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Facetas!


Somos Únicos.
Somos Múltiplos.
By Moacir Rauber

Você fala tudo o que lhe vem à cabeça?

Você fala tudo o que lhe vem à cabeça?

Ainda bem que está passando o período em que se incentivava a que todos dissessem tudo o que lhes vem à cabeça o tempo todo. Nas últimas décadas, algumas gerações foram educadas acreditando piamente que elas eram as mais lindas, as mais inteligentes e a mais talentosas pessoas que já pisaram na face do planeta. Em núcleos familiares cada vez menores, os pais diziam, “Você é um príncipe” ou “Você é uma rainha” incutindo na cabeça da criança que ela era a pessoa mais especial do mundo e que podia tudo porque todos estavam a sua disposição. Naquele pequeno reino familiar realmente era assim. Foi um movimento de oposição a um período anterior em que gerações foram levadas a crer que apenas eram mais um na multidão e, em muitos casos, eram mão de obra barata que passava a integrar o grande núcleo familiar.  Entendo que as duas situações devem ser consideradas. Na primeira, muitas pessoas não desenvolveram filtros para se expressarem de forma respeitosa, revelando as partes não tão boas de si. Na segunda, um grande grupo de pessoas não consegue se expressar ocultando o que tem de melhor em si. Por isso faço a pergunta: se não sou especial e não sou apenas mais um, quem sou?

Acredito que nem uma nem outra situação seriam modelos a serem seguidos, porque entendo que não somos especiais, assim como não somos apenas mais um. Cada Ser Humano neste planeta é único, singular e múltiplo, não necessariamente especial. Nunca apenas mais um. As gerações anteriores, que foram educadas na base do medo, eram levadas a fazerem o que não queriam em nome de uma pressão social que os oprimia. Não havia horizontes para os submissos dos núcleos familiares e eles ficavam fracos emocionalmente. Não lutavam porque não viam possibilidades. Nas gerações seguintes, para que os filhos não passassem pela mesma situação, muitos pais passaram a criar sem terem a coragem de educar os filhos. Desse modo, muitas crianças cresceram com os excessos da ausência de limites. Os pequenos deuses que foram criados podiam tudo. Igualmente, ficaram fracos emocionalmente. Não lutam, porque não suportam um “não” como resposta. São essas gerações que se encontram nas famílias, nas organizações e na sociedade. Qual o resultado disso? Particularmente acredito que são pessoas únicas e singulares com a sua multiplicidade que vão interagir para daí surgir algo melhor. Apoiando-se na inteligência emocional se poderia dizer que tanto aqueles que se submetem ao não ver possibilidades, como aqueles que não toleram a divergência, necessitam desenvolver o autocontrole. Da interação entre submissos e mimados é que pode surgir pessoas com autocontrole, prudência e humildade suficientes que resultem na fortaleza emocional da temperança. Com isso, as pessoas vão identificar o momento de se expressar ou de não se expressar na constante busca pela realização interdependente com o outro.

Enfim, ouvi muitas pessoas afirmarem com o peito inflado de orgulho que falam tudo o que lhes vem à cabeça, doa a quem doer. Quando ouço isso formo uma imagem não tão positiva. Revela que estou diante de alguém fraco emocionalmente, porque não desenvolveu competências humanas fundamentais para ser um melhor profissional. Frente a uma divergência, grita, ofende e agride. Por outro lado, nunca falar nada para não divergir é igualmente prejudicial, porque gera a sensação de uma falsa harmonia. Ambas as posturas prejudicam o ambiente organizacional, social e familiar. Por isso, do equilíbrio entre os príncipes e as princesas, únicos e não especiais, e dos submissos, que não são apenas mais um, surgirá uma geração emocionalmente inteligente para ser assertiva sem ser arrogante e humilde sem ser submissa. Finalmente, vamos conviver com pessoas que nem sempre falam o que pensam, mas não deixam de falar o que é importante.

Moacir Rauber

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Preparar-se para o futuro? Não dá…

Preparar-se para o futuro? Não dá…

Uma moça da fazenda carregava um balde de leite na cabeça e sonhava que com ele poderia fazer nata. Da nata faria manteiga. Com o dinheiro da venda da manteiga compraria ovos dos quais nasceriam pintinhos. Depois de crescidos os venderia e se compraria um vestido para usar na festa da comunidade. Imaginava que o filho do moleiro iria querer dançar com ela ao vê-la tão bonita. Mas ela não aceitaria imediatamente. Primeiro, diria que ‘não’ e com a cabeça e ensaiou o gesto. Ao menear a cabeça o balde de leite caiu. A moça estava desolada, porque ficou sem nada: sem vestido, sem pintinhos, sem ovos, sem manteiga, sem nata e, acima de tudo, sem o leite que a levou a sonhar. O que nos ensina essa fábula de Esopo?

Durante muito tempo, mantivemos o foco na preparação de pessoas para o futuro, embora eu acredite que o foco deveria ser na preparação para o presente.  A fábula ilustra isso e a conjuntura econômica e social atual confirma, porque mais do que nunca não estamos no presente. Ora estamos no passado. Ora estamos no futuro. Assim, muitas pessoas se refugiam em alegrias vividas em supostos dias melhores, o passado, enquanto outras criam problemas que não existem, no futuro. Assim, permanentemente meneiam a cabeça e derrubam o leite. Percebe-se um contingente enorme de pessoas com a constante sensação de inadequação e de incompetência, resultado da impressão de nunca se estar onde se deveria estar e de nunca saber tanto quanto se deveria saber. E é verdade. Vive-se um tempo de pessoas ausentes, porque dificilmente elas estão no presente. O que fazer? Como mudar o foco? Pela educação, ao ensinar e aprender para o presente.

Até o momento, em tempos de Revolução Industrial 1, 2, 3 e 4, a preocupação era ensinar às pessoas um conjunto de habilidades técnicas que as manteriam empregadas até a aposentadoria. O foco estava em preparar as pessoas para serem melhores umas comparadas com as outras. Isso não serve mais. Entendo que avançamos para uma sociedade em que as coisas devem fazer sentido. As habilidades técnicas são importantes, porém elas se tornam obsoletas num piscar de olhos, assim como o presente se torna passado e o futuro se converte no presente. Estar no futuro ou no passado é o leite derramado no chão. Portanto, o que aprender e o que ensinar? Falamos das competências socioemocionais, em que o foco passa a ser o desenvolvimento pessoal para que cada um seja o melhor que pode ser no presente. Ganham destaque os estudos de inteligência emocional e seus pilares; a psicologia positiva com as suas fortalezas; a neurociência com as suas constatações; a mentalidade flexível e suas alternativas, entre outras abordagens e pesquisas científicas, usadas para resgatar a importância das competências socioemocionais. São elas que nos permitem viver bem no único tempo que temos: o presente. Assim, é importante ensinar as habilidades técnicas, que são passageiras, entretanto, é indispensável ensinar as competências socioemocionais, que são permanentes. Destaque para o despertar da unidade individual que permite o entendimento sistêmico do coletivo que manterá as pessoas aptas para viver no presente sem derrubar o leite.

Por isso pergunto: o que você faz faz sentido? O que você ensina com aquilo que você faz? O que você aprende com aquilo que você vê? A ideia de se manter estudando durante a vida é inteligente e sustentável, desde que aquilo que se ensina com aquilo que se faz e aquilo que se aprende com aquilo que se vê faça sentido no presente. E isso se fundamenta em valores humanos, como liberdade, justiça, honestidade e solidariedade, além de comportamentos que os expressem num movimento de cuidado para consigo e para com o outro. Desse modo, é necessário a flexibilidade mental para atualizar as habilidades técnicas constantemente, mas lembrando que são as competências socioemocionais que o manterão no presente, com a sensação de adequação e de competência.

Assim, preparar-se para o futuro não dá, porque devemos estar aptos para viver no presente, a única realidade que temos.

Moacir Rauber

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Um pouco de humildade nas pretensões da ciência…

Fiquei feliz ao ler o título da matéria “Ciência perto de comprovar que pessoas absorvem energia de outras”, porque indica que aqui os cientistas descobriram a diferença entre descoberta e constatação ou comprovação científica. Como já escrevi no artigo “As descobertas da Psicologia Positiva e da Neurociência?” tenho ressalvas sobre aquilo que é anunciado como descoberta científica na área comportamental. Falar que a meditação para melhorar a qualidade de vida das pessoas é uma descoberta da neurociência é um disparate. Anunciar a descoberta da inteligência espiritual é no mínimo falta de bom senso perante uma história humana construída em bases espirituais. Certamente que muitas práticas espirituais desencadearam processos de estreitamento da espiritualidade, mas isso não quer dizer que as pessoas comuns deixaram de entender a espiritualidade como uma realidade. Nunca se precisou da ciência para saber que a meditação é um processo que melhora a qualidade de vida ou que a espiritualidade é algo real para as pessoas. Quem se afastou da espiritualidade foram os cientistas! E as manchetes sobre as descobertas da neurociência também se transformam em técnicas que pelos títulos seriam algo novo. A matéria “4 técnicas da neurociência para acelerar o seu aprendizado”, publicada no dia 22-02-18, atesta a tendência da neurociência de assumir para si e anunciar como descobertas práticas milenares. A primeira técnica apresentada é a necessidade de se atrelar emoções positivas ao fato de estudar. Isso é novo? Logicamente não. Em culturas ancestrais, muito mais do que emoções, as pessoas só faziam atividades que tinham sentido. A segunda técnica alerta para que as pessoas não exercitem apenas o cérebro, mas também o corpo. Onde está a novidade? As atividades física e mental sempre foram complementares na grande maioria das civilizações e essa dissociação ocorreu no nosso tempo em que automatizamos quase tudo que exige esforço físico. A terceira técnica versa sobre a importância de que cada um descubra o seu estilo de aprender. Mais uma vez, qual é a descoberta se nos povos em outros tempos as pessoas aprendiam ao fazer aquilo que fazia sentido? Por fim, a quarta técnica destaca que é preciso eliminar os ralos de atenção, sugerindo a aprendizagem da atenção plena para obter melhores resultados. Novidade? De maneira nenhuma. Ao se olhar para trás na história, as pessoas tinham como respeito aos tutores, mentores e seu semelhante o fato de estar com a mente onde se está com o corpo. Por isso, as pretensas descobertas estão muito mais para uma redescoberta ou um reencontro com caminhos que já havíamos percorrido em outros momentos da trajetória humana no planeta.

No meu ponto de vista, a ciência e, principalmente, a neurociência tem descoberto ferramentas, muitas de cunho tecnológico, para comprovar fenômenos há tempos aceitos pelo ser humano comum. Entendo, também,  que em muitas áreas a ciência tem exercido o papel de validadora do conhecimento humano com um trabalho não menos importante, muitas vezes, separando o charlatanismo de práticas verdadeiras. No início do texto destaco que se apresenta a possibilidade de comprovação de que as pessoas absorvam energia umas das outras, sendo um desses casos em que a ciência poderá exercer o seu papel de validadora de um conhecimento já existente e aceito por um enorme contingente de pessoas. Porém, medir o fenômeno não muda o fenômeno. A realidade daqueles que nunca duvidaram ou que sempre viveram de maneira a considerar o fenômeno continuará da mesma forma. Trata-se apenas da comprovação de maneira visual de um fenômeno até então não perceptível pelos cinco sentidos humanos para atender aos céticos vindos da ciência.

Enfim, para mim a ciência ou a neurociência pode servir para invalidar certas crenças ou para atestar a ignorância de muitas pessoas comuns. Entretanto, defendo que a ciência e a neurociência deveriam ter a capacidade de investigar com humildade para reconhecer todo o conhecimento humano acumulado na sua trajetória no planeta, sem a pretensão de ser a dona da verdade.

Moacir Rauber

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Gratidão: quais foram as tuas ações?

Hoje em dia, é muito comum se ouvir sobre os benefícios descobertos pela psicologia positiva e pela neurociência. Já escrevi sobre as ressalvas que tenho sobre quais são as reais descobertas da neurociência e da psicologia positiva. Elas, porém, não anulam os benefícios resultantes das práticas sugeridas. Entre elas, o exercício da gratidão tem especial destaque, uma vez que é um verdadeiro privilégio estar vivo. Por isso, as pessoas são orientadas a valorizar cada manhã em que acordam; a dar graças pelo trabalho que têm; a agradecer pela casa que os abriga; a ficarem felizes pelo sorriso da pessoa com quem trabalham; a se sentirem gratos pela água que os banha; e assim por diante. É importante que cada um seja grato por tudo aquilo que tem. E realmente, quando olhamos e analisamos aquilo que temos, muitos de nós, podemos ter a certeza de que temos mais do que precisamos para sermos felizes. Porém, quero adicionar uma pitada de provocação na prática da gratidão: se cada um de nós tem tanto a agradecer por estar aqui, pergunto: o que o mundo tem a agradecer pela minha presença nele?

Num curso de psicologia positiva que fiz, a orientação é que ao final do dia cada um faça a sua lista com pelo menos três coisas boas que tenha acontecido durante o dia pela qual se deveria estar grato. Comecei a fazer. É realmente fácil encontrar motivos para estar agradecido. É o vizinho que diz bom dia e abre a porta do prédio. É o motorista educado que dá passagem para você num momento de trânsito complicado. É alguém que o ajuda com uma informação sem a qual você gastaria muito tempo para fazer o que precisava fazer. E assim, é possível encontrar inúmeras razões para ser grato. Tenho comigo uma lista de pequenas coisas boas que me acontecem todos os dias. Porém, “de gratidão sem ação o inferno está cheio”. Esse é o ponto em que Santo Tomás de Aquino faz as suas considerações sobre como se expressa a