Arquivo da tag: perseverança

O TRABALHO NOS PÕE DE PÉ!

OTImagem criada IA COPILOT

O TRABALHO NOS PÕE DE PÉ!

Meu pai voltou do INSS com um papel em que constavam as informações sobre o pedido de aposentadoria para mim, em função do acidente que me deixou em cadeira de rodas aos 19 anos. A justificativa do benefício: inválido. Ao ler, doeu. Ao ler novamente, não pude evitar as lágrimas de tristeza. Meu pai olhou para mim e para a minha mãe, que estava ao lado. Logo disse:

— Você não é inválido…

Pensava que realmente não poderia ser inválido. Mas o que fazer? Até então, eu trabalhava no sítio do meu pai, cuidando de vacas, porcos, galinhas e da lavoura. Como cadeirante, não poderia mais fazê-lo. Contudo, ser rotulado de inválido era agressivo, desumano e doloroso. Teria que voltar a estar de pé, mas eu sonhava com o milagre — pouco provável — de voltar a caminhar. Não via outro caminho. Ainda não tinha a clareza de que o trabalho pode ser o milagre de pôr alguém de pé.

O trabalho pode representar a dignidade que resgata a pessoa, independentemente de sua condição física. O trabalho, igualmente, desenvolve nas pessoas a perseverança, porque é indispensável escolher levantar-se todos os dias para as atividades. Por meio do trabalho, incrementam-se as capacidades de enfrentar as dificuldades, porque ele sempre está dirigido ao outro, com retorno para si mesmo. Da mesma forma, o trabalho nos dá a têmpera moral ao permitir que se cresça emocional e economicamente, inspirando-se e inspirando os demais. Enfim, o trabalho nos põe de pé.

Por isso, para trabalhar é importante não desistir e não aceitar os rótulos que nos colocam — ou que permitimos que nos coloquem — porque são eles que nos limitam a sermos somente aquilo que dizem que somos. Ao aceitar os rótulos, caminhando ou não, não estamos de pé.

Naquele momento, aceitar o benefício oferecido pelo INSS para um trabalhador rural com o rótulo de inválido teria me transformado num inválido. Não me permitiria estar de pé nunca mais. Obviamente, o dinheiro seria bem-vindo e ajudaria a pagar algumas sessões de fisioterapia ou algum remédio extra; entretanto, meu pai tinha outra visão. Ele não queria ter um filho inválido, por isso disse:

— Nós te ajudamos, e com o tempo você pode voltar a trabalhar.

Concordei. Não poderia aceitar o rótulo de “coitadinho”, automaticamente imposto na década de 1980 a um cadeirante na zona rural. Tive que me mover. Foi assim que comecei um pequeno negócio na porta da frente da casa de meu pai, na vila onde fomos morar. Foi depois disso que fiz duas faculdades, três especializações, dois mestrados e um doutorado. Foi com essa trajetória que pude dar aulas no ensino superior no Paraná e em Santa Catarina. Usava uma cadeira de rodas, mas estava de pé.

Finalmente, foi por meio do estudo e do trabalho que me tornei parte ativa e contribuinte da sociedade, e não uma carga. Nesse caminho, precisava de iniciativa, porque o trabalho e o estudo exigem ação e tomada de decisão que não estão no ambiente externo. O trabalho e o estudo pedem responsabilidade ao nos ensinar a assumir compromissos, cumprir prazos e responder pelas próprias escolhas e tarefas. O trabalho e o estudo nos cobram a disciplina da constância, da organização e da perseverança, principalmente quando as dificuldades aparecem. Por fim, o trabalho e o estudo dão, como contrapartida, a dignidade e o respeito próprio ao colocar no horizonte de cada um o propósito e a possibilidade de crescimento. O trabalho e o estudo põem qualquer pessoa de pé, independentemente de sua condição física, social ou econômica.

No dia em que meu pai não aceitou o rótulo de inválido que o INSS queria me impor, ele me pôs de pé. Sigo até hoje usando a cadeira de rodas, mas com a dignidade, o autorrespeito e o amor-próprio de quem está de pé.

E aquele papel que indicava o pedido de benefício por invalidez? Ficou numa gaveta, permitindo-me estar de pé — um estado de espírito.

E você — está de pé na sua própria história?

