Tem pãozinho no forno…

Entrei na loja para comprar um livro entre os muitos que passam a mensagem de que as pessoas devem provar aos outros que elas são o que na realidade não são. Tem muita gente disposta a ensinar aos outros aquilo que elas não são e nem fazem. Por isso, acredito que ninguém deva ser ou fazer nada além daquilo que pretenda ser ou fazer, porque no dia de hoje lembra-se mais fortemente que tudo passa. Ao olhar para as primeiras prateleiras de livros em busca dos títulos de interesse, aproxima-se a atendente exibindo um sorriso que me pareceu sereno. Tinha algo a mais do que o sorriso profissional por trás daquele rosto jovem. Logo ela bocejou. Ahh, tinha sono, pensei. Porém, não era só isso… Ela indagou, com um tom de voz que refletia a serenidade:

– O que o senhor está procurando?

Respondi e ela me indicou por onde seguir, acompanhando-me.

Eu puxei assunto:

– Qual a razão desse sorriso e do bocejo? Tá na hora de ir para casa?

– Não, ainda faltam duas horas.

Continuamos a conversa sobre o livro, o dia e a vida. Houve uma pausa. De repente, ela olhou para os lados para se certificar de que ninguém a via, agachou-se ao meu lado, olhou-me nos olhos e disse:

– É que tem pãozinho no forno…

Fiquei confuso. Dei um sorriso sem saber o que estava acontecendo. Olhei para a porta entreaberta nos fundos da loja por onde se podia ver a cozinha. Pensei, Será que vai ter festa?

Depois do silêncio ela continuou:

– O senhor é a primeira pessoa para quem conto. Não falei para ninguém ainda, porque não sei se fico feliz ou triste. Mas na verdade eu estou feliz. Estou com medo, mas estou feliz!

Ela continuava com o sorriso que revelava a serenidade das pessoas plenas. Ela resplandecia, brilhava e emanava divindade. Foi então que entendi o que ela quis dizer quando disse que tinha pãozinho no forno: ela estava grávida. O meu sorriso se solidarizou com o dela, dando-lhe a segurança de que eu estava presente.

Meus parabéns!

– Eu soube hoje à tarde… Com o sorriso aberto.

Ela revelou um pouco de tristeza na sua expressão, sentou-se no sofá ao meu lado e começou a contar a sua história. Ela tinha quase certeza de que o pai do seu filho não o reconheceria. Ela tinha medo de contar para os seus pais, porque eles não gostariam da notícia. Ela não sabia como contar para o seu empregador, porque ela ainda estava no período de experiência. Assim, ela revelou as diferentes situações que faziam com que a gravidez parecesse algo não desejável naquele momento de sua vida. Eu a olhava em silêncio, apenas presente. Ela precisava de alguém que a escutasse. Não precisava de ninguém que a julgasse ou que dissesse o que fazer. Ela somente precisava conversar com alguém para compartilhar uma notícia que para ela era divina.

O que isso tem a ver com a Comunicação Não-Violenta (CNV) de Marshall? Considere o foco da CNV como o desenvolvimento de diálogos entre as pessoas com o estabelecimento de conexões genuínas por meio da empatia, sem julgamentos, com respeito aos sentimentos e as necessidades expressas nos pedidos dos envolvidos. Assim, quando você é ouvinte, observe sem julgamento, escute com respeito os sentimentos do outro e entenda as suas necessidades para atendê-las. Silencie em você, mantenha o foco no outro. Ela estava lá. Eu continuava presente. Assim, passaram-se mais de trinta minutos. Não precisei dizer nada, porque ela sabia que eu a escutava.

Quando saí da loja ela me deu um abraço com os olhos cheio de lágrimas de felicidade. Indagou-me se eu voltaria. Disse que sim, porque naquele dia tive a certeza de que havia praticado a Comunicação Não-Violenta ao oferecer a empatia para aquela jovem por meio da escuta.  Pude dormir em mim para acordar no outro ao entender a importância de ter pãozinho no forno.

No Dia de Finados são lembradas as pessoas queridas que já nos deixaram, mas o “pãozinho no forno” nos recorda da vida que se renova.

 

Moacir Rauber

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Eu durmo em mim e acordo em você!

O curso sobre Comunicação Não-Violenta começou. Apresentações daqui e dali baseadas na pergunta: quem é você humano? Não importava a profissão ou o status social. Era importante o que cada um esperava para a sua vida e o que estava disposto a contribuir para com a vida dos outros. A facilitadora apresentou o programa do dia e os quatro pilares defendidos por ela e inspirados na comunicação não-violenta: (1) aprender a observar; (2) abrir espaço para sentir; (3) reconhecer as necessidades; e (4) falar a partir de si em cuidado com o outro como estímulo à cultura da paz. A ideia seria definir e praticar cada um desses pilares num processo circular e evolutivo, integrando-os de modo a que fizessem sentido. Estava bem claro, principalmente porque a facilitadora tinha uma forma muito especial de se comunicar. Ela transparecia a não violência no tom de voz, na maneira de articular as palavras e no uso do português com as suas expressões. Desde o início, uma delas me chamou a atenção:

– Na comunicação não-violenta eu durmo em mim e acordo em você!

Achei bonita a expressão e vi até um certo romantismo nela, mas não consegui captar exatamente o seu sentido. Ela continuou a explorar alguns temas existenciais da proposta da Comunicação Não-violenta subjacentes à pergunta: quem é você humano? Dela deriva outra pergunta: quem é o outro humano? E nesse vai e vem de questionamentos a proposta da comunicação não-violenta faz todo o sentido. Se na minha resposta de quem sou eu humano existem avaliações e observações, sensações e sentimentos e desejos e necessidades, também existirão pedidos de lá e de cá. Por isso, a comunicação não-violenta é esse movimento circular e evolutivo que ocorre mais produtivamente num ambiente em que a harmonia esteja presente. E esse movimento se revela na nossa humanidade. Nós somos humanos porque temos a liberdade de escolha, que pode ser definida como autonomia para alguns ou livre arbítrio para outros, porém na essência continua sendo a liberdade que nos leva a pensar, a sentir e a querer livremente, ponto esse amparado na antroposofia que é uma das bases influenciadoras da facilitadora. Entretanto, na comunicação não-violenta o primeiro desafio é pensar sem rotular, sem julgar e sem avaliar. Porém, basta pensar: “Ele é bondoso demais!” que já rotulamos, julgamos e avaliamos a partir da perspectiva individual, ainda que de forma positiva no exemplo citado. E quantas vezes os rótulos, os julgamentos e as avaliações são negativos? O segundo desafio é sentir sem simpatizar ou antipatizar, oferecendo a empatia num movimento de interesse genuíno pelo outro. E o terceiro desafio é exibir um querer sem reação e sem conflito na busca por um compromisso de ação responsável consentida que gera fraternidade por meio do atendimento das necessidades daqueles que se comunicam sem violência.

A nossa turma estava absorta nas reflexões conduzidas pela formadora. Ela destacou que é muito difícil conseguir pensar, sentir e querer dessa forma, porque não fomos ensinados a isso. Na base de nossas convenções sociais estão a disputa e a busca por recursos, aparentemente, limitados. Nesse ambiente, valoriza-se a agressividade. Entretanto, é na harmonia por meio de um processo de comunicação não-violenta que se expandem as possibilidades e se multiplicam os recursos, que na realidade são infinitos. Por isso, disse ela:

– É fundamental que eu durma em mim para acordar em você!

Mais uma vez ela usou a frase dita lá no início e foi nesse momento que a expressão se revelou para mim. Sim, fazia todo o sentido. É preciso que eu silencie todo o meu ser para poder escutar você com quem me comunico. Assim, eu consigo pensar sem rotular, julgar ou avaliar. Eu posso sentir com interesse genuíno pelo outro. E eu posso querer o querer do outro.

É a beleza da Comunicação Não-violenta com a profundidade da antroposofia.

Inspirado por Gleice Marote

Keea Yuna

Moacir Rauber

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