mas atribuir a culpa a outro é fundamental. E assim, vamos empurrando nossas culpas e procurando atalhos em busca do caminho mais fácil. Esquecemos que se nós assim pensamos também os outros possivelmente o fazem e transferem para nós as responsabilidades dos seus problemas, criando-se um círculo vicioso no qual ninguém resolve os próprios problemas.

O maior problema de cada um é literalmente de cada um. Algumas pessoas podem viver situações mais drásticas, terríveis e assustadoras, entretanto somente ela mesma poderá resolvê-las, por mais ou menos grave que seja. Ninguém pode resolvê-las para você, exceto você. Outras pessoas até podem se compadecer, se solidarizar ou mesmo colaborar com você em algum momento, mas ninguém pode resolver nada por você. Não se trata de egoísmo. Nós até podemos nos importar com os outros e entender que a situação vivida por aquele meu colega é difícil, mas cabe a ele resolvê-la ou não. Até o fato de transferir para os outros a responsabilidade que é sua é decicido por você. Por isso, o seu maior problema é o seu. Resolva-o que é a melhor maneira de colaborar para a resolução dos demais problemas!

Onde está o seu maior problema? Já conseguiu identificá-lo para poder resolvê-lo?

Epitáfio…

Moacir Rauber

Uma pergunta muito comum feita às crianças e aos muitos jovens recém contratados nas organizações é, o que você quer ser na vida? Trata-se de uma abordagem inconveniente e errônea, uma vez que ser nós somos desde o momento que passamos a existir. A indagação deveria ser outra, o que você vai fazer da sua vida? Essa sim é uma pergunta que cada um pode responder, porque sobre as nossas vidas nós temos autonomia. O tracinho existente entre o ano de nascimento e o ano da morte cabe a cada um preenchê-lo com as suas decisões, ações e consequências. Essa autonomia pode ser comprovada nos exemplos de tantas vidas de pessoas que souberam vivê-las, assim como pode ser constatada em muitos epitáfios de lápides de pessoas que souberam fazer da sua vida aquilo que queriam, ou não.

Para exemplificar, pode-se escolher duas pessoas com a mesma origem social, com semelhantes graus de instrução e com igualdade de condições financeiras e se encontrará uma realizada e outra frustrada. Encontram-se pessoas que conquistaram tudo o que o dinheiro pode oferecer, mas não conseguiram levar a vida de forma a encontrar nela o bem-estar. Da mesma forma, outras pessoas com boas condições de vida souberam viver bem, inclusive transmitindo a sensação de bem-estar para os demais. Também se pode encontrar pessoas com poucos recursos materiais, mas que conseguiram encontrar o equilíbrio para levar uma vida plena, enquanto outros se prendem as frustrações daquilo que não conquistaram. Certamente que existem fatores fora de nosso controle que afetam as vidas, de todos sem exceção. Portanto, o que fazer da sua vida é uma decisão é pessoal e intransferível! Também os epitáfios oferecem muitos exemplos de pessoas que souberam ou não preencher o seu tracinho. Vejo alguns cômicos, mas nem por isso menos reveladores. “Aqui jaz um homem que morreu de saco cheio”, poderia até ser o Papai Noel, mas provavelmente esconde alguém angustiado. “Agoras estás com o Senhor. Senhor, cuidado com o dinheiro”, certamente trata do caráter ou da falta dele. “Bom esposo, bom pai, péssimo eletricista em casa”, expõe que por trás dessa lápide poderia estar alguém um pouco descuidado, mas que por certo teve uma passagem digna. Entretanto, ver numa lápide o dizer “Uma andorinha que fez verão!” certamente revela uma pessoa que teve uma vida plena e que soube o que fazer com aquele traço entre as datas de nascimento e morte. Por isso, o desafio é que cada um possa ter a frase que o define já em vida, antes que os outros escrevam por você.

Logo, vem a pergunta, o que você quer que escrevam sobre você abaixo do seu nome quando sobre ele estiver a expressão Aqui jaz?

A sociedade do propósito

Moacir Rauber

Assistir a uma conferência sobre o conhecimento é sempre interessante, porque se questiona o próprio conhecimento. Considera-se, portanto, que não basta buscar o conhecimento pelo conhecimento, pois este deve cumprir com o objetivo de melhorar quem o busca para também melhorar o mundo para aqueles que não o detém. Desse modo, a sociedade do conhecimento deve avançar para a sociedade do propósito, porque também o conhecimento deve tê-lo. 

O todo e a avaliação de desempenho

E a sua organização, como vai?
Moacir Rauber
 
O foco de todo o sistema de avaliação de desempenho desenvolvido e aplicado dentro das organizações sempre é o desempenho do colaborador. Correto, justo e positivo, pois a partir dessa ferramenta se pode ter parâmetros de produtividade que nos auxiliem a avaliar nossa competitividade frente as demais orgnaizações, bem como a organizar ou reorganizar nosso quadro de colaboradores, com vistas a oferecer um produto ou serviço o mais customizado possível. Entretanto, a gestão das organizações deveria também se preocupar em responder outras duas questões:
 
(1)   Como seria a avaliação de desempenho da sua organização a partir da visão do indivíduo?
 
(2)   A sua organização consegue entender o todo individual dos colaboradores que a compõem?

A importância do segundo


Moacir Rauber

Encostei o barco no trapiche da linda raia de Munique, na Alemanha. Estava ofegante, exausto, completamente esbaforido. Havia terminado a regata em quarto lugar, um resultado muito aquém do esperado. Logicamente, neste momento passam pela cabeça todo o período de dedicação, as opções feitas e, consequentemente, as abdicações resultantes daquela escolha. O período de treinamento dedicado, visando especificamente este campeonato mundial de remo, havia começado em fevereiro e agora estávamos em setembro. Foram horas, dias, semanas e meses de treinamentos diários, com raras folgas, muito esforço e muito suor, frutos de uma rotina cansativa de treinos repetitivos de musculação e remadas. Um circuito completo dos exercícios de musculação consistia no uso de dez diferentes aparelhos e equipamentos, entre eles o temível remo ergômetro, totalizando três horas. Puxa e solta o peso, repete uma, duas, quinze, trinta vezes. Olhar fixo na parede, no branco que não nos reconforta. Intervalo de um minuto e meio entre uma repetição e outra. Neste momento o tempo voa, depois pára. Voa no intervalo e pára no exercício. Cansaço e suor. Um objetivo fixo na memória, os exercícios e os dias se repetem. “Não há esporte de alto rendimento sem sofrimento, sem comprometimento”, dizia o treinador. O sofrimento fazia parte dessa rotina e o comprometimento tinha dois lados. O primeiro era o compromisso do atleta com o programa de treinos, o objetivo traçado de alcançar o melhor resultado com a maior doação. O segundo lado do comprometimento se referia aos malefícios trazidos ao corpo pelo ritmo excessivo de treinos, sobrecarga a que são expostos os músculos, os ossos, os ligamentos, as articulações e toda a estrutura orgânica do atleta visando um desempenho acima do que permite o próprio corpo, pensando em superar os tempos dos adversários. “Esporte de alto rendimento não é saúde, é exagero” vaticinava outra vez o treinador. E deixava bem claro que se nós quiséssemos ter mínimo de êxito nas competições deveríamos ter superação, dedicação e comprometimento em todos os dias de nossa preparação. Os treinos na água eram menos tediosos, porém não menos desgastantes. A minha categoria, que rema usando somente os braços, faz em média dez quilômetros de percurso na água por sessão de treinamento, muitas vezes se dava em dois períodos diários. Mas esse percurso não consiste em remadas de passeio. São diferentes exercícios sempre buscando o melhor desempenho. Na saída a orientação para que se fizesse cinco quilômetros de aquecimento, iniciando num ritmo mais lento, mas gradativamente alcançando uma pegada mais forte. Depois vinham exercícios de força e velocidade. Repetições intermináveis de vinte remadas em força máxima, dez remadas suaves, vinte, dez, e assim até completar mais quatro quilômetros. Por fim, mais um quilômetro de tiro livre em força máxima.

Toda essa preparação, toda a infindável repetição dos treinos diariamente para chegar em QUARTO lugar? Lembrar de todos os domingos que fiquei em casa ou no alojamento, enquanto meus familiares se reuniam para churrascos de fim de semana ou mesmo para alguns dias na praia… Todas as sextas à noite em que fui cedo para a cama, enquanto meus amigos se divertiam nas baladas… Não ter aceitado nenhuma oferta de trabalho para poder me dedicar exclusivamente aos treinos pensando em chegar em primeiro… Mas, no final, apesar de todo o empenho, cheguei em quarto lugar naquela derradeira regata! Naquele momento, soube que seria a última, pois não teria mais pique nem ânimo para repetir tudo outra vez. Mas, por outro lado, olhando para aquelas mais de vinte mil pessoas assistindo à regata, telões armados, empresas instaladas no local, emissoras de televisão transmitindo ao vivo, enfim, o circo armado, percebi que nada disso seria feito se somente participasse do evento aquele que chegou em primeiro lugar. Percebi que isso se aplica a todos os esportes. No futebol participam de uma competição 20 ou trinta equipes, mas em primeiro lugar chega somente uma. No tênis o ranking enumera mais de 1500 atletas, sendo um privilégio constar na lista, mas primeiro lugar existe somente um. Nas corridas de Fórmula 1, são vinte equipes, mas ao final da etapa somente uma chega em primeiro, bem como no final do campeonato… Também lembrei que sempre há lugar para o segundo, para o terceiro, para o quarto lugar, enfim… sempre há lugar para aquele que faz o melhor que pode! Afinal, quem seria o primeiro se não houvesse o segundo? E o segundo sem o terceiro? E o que seria de todos os anteriores se não houvesse o último? E este último certamente é melhor do que aquelas milhões de pessoas que sequer tentaram!! O nosso mundo é formado muito mais por pessoas que não alcançaram o primeiro lugar, ou seja, de segundos, terceiros e tantos lugares quanto haja na classificação.

E você, está buscando ser o primeiro ou está


caminhando para ser sempre melhor?

Tava pedindo!

Moacir Rauber

A expressão que dá título ao texto tem sido usada cada vez com mais frequência, representado uma inversão completa de valores que a sociedade vai aceitando como normal. Quem já não ouviu a notícia de um assalto em que os comentários do público não se indignam com o comportamento do infrator, mas com o descuido da vítima? Essa realidade tem se repetido por todas as cidades brasileiras, desde as metrópoles até as mais pequenas.

Outro dia estávamos nós no centro de Porto Alegre acompanhando uma equipe de remadores na competição estadual. No final do dia, logo após o período de treinamento, nos dirigimos ao mercado público para jantar. Ao cruzarmos a rua, próximo a um acesso subterrâneo, vimos uma mulher ser assaltada e ouvimos os seus gritos desesperados, porque o ladrão havia levado a sua bolsa. Algumas pessoas levantaram a cabeça e direcionaram-lhe um olhar, para em seguida continuar seu caminho, imersos em seus pensamentos com os seus próprios problemas. Nós, ali parados feito um bando, da mesma forma olhamos, até nos espantamos com a tranquilidade com que o assaltante se evadiu do local e também seguimos para o jantar. Entre um e outro do grupo que ainda se admirava do ato violento presenciado a grande maioria concordava que a mulher estava “pedindo para ser assaltada”. Como poderia ela caminhar com tanto descuido, deixando a sua bolsa dependurada no seu ombro com o conteúdo voltado para trás? Esse pensamento é de uma incivilidade tremenda a que estamos sendo levados sem nos darmos por isso. O mesmo raciocínio se aplica aos moradores que não cercam com muros e que não protegem suas casas com alarmes, câmeras e vigilância 24h; aos moradores de prédios e condomínios que não mantém todo um aparato de segurança; aos proprietários de veículos que não trancam seus carros, que não os equipam com alarmes e sistema de monitoramento por satélite, além do seguro que encarece não pela probabilidade de acidente, mas pela alta frequência dos roubos. É por isso que as pessoas gastam tanto com serviços de segurança que não deveriam, elevando drasticamente o custo de vida. Considere-se que a grande maioria da população é composta por pessoas de boa índole e que se comportam como as boas regras da convivência determinam. Entretanto, essa mesma maioria tem-se deixado levar pela imposição de comportamento de uma minoria de assaltantes que estão implantando uma nova ordem moral em que as pessoas ficam indignadas com a vítima e não com o crime ou com o criminoso. O certo seria eu poder andar tranquilamente pelas ruas de qualquer cidade em qualquer horário sem ser molestado por assaltantes ou delinquentes, muito menos ser taxado de descuidado ao sofrer uma violência contra meu direito de ir e de vir. Da mesma forma o certo seria poder deixar o carro aberto, as casas e os jardins sem muros e os condomínios sem grades. O certo seria que o ato de um assaltante gerasse indignação o suficiente para que os transeuntes se reunissem, o detivessem e o encaminhassem para a delegacia mais próxima, porque era ele quem “estava pedindo” para ser preso.

Todos deveriam se indignar com aquilo sobre o qual já não se indigna mais, pedindo que as regras da boa convivência sejam respeitadas e que as leis sejam cumpridas para que se tenha a liberdade de desfrutar de paz e tranquilidade sem correr o risco de sofrer um ato violento e ainda ser considerado culpado por isso. Considera-se, assim, que se precisa um pouco mais de rigor na observância das leis que acordamos como sociedade, porque somente esta poderá proporcionar a liberdade que em tese se tem num país democrático.

É isso que se está pedindo!

Incompetentes para a vida!

Moacir Rauber

Estimula-se, com razão, que as pessoas trilhem a sua vida buscando constantemente novos conhecimentos que melhorem a sua competência em diferentes áreas. Amplia-se, desta forma, a própria expectativa de vida, uma vez que o sujeito passa a ver o mundo sob diferentes ângulos. Entretanto, muitas pessoas têm ultrapassado o limite da competência, transformando essa busca numa obsessão que os têm deixado incompetentes para a vida.

Entenda-se competência como o saber do indivíduo que se transforma em ação pela vontade explícita em consonância com os recursos disponíveis para fazê-lo, alinhados com o meio no qual está inserido. Para destrinchar esse conceito deve-se percorrer o saber, o saber fazer, o querer fazer, o poder fazer e o saber ser/estar. O saber pode ser obtido por meio da aprendizagem formal, informal e de convívio, que forma o arsenal de conhecimento da pessoa. Essa busca pelo conhecimento, na abordagem motivacional, pode estar vinculada a autonomia, que é a iniciativa de fazer aquilo que se quer, quando e com quem se quer fazer. Contudo, existem pessoas que conhecem muito, mas não sabem fazer. Por isso, o sujeito, além de conhecer, deve saber fazer, que é justamente aplicar o conhecimento em situações práticas dentro da atividade que desempenha, seja na esfera social ou profissional. Essa condição pode ser conectada a ideia da excelência das teorias motivacionais, uma vez que o saber fazer demanda esforço e dedicação para executar com perfeição aquilo que se sabe. Entretanto, somente saber e saber fazer não basta. Deve-se querer fazer, que está diretamente vinculado a vontade de realizar aquilo que se sabe fazer. Volta-se novamente a ideia de autonomia, pois existem muitas pessoas que sabem e sabem fazer, sem, contudo, ter a determinação para querer fazê-lo. Dando um passo adiante, além de saber, de saber fazer e de querer fazer, deve-se poder fazer, sendo essa uma das muitas muletas usadas por aqueles que não querem fazer. São inúmeras as pessoas que usam este subterfúgio para não realizar aquilo que até gostariam, encontrando outros culpados pelo caminho. Por fim, o tema principal deste texto, reporta-se ao saber ser e saber estar, que onde os obsessionados pela busca de conhecimento muitas vezes falham. Estudam, qualifcam-se, aprimoram-se e desenvolvem tantas habilidades que se estupidificam, pois esquecem que para que todo esse conhecimento tenha algum valor precisam do outro, devem saber ser para poder bem estar. Para isso precisam de um propósito.

Muitas organizações ainda tem como propósito única e exclusivamente o dinheiro. Pelas tendências encontradas, em que cada vez mais as empresas que oferecem os melhores ambientes para se trabalhar têm obtido destaque, acredita-se que num futuro breve as organizações movidas somente pelo dinheiro deixarão de existir. Essa crença é reflexo de indivíduos que já não trabalham mais somente pela recompensa financeira, pois passaram a vislumbrar um propósito. As pessoas passaram a ter aspirações e motivações que até trazem resultados financeiros, mas não tão somente. São essas pessoas que sabem ser e sabem estar com os outros que transformarão os propósitos organizacionais. Por outro lado, pode se observar que muitos profissionais ultraqualificados têm se isolado. São profissionais de altíssimo desempenho, mas que se consideram uma ilha de competência cercados por incompetentes, segundo a própria visão. Desempenham suas tarefas de tal forma que as pessoas a sua volta já não querem mais ali estar, pois estas sentem-se diminuídas, fato que aqueles não fazem questão de minimizar. Projetam-se, expõem-se e exibem o seu desempenho, que consideram ser o seu grande diferencial, de tal forma que estão sempre vários passos à frente dos colegas. Desse modo, produzem muito, irritam-se com a falta de produtividade dos colegas e isolam-se cada vez mais. Terminam assim por magoar as pessoas com as quais convivem e frustram-se com isso. Nesse caminho as relações sociais também tornam-se áridas, pois toda a abordagem volta-se para o desempenho profissional, não restando margem para nada fora desse círculo. Nas confraternizações, no café, na rua, na chuva e na fazenda estão sempre competindo e desempenhando a sua função profissional. Cria-se, assim, o profissional com todas as competências, mas incompetente para a vida que termina por transformá-lo no maior dos incompetentes, porque não sabe ser e não sabe estar com os outros. Não tem um propósito maior para a propria vida do que o desempenho profissional. E justamente é no saber estar e no saber ser que se encontram as maiores oportunidades, que não se limitam ao âmbito profissional. É nesse saber que as pessoas se realizam. É nesse saber que se encontra o propósito de vida, que deve ir muito além de um excelente desempenho profissional, que até pode garantir dinheiro, mas certamente não garante bem estar. A vida não pode ser tomada somente sob o próprio prisma, pois deve-se entender que se todos são seres únicos, também as visões de vida são diferentes. Por isso, a competência deve incluir o saber ser para que as organizações tornem-se lugares melhores para o indivíduo estar.

Aprenda sempre, principalmente para não ser um imcompetente para a vida!

Um mundo com propósito!

Aqui estamos nós, num mundo de oportunidades. Descobriu-se a infinitude do macro e do micro universo, porque se  tudo pode ser multiplicado e tudo pode ser dividido,  tem-se infinitos planos infinitos. É por isso que se acredita que há uma sucessão de oportunidades despertadas pela consciência da infinitude de nosso mundo, que não havia sido alcançada por volta do ano 1000 da era cristã. Aqui também estava eu, próximo ao ano 2000, um cadeirante aos 19 anos de idade. Seria também para mim um mundo de oportunidades? Poderia ser uma cadeira de rodas uma oportunidade para um jovem? Pense-se nas dificuldades de acessibilidade que restringem a mobilidade. Pense-se nos impactos psicológicos provocados por um trauma dessa magnitude. Pense-se no ainda presente preconceito das demais pessoas com relação as capacidades de um usuário de cadeira de rodas. Pense-se em todas as dificuldades oriundas das limitações impostas por uma deficiência física nas motivações do atingido. Depois dessa reflexão pergunte-se se uma cadeira de rodas poderia ser uma oportunidade na vida de qualquer pessoa? Certamente que não há pai, mãe, irmão, primo, amigo ou mesmo inimigo que deseje uma cadeira de rodas para o próximo, garantindo-lhe que está diante de uma grande oportunidade. Entretanto, considere-se agora diante da inevitabilidade do fato e lembre-se que a sua vida é única e instranferível. Lembre-se também do ambiente no qual viviam as pessoas por volta do ano 1000 da era cristã. Analise sob diferentes aspectos e começa-se a vislumbrar possibilidades.

Pergunte-se o que você faria se não tivesse medo? Essa pergunta pode e deve ser feita e respondida por um cadeirante ou por qualquer outra pessoa. Ao respondê-la perca o medo que paralisa o cérebro. Perca o medo que embota a imaginação. Perca o medo que  limita a criatividade. Perca o medo que tira a iniciativa. Perca o medo que rouba a motivação. Depois faça algo que o leve para aquilo que você faria caso não tivesse medo, porque a maioria dos nossos medos se reportam a problemas imaginários.

Para isso é importante buscar conhecimento sobre aquilo que o pode levar até onde você quer ir. Conhecimento que deve gerar competência. Competência que se baseia no saber, no saber fazer, em querer fazer, em poder fazer e em saber ser. Ao estudar e compreender esse ciclo consegue-se entender as próprias motivações, assim como das pessoas circundantes. Lamentavelmente a motivação tem sido tratada muito superficialmente, apresentando-se com algumas regrinhas como se fossem fórmulas mágicas que resolvem todos os problemas. Mas a realidade não é assim. A motivação e suas variáveis podem e devem ser estudadas aprofundadamente. É a partir de uma análise mais profunda é que ser um cadeirante aos 19 anos de idade pode ser uma oportunidade.


Voltando-se no tempo, no início da trajetória humana no planeta terra as motivações dos seres humanos se resumiam a terminar o dia vivo, preferencialmente bem alimentado com a ambição maior de perpetuar a espécie. Num passado mais recente as motivações humanas já buscavam premiações e recompensas, assim como o evitamento das punições. Logo, parte das atuais organizações trabalham sob a ótica do “se, então” que fica muito bem representada pela metáfora do burro e da cenoura. Para fazer com que um burro caminhe na direção desejada ofereça-lhe a possibilidade de obter uma cenoura, mas não lha dê. Mantenha na mente daquele que se quer motivar a possibilidadede alcançá-la. Caso essa estratégia não mais funcione aplique o chicote. Uma punição, sob essa perspectiva motivacional, motiva de forma contundente. E se mesmo assim o burro não for na direção desejada, troque-o. Agora aplique essa regra para a sua vida. Você se contenta com a cenoura que lhe oferecem? Pode até ser que sim. Depois pense na cenoura que se poderia oferecer para um cadeirante e você chegará a conclusão que a única iniciativa que um cadeirante deveria ter seria a de se dar um tiro na cabeça. Como alguém conseguiria se motivar na base das punições e recompensas? Alguém quer maior punição do que ser um cadeirante? E qual o motivo de tal punição?

Entrementes, felizmente, a humanidade evoluiu e com ela evoluíram as motivações. As pessoas já não se satisfazem com somente terminar mais um dia vivo, de barriga cheia ou simplesmente tendo recebido uma recompensa ou não sendo punido. As pessoas se deram conta da sua unicidade e da própria finitude da vida, o que a faz buscar algo mais em sua vida. Nesse cenário até para um cadeirante poderia haver motivações. E as pessoas que gerem as organizações, obrigatoriamente trabalham com outras pessoas, porque nada existe fora da natureza que não seja feito por elas e para elas. Vive-se num dos únicos momentos da história em que cada um pode ser aquilo que pretende ser, inclusive um cadeirante pode ser um empresário, um professor ou um atleta de alto rendimento. Para esse fim as pessoas devem buscar a autonomia, desenvolver a excelência e ter um propósito. Um cadeirante pode buscar autonomia, pode desenvolver a excelência e pode ter um propósito.

A autonomia dá a possibilidade da auto-direção em que todos podem conduzir a própria vida de forma a ter o destino em suas mãos. Segundo Pink (2010), as pessoas precisam de autonomia sobre o que fazem, sobre quando o fazem, sobre com quem o fazem e também sobre como o fazem. A autonomia que as pessoas precisam está expressa na construção da maior e mais popular enciclopédia produzida pela humanidade, a wikipédia, que não contrata, não remunera, não motiva com uma cenoura e não pune com um chicote. A autonomia leva as pessoas a ter iniciativa, a fazer o que deve ser feito e quando deve ser feito. A autonomia motiva as pessoas a fazerem aquilo que se quer mesmo quando não se está com vontade. A autonomia leva as pessoas a fazer aquilo que não se gosta na busca daquilo que se quer. A autonomia se aproxima da ideia de disciplina coadunada com a liberdade, porque por meio daquela você pode exercer esta. Desse modo, uma pessoa autônoma desenvolve a proatividade e a assertividade em busca dos objetivos próprios e organizacionais. Para um cadeirante a autonomia pode ser expressada por questões tão simples como cruzar a rua sem ajuda, morar sozinho ou praticar um esporte, mas que lhe abre um horizonte com oportunidades.

Pessoas que exercem a autonomia com responsabilidade vão em busca da excelência, que é encontrada em atividades que os cativam de tal modo que não percebem o tempo passar. Entram em fluxo, segundo Pink (2010). Mas ser excelente é um ideal e, portanto, inalcançável. A excelência somente se dá em pequenos e fugazes momentos que leva a que se busque um novo estado, porque ela já está em outro patamar. A excelência está sempre em mutação e é passível de melhoria contínua. Mas para alcançar esses momentos necessita-se de esforço, dedicação e prática deliberada encontrada na repetição, na observação e na mudança de padrões. O atleta busca a excelência na rotina dos treinamentos e a encontra na competição. Sim, muitos cadeirantes passaram a ser atletas por lazer, atletas amadores e também profissionais. A atual conjuntura mundial, combinada com o grau de evolução tecnológica e mudança dos padrões motivacionais permite que qualquer pessoa busque a excelência na atividade que goste. A excelência, por ser inalcançável, revela-se entre os sentimentos de frustração e sedução, mas é na sua busca que se encontra a criatividade e se desenvolvem as habilidades. O mundo tem possibilitado essas alternativas a quase todos.

Por fim, o atual estágio da motivação tem sua base no propósito. Ao se dar conta da infinitude do universo e da finitude da própria vida, a maximização do lucro, puramente financeiro, começa a dividir sua relevância com o propósito. Caminha-se, assim, rapidamente para uma mudança de paradigmas organizacionais provocada pela mudança de objetivos individuais. Logicamente que somente poderia ser assim. Não há organização sem pessoas. Ao pensar sobre as questões abordadas reforça-se a ideia defendida no texto de que se vive num mundo de oportunidades, inclusive para um cadeirante. Oportunidades essas estimuladas pelas possibilidades encontradas na motivação do indivíduo que tem autonomia para escrever a própria história. A autonomia que leva uma pessoa a procurar a excelência numa atividade até então inimaginável. Excelência que permite um cadeirante ser integrante da seleção brasileira de remo e disputar três campeonatos mundiais. É dessa motivação que muitas organizações ainda carecem, a motivação baseada num propósito. Desse modo, com pessoas que passem a dar maior relevância a um propósito do que exclusivamente ao dinheiro, a cenoura, as organizações também mudarão. Indivíduos com propósitos criarão uma nova geração de organizações que reformularão os negócios e a forma de ver o mundo. 

Um mundo repleto de oportunidades para aqueles que têm propósito!

A motivação, as oportunidades e os resultados

Moacir Rauber

A proposta hoje é fazer uma reflexão sobre áreas diferentes buscando o entendimento do todo. Essa reflexão será acompanhada pela exposição de ideias, pela apresentação de conceitos, pela descrição de situações, entre cômicas, reais e fictícias, vinculando-as de alguma forma ao conteúdo proposto, que volta-se para as oportunidades, para a motivação e para os resultados.

O fato de hoje estar frente a vocês um cadeirante para falar sobre esse tema deve lhes causar alguma estranheza, que são expressas em inúmeras situações por mim vividas nestes últimos 25 anos. Situações como aquela em que havia comprado uma mesa para participar de um baile. Ao chegar no salão do clube um amigo, que me havia vendido a mesa, saudou-me efusivamente e disse-me: Moacir, Moacir, acompanhe-me. Eu lhe reservei uma mesa bem especial. Vem até aqui. Olha, ela está aqui neste canto, assim você naõ estorva ninguém! E continuou falando e sorrindo, todo orgulhoso pela boa ação que havia praticado. Apesar do mundo ter melhorado e evoluído muito, constatação minha, ainda tem muito por melhorar para não estranhar pessoas nem situações. Para entender que a atual necessidade é a busca pelo ser humano integral e integrado, em que se reconheça a diversidade e a pluralidade por meio do indivíduo, ser único, que compõe a sociedade.

Sob esta perspectiva tratarei de oportunidades, motivação e resultados. Oportunidades em todas as situações, desde que se esteja disposto a olhar mais uma vez. Motivação para fazer o que se quer e e o que se deve fazer para alcançar o resultado pretendido em consonância com o meio organizacional no qual se está inserido.

Para esse fim, iniciamos com uma viagem comparativa entre as possibilidades existentes para as pessoas por volta do ano 1000 da era cristã em relação aquelas existentes nos dias de hoje. Naquele período as pessoas sequer questionavam a possibilidade de mudança, enquanto hoje a mudança é uma constante. Considere-se que toda mudança enseja um sem número de oportunidades, desde que se esteja disposto a olhar mais uma vez. Mesmo que eu faça escolhas erradas a forma como nos organizamos atualmente permite que eu mude e faça novas escolhas. Não há prejuízo nisso, havendo, em muitos caso, uma mais valia. Quando reflito sobre quais seriam as possibilidades de um cadeirante em qualquer outro período da história da humanidade, convenço-me, ainda mais, dos aspectos positivos do atual momento. Não que não existam problemas. Muito pelo contrário. Existem e muitos deles são reais, mas na solução de em cada um deles também existe uma nova oportunidade, transformando nossas vidas numa sucessão incrível de oportunidades. Mesmo sabendo que nunca se vê a mesma oportunidade, mas inúmeras outras continuam por aí, reinventando-se, assim como as pessoas. Por isso, deve-se viver como se fôssemos viver por 100 anos, com a consciência de que se pode deixar a vida a qualquer momento.

Nesse mundo e nesse momento é que nos encontramos. Aqui faço um parêntese. Antes de falar sobre motivação quero lhes dizer que não existe nada, mas nada mesmo, fora da natureza que não seja feito pelas pessoas e para as pessoas. Minha formação anterior tratava da gestão da qualidade por meio do acompanhamento dos processos, mas após estudar sobre gestão de pessoas entendi que se pode comprar ração para cachorro, mas é para uma pessoa. Foi isso que me fez entender que tem pouca serventia pensar em gerir processos se eu não pensar nas pessoas. Portanto, o grande atual desafio é fazer com que a visão do homem econômico seja alterada para um homem mais humano. Porque assim como nós evoluímos tecnologicamente também nossas motivações se desenvolveram. Se há 50 mil anos nossa motivação maior era terminar o dia vivo ao não ser morto por um predador, hoje nossa é outra. Passou-se certo período trabalhando com a motivação das pessoas na base da cenoura e do chicote. Metáfora em que um burro faz aquilo que se quer estimulando-o com uma cenoura. Caso não resulte postivamente usa-se o chicote, aplicando-lhe um castigo. A tão propalada teoria da recompensa e do castigo. Se nenhuma das duas estratégias surtir efeito troca-se o burro. Em inúmeras organizações ainda é assim. Com muitas tarefas ainda se obtém resultados dessa maneira. Entretanto, as motivações reais dos seres humanos já são outras. Tome-se como exemplo o caso de doadores de sangue. Na década de 1970 um pesquisador supôs que se o banco de sangue da Inglaterra começa-se a remunerar os doadores o estoque cairia drasticamente. Os economistas riram. Ficou por isso mesmo. No final da década de 90 um grupo de pesquisadores suecos fez a experiência com as doadoras de um banco de sangue de uma cidade. Separaram as doadoras em três grupos. Para o primeiro grupo apenas citaram a importância do gesto da doação. Para o segundo grupo ofereceram uma recompensa de $ 10,00. E para o terceiro grupo falaram da importância e ofereceram uma recompensa, mas acrescentaram a opção de repassar a recompensa para um hospital que tratava de crianças com câncer. O primeiro grupo obteve a adesão de 52% das mulheres. O segundo grupo obteve tão somente 30% de adesão, enquanto o terceiro grupo manteve índice próximo ao primeiro, por volta de 53% de doação de sangue.

Pode-se extrair desta e de outras experiências que já não se trata mais com “burros”. A gestão deve se preocupar com as pessoas que têm diferentes motivações, que se subdividem dependendo da situação na qual a pessoa se encontra. Quando sou gestor tenho uma motivação. Quando sou gerido minha motivação é outra. E não há pessoa no mundo que não esteja ora numa e ora noutra situação. A evolução tem acontecido de forma gradual. Há muitos anos tratavam-se as pessoas como se fossem máquinas. Depois passou-se a substituir pessoas por máquinas. Em seguida tínhamos pessoas cuidando das máquinas. Evoluiu-se rapidamente para a gestão com pessoas. Porque chegamos no estágio em que a qualificação é pré-requisito e se eu não trabalhar aqui trabalharei em outro lugar. Com estas pessoas torna-se mais fácil e mais justo trabalhar, além de mais rentável.

Aí entra o conhecimento. Sempre se diz que nós vivemos na era do conhecimento. Discordo, porque acredito que sempre se viveu na era do conhecimento desde que o mundo se entende por mundo. A diferença é que o conhecimento está acessível a uma parcela maior da população e assim como muitas verdades, pode ser volátil. Por isso, o grande diferencial está em reconhecer as diferenças, aprender com elas, desaprender e aprender de novo, ampliando consideravelmente a nossa qualidade e expectativa de vida. Como ainda não se pode ter uma vida biológica de qualidade superior aos 100 anos, pode-se ampliá-la pela aprendizagem, pela aquisição do conhecimento que permite com que se viva mais por ver mais.
Com o conhecimento pode-se gerar a competência. Entenda-se por competência o saber, o saber fazer, o querer fazer, o poder fazer e o saber ser/estar. Uma vez que se tem alguém com competência certamente se tem alguém com iniciativa. Pessoa com iniciativa provavelmente será também criativo. Avança-se assim, para uma  característica mais que é a da flexibilidade mental. Uma pessoa com conhecimento e competente também deve ter a humildade para ser flexível mentalmente. Porque o conhecimento deve gerar dúvidas. Certezas têm os ignorantes. O conhecimento deve gerar inquietação, curiosidade e flexibilidade. Certezas geram acomodação, passividade e rigidez.

Tem-se assim um caminho para alcançar os resultados, que são nossos objetivos individuais e organizacionais, podendo inclusive ser econômicos. Positivamente vive-se um momento de ampliação do conceito de lucro, objetivo das organizações. O lucro já não se reporta tão somente a questões financeiras, mas também abarca todas as partes com as quais a organização mantém interdependência. Qual é o lucro da sua organização? Pergunte-se, responda e trabalhe nessa direção. Caso você não consiga alinhar os seus objetivos, o seu lucro individual com o lucro organizacional vá em outra direção.

Notadamente as organizações tem caminhado na direção de reconhecer que o lucro teve seu conceito ampliado, porque na atualidade as melhores empresas para trabalhar também são as mais rentáveis economicamente. Isso é reflexo de políticas de gestão que respeitam o cidadão organizacional, os seus anseios e as suas particularidades, conforme a pesquisa feita nas melhores empresas para se trabalhar aponta a satisfação e a motivação como os itens mais importantes para permanecer no trabalho. Mais uma razão para se entender e para se aprofundar nos estudos motivacionais.

Por fim, oportunidades, motivação e resultados conseguem-se mais e melhor quando a organização trabalha com as pessoas, sabendo que não existe produto ou serviço que não seja feito por e para elas.

O poder escolar

Falar sobre o impacto da motivação nos resultados vinculado ao poder escolar é um tópico desafiante. Poder escolar que, consequentemente, está representado nos indivíduos que compõe a escola. Não há organização sem indivíduos e, muito raramente, indivíduo que não pertença a uma organização. Poder escolar que está representado na figura do professor, do diretor, do profissional da área administrativa, legal e institucional. Poder escolar que não pode jamais esquecer o motivo da sua existência, que se traduz em números significativos de adultos que tem como figura exemplar ou como modelo de vida um professor. Mais de 80% dos adultos tem num professor o exemplo a seguir. É sobre isso que se vai falar hoje. Se nós somos modelos nossa responsabilidade é muito maior, não é? Mas e porque, então, tanto desleixo da sociedade para com a nossa profissão?
Somente por estas questões sabe-se que tratar de poder escolar é uma questão complexa, porque envolvem-se inúmeras variáveis e alternativas, não pelo fato de ser complicado. Refletir sobre os diferentes campos do conhecimento reunidos na escola e que representam a diversidade que está na unidade. Diferentes campos do conhecimento que é algo humano, porque na origem é tudo único. Nós, em determinada fase da história, é que criamos as diferentes áreas e as diferentes ciências. Fragmentamos e dissecamos para das partes entender o todo. Agora desesperadamente voltamos a procurar o todo nas nossas partes. É contraditório? Com certeza! É desafiador? Extremamente! É parte de nossa trajetória humana? Sim, fazendo com que nós estejamos vivendo na melhor época da história da humanidade. Fazendo com que a escola forneça o ideal de comportamento para mais de 80% da população. Por isso, na escola trabalha-se muito mais do que com conhecimento, trabalha-se com sonhos e com a motivação para realizá-los.
Desse modo, para falar sobre poder escolar deve-se falar sobre motivação. Mas para falar sobre motivação deve-se conhecer sobre o assunto. Lamentavelmente o tema motivação tem sido tratado de forma superficial, rápida e até leviana. Normalmente pergunta-se a origem da palavra, faz-se uma cara de que ao responder tamanho enigma tem-se a resposta para todos os problemas. É lógico que o conceito que está na palavra nos ajuda muito, mas também nos limita. Sempre que conceituamos, diminuímos e reduzimos. Toda vez que nos limitamos aos conceitos que encontrados na separação da palavra motivação, deduzindo que se transforma em “motivos para ação” nós diminuímos a sua abrangência.
Antes de falar sobre motivação, porém, quero lhes propor um exercício de imaginação. Aqui estamos nós professores e diretores falando sobre o poder escolar e a ideia é fazer um passeio até o final do primeiro milênio da era cristã. Naquele período também se estava apregoando o fim do mundo, assim como no final do segundo milênio. Entretanto, o fim do mundo foi anunciado e é anunciado diariamente para aqueles que não querem ver. Para aqueles que não sabem olhar mais uma vez para as diferentes situações com as quais nos deparamos no nosso dia-a-dia, seja ele organizacional, familiar ou social. E esse é ponto ao qual eu me fixo para ser um otimista, para dizer que nós vivemos no melhor momento da história da humanidade em que cada um pode ser exatamente aquilo que pretende. Inclusive um cadeirante pode ser um empresário, um empreendedor, um professor ou mesmo um atleta de alto rendimento. Imaginem quais teriam sido as minhas oportunidades lá no ano mil? Se ainda hoje há lugares no nosso planeta em que eu simplesmente seria descartado, imaginem quais as perspectivas de vida para um cadeirante há mil anos…
Nesse mundo em que cada um pode ser exatamente aquilo que pretende ser estamos nós, professores e educadores. Ninguém o é porque obrigado foi. Se nós o somos é porque queremos ser. Temos nossas motivaçoes, crenças e objetivos. São poucas as situações nas quais nós nos envolvemos que não dependem de nossa vontade.

Propõe-se também uma reflexão sobre a evolução dos diferentes campos do conhecimento, considerando-se a sua fragmentação e a atual necessidade de busca pela unidade despertada pela aceitação da diversidade. Em determinada fase da história fragmentou-se e dissecou-se para que a partir das partes pudesse se entender o todo. Agora, sente-se a necessidade de procurar o todo nas partes. Esse quadro se reflete diretamente no comportamento dos educadores, que trabalham em diferentes áreas para formar um ser humano integral. Um empreendedor integral da vida!!! De corpo, alma e mente, que entenda os reflexos das suas motivações na sociedade. Motivações que vão influenciar diretamente seres individuais e únicos a fazer a diferença na sua vida e na vida daqueles que os circundam. Não se trata de perguntar aquilo que vocês querem ser, mas o que as pessoas que nós, como educadores, gerimos vão fazer da sua vida. O tempo que todos nós temos tem seu ano marcado e pode terminar a qualquer momento. Vai fazer a diferença o que cada um fez com aquele tracinho entre o ano inicial e o ano final…
E quando nós falamos sobre motivação não se fala somente das razões intrínsecas ou extrínsecas. Fala-se da unidade. Para entender as motivações deve-se entender o todo individual. Nada de massificação! Torna-se mais difícil entender o outro tão somente a partir da própria visão de mundo. Não se pode garantir o futuro olhando somente para o passado. Senão o peru teria o seu futuro garantido. Ele passa o ano inteiro sendo bem alimentado e recebendo todos os cuidados. Leva uma vidade de rei. Com base em dados passados ele teria uma vida bela, estável e feliz. O problema é que o Natal chega e o sujeito que o tratava tão bem lhe corta o pescoço. São motivações diferentes! Tem-se as motivações de educador e educando, de gestor e gerido, de marido e mulher, de pais e filhos, entre tantas outras situações em que a dualidade está presente. E a dualidade se multiplica por ene situações em que cada um ocupa uma posição distinta. Ora sou professor, ora sou aluno, ora sou pai, ora sou filho, ora sou gestor, ora sou gerido, ora sou marido e ora sou… opa! As motivações também assumem contornos quânticos.
As áreas de administração e psicologia organizacional, entre outras, tem desenvolvido inúmeras teorias para explicar a motivação. O problema de cada uma delas é tentar criar uma taxonomia para enquadrar nela todas as pessoas. São teorias lineares que pretendem classificar os diferentes. Mas se somos diferentes como receber o mesmo rótulo? Mas isso não quer dizer que não se deva pesquisar. Muito pelo contrário. Deve-se pesquisar, estudar e entender as diferentes razões que fazem as pessoas buscarem seus objetivos. O que os move? É com isso que se está tratando.
As motivações humanas já evoluíram acompanhando a trajetória planetária do homem. Inicialmente a única motivação referia-se a sobreviver. Num mundo hostil terminar o dia era lucro. Com o passar do tempo a motivação já incluiu o atendimento de outros desejos. Criaram-se, então, alguns sistemas baseados em recompensa e castigo. A tão falada metáfora da cenoura e do chicote. Para estimular oferece-se uma cenoura. Para inibir aplica-se o chicote. Caso nem um nem outro funcione, troca-se o burro. Esse sistema está rapidamente dando lugar para novas formas de motivação, muito mais voltadas para o indivíduo. Para exemplificar voltemos para o ano de 1995. Lançamento do sistema operacional Windows 95, um divisor de águas para a Microsoft, maior empresa do mundo da área de tencologia. Suponhamos que nós aqui, professores e diretores, tivéssemos uma bola de cristal e nela víssemos o futuro até o ano 2010. Com esse trunfo na mão nós poderíamos propor a seguinte questão para as maiores autoridades mundiais em economia ou administração: em 2010 haverá uma enciclopédia que será a mais popular da história da humanidade. Agora queremos que vocês nos digam qual será entre os dois modelos a seguir. O primeiro será comandado pela Microsoft, que neste ano está lançando, juntamente com o windows 95, a Encarta, uma enciclopédia que vai reunir pequisadores, redatores e editores contratados a peso de ouro. Após a fase inicial ela também será oferecida online. O segundo modelo não terá nenhum proprietário e será desenvolvido em parceria por milhares de colaboradores do mundo inteiro que não receberão nenhum centavo pelo trabalho. Qual dos dois será o mais bem sucedido? Certamente não haveria um só economista, administrador ou outro analista de mercado que apostaria as suas fichas na segunda opção, entretanto a Encarta, da poderosa Microsoft, encerrou as suas operações em 2009. Por outro lado, a Wikipedia que em 1995 não era nem uma ideia é um êxito. Qual a motivação dos colaboradores? A cenoura? O chicote? Nem um, nem outro. As nossas motivações vão muito além do que as análises racionais baseadas num modelo econômico podem nos oferecer. Nós somos mais do que moeda. E, nós educadores, trabalhamos com as aspirações de indivíduos que nos têm como modelos.
Para esse fim, deve-se entender o todo organizacional. Como está composta a minha organização? Sou a sua parte mais visível? Considero-me também a parte mais importante? Em caso afirmativo para a última questão o projeto está em risco. Tenho que entender que a importância é a composição do todo. Se hoje eu sou professor e não faxineiro é circunstancial. Se hoje sou professor e não aluno é circunstancial. Se hoje sou diretor e não professor é circunstancial. Não é isso que me faz mais ou menos importante. Porque para cada um o problema mais grave ou mais importante é aquele que ele tem a resolver. Você pode até se compadecer com o problema alheio, mas caso você não consiga resolver o seu problema sequer poderá colaborar com o outro. Colaborar e não resolver, porque cada um é responsável por resolver seus próprios problemas.

Olhando mais uma vez para o final desse enredo todos podem ser dar conta de que eu era a parte mais visível do projeto, mas não necessariamente a mais importante. O técnico teve que fazer a sua parte. O auxiliar técnico também. O presidente da confederação teve o seu papel. O coordenador técnico igualmente desempenhou a sua função ao extrair o máximo que pode do atleta buscando um resultado comum. E todos eles, aqueles que me acompanharam tomando o tempo, certamente entrariam e remariam o meu barco comigo, porque afinal nós éramos uma equipe. O capinar continuava sendo individual com os resultados comuns. E conhecer sobre motivação faz isso. Faz com que todos permaneçam no mesmo barco. Faz com que todos remem em busca de seus sonhos individuais, com respeito, com ética e com lealdade, para que também os outros alcancem os seus. Não se sonha sozinho. E esse é também o papel dos educadores. Conhecer sobre motivação, sabendo que mais de 80% desses jovens os têm como modelos, contribuindo para que todos sonhem os sonhos que queiram sonhar é o verdadeiro Poder Escolar!

Somos únicos. Somos múltiplos.