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: mjrauber@gmail.com

Home: www.olhemaisumavez.com.br

In Memoriam: Egídio Rauber

SER MÃE É ESTAR DE PÉ!

Formatura 1996

SER MÃE É ESTAR DE PÉ!

Já havia cumprido todas as disciplinas da faculdade e faltava o trabalho de conclusão de curso, um momento solitário. Depende das escolhas individuais, da própria iniciativa e da disciplina mantida para concluir. Foi o momento mais desafiante, porque, assim como muitos, conciliava os estudos na universidade com o trabalho. Minha mãe me perguntava sobre a faculdade e o que ainda faltava. Eu disse que não concluiria naquele ano.

A reação foi imediata:

– O que? Nem pensar? Começou tem que terminar… e seguiu uma série de argumentos e justificativas para não deixar para depois o que se poderia fazer agora.

A fala foi respeitosa, mas com a força de quem ama e tem autoridade. Certamente, ao me ouvir, ela teria em si uma mistura de amor, de frustração e de esperança.

Para mim, era um período de esgotamento, porque trabalhava de segunda à sábado até às 18h. Teria os domingos para fazer o trabalho de conclusão. Inicialmente, fiquei irritado com minha mãe. Em seguida, fiquei pensativo sobre o que ela disse. Por fim, tive que dar razão a ela.

Ela tocou em três pontos essenciais para quem quer estar de pé pelos caminhos da vida:

  1. Escolha: havia sido escolha minha entrar na faculdade, porque era importante para o meu trabalho e para a progressão profissional. Ela deixou-me uma pergunta: a escolha não é mais importante para você?
  2. Iniciativa: é mais fácil iniciar novos projetos do que concluir aqueles iniciados. Assim, ela me deixou outro questionamento: você tem capacidades conclusivas?
  3. Disciplina: se a escolha feita gerou a iniciativa de começar algo, a disciplina é o caminho para sua conclusão. Outra pergunta: quem comanda as tuas escolhas?

Talvez não tenha sido exatamente assim, mas nas minhas lembranças, fui desafiado em pontos chave que marcam a diferença entre o fracasso e o sucesso de qualquer projeto. O estudo está no centro disso, porque é uma escolha; exige iniciativa; e cobra disciplina, além de nos dar a possibilidade de estar de pé frente aos desafios da vida.

Ao responder a primeira pergunta sabia que era importante no presente e no futuro a conclusão da faculdade. Assim, parar, pensar e avaliar a importância da escolha feita é um processo que nos ajuda a permanecer no caminho, a desenvolver as competências de pensamento crítico, inteligência emocional e alinhamento de propósitos. Um empurrão para Estar De Pé.

A segunda pergunta sobre a capacidade de terminar as coisas começadas tocou nos meus brios, porque não queria ficar marcado como alguém que começa tudo e não termina nada. Desse modo, ao avaliar a escolha feita, teria que desenvolver a automotivação para me manter no caminho escolhido com a coragem de sair da zona de conforto. Um estímulo para Estar De Pé.

A pergunta sobre quem comanda as minhas escolhas tratava da disciplina, que entendo ser o exercício da liberdade que nos leva a cumprir com as escolhas feitas e das iniciativas tomadas. Dessa maneira, ter a disciplina para gerir o tempo, manter rotinas e ser perseverante me levaria a não desistir da faculdade. Um motivo a mais para Estar De Pé.

Ao reencontrar minha mãe no dia seguinte, a irritação havia passado, mas ainda carregava o cansaço sobre concluir a faculdade no prazo estabelecido. Porém, já não tinha dúvidas de que o faria. O medo de me arrepender ao abandonar o projeto iniciado agora era motivo de motivação pessoal.

O semestre terminou. Ouvi o meu nome ser chamado para receber o diploma. Ao subir a rampa em cadeira de rodas pude olhar para minha mãe e ver o seu sorriso de felicidade. Ela cumpria, comigo, o sonho de concluir um curso superior. Ela não teve a oportunidade, eu sim.

Portanto, ao desafiar-me ela me mostrou que Estar De Pé é um Estado de Espírito, assim como para Ser Mãe é preciso Estar de Pé para incentivar e disciplinar; orientar e cobrar; e dar e receber.

Por fim, entendo que as responsabilidades são condicionais, mas o AMOR DE MÃE É INCONDICIONAL. Ele nos põe De Pé!

Feliz Dia das Mães!

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: mjrauber@gmail.com

Home: www.olhemaisumavez.com.br

In Memoriam: Noêmia Rauber que sempre esteve De Pé!

Líder de quem?

Na reunião foram apresentados os Programas de Desenvolvimento de Lideranças que as organizações promovem para estimular as competências, as habilidades e as atitudes associadas ao tema nos seus colaboradores. Foram três programas de empresas diferentes em tamanho, área de atuação e abrangência de mercado. Durante as apresentações comecei a me indagar: as pessoas estão sendo preparadas para serem líderes de quem?

No primeiro caso, uma organização com aproximadamente mil colaboradores exercendo funções de liderança, o programa de desenvolvimento de liderança foi desenvolvido pensando na rotatividade natural de colaboradores. Com tantas pessoas em posição de liderança, as saídas são inevitáveis. Por isso, o desenvolvimento de lideranças no ambiente interno é uma estratégia proativa e preventiva do RH, disse a apresentadora. Assim, foram criados os critérios e as condições de participação para selecionar os colaboradores para o programa, bem como foram identificadas as competências, as habilidades e as atitudes a serem desenvolvidas. Destaque-se que a construção do programa foi realizada entre a instituição de ensino e a organização promotora para alinhar os interesses da organização com as necessidades do indivíduo. Ponto fundamental!

O segundo caso apresentou um programa de desenvolvimento de lideranças que trabalhou a proposta de que o líder deve ser um guardião da missão, da visão e dos valores da organização. Assim, o programa foi desenvolvido internamente, aproveitando para incentivar a que cada um dos líderes identificasse a sua própria missão, visão e valores. Pode ser um tiro no pé, porque algumas pessoas saem da empresa após descobrirem que não era bem aquilo que queriam, comentou a idealizadora do programa. Entretanto, ficou evidente de que se não há um alinhamento entre aquilo que a organização precisa com aquilo que o indivíduo quer é melhor para ambos que cada um siga o seu caminho. Ponto indispensável!

Por fim, o terceiro caso relatado ocorreu numa organização em que o programa de desenvolvimento de lideranças foi desenvolvido conforme os módulos se sucediam. A preocupação com um fio condutor para o programa esteve presente na construção da sequência de módulos no seu período de duração. Porém, cada módulo era concluído com o foco em conceber o módulo seguinte. A pergunta que finalizava cada módulo era, Qual é o próximo passo?  A partir daí os conteúdos eram construídos de acordo com aquilo que se levantava na inteligência coletiva do grupo. Também esse programa considerou as demandas individuais e organizacionais. Ponto essencial!

Volta-se a pergunta do título: os programas de desenvolvimento de liderança preparam líderes, mas líderes de quem? Entendo ser importante que sejam considerados o alinhamento entre os interesses individuais e organizacionais na construção de programas que trabalhem com o aperfeiçoamento de comportamentos em função de liderança. Porém, entendo que se deveria ser fundamental, indispensável e essencial levar a que cada candidato a líder olhe inicialmente para dentro de si e se avalie: qual é a minha real intenção? O que eu posso contribuir de fato numa posição de liderança? Entendo que cada líder ou futuro líder deve saber liderar a si mesmo antes de liderar os outros. É o desenvolvimento das competências comportamentais para ser um InLíder. Entende-se que o InLíder é aquele que antes de exibir a iniciativa como uma competência externa, pratique a iniciativa dentro de si mesmo. Quem decide a hora de levantar? O InLíder, então levante-se e exiba um Propósito, a Disciplina e a Liberdade para demonstrar a intrainiciativa. Quem decide a sua agenda? O InLíder, então organize-a e exiba a Flexibilidade mental, a Confiança e a Autoconfiança e a Organização para demonstrar o intraplanejamento. Quem manda em você? O InLíder, então siga-o e exiba Desempenho e Gratidão para demonstrar ser um Líder para conduzir a equipe na melhor direção. Por fim, entendo ser o principal que cada líder saiba que o seu papel não lhe dá direitos e prerrogativas, mas lhe exige o compromisso de permitir que os outros se desenvolvam na plenitude, levando a que a organização seja competitiva.

Por isso a pergunta: líder de quem? O InLíder lidera dentro de si mesmo para depois ser um líder dos outros de forma natural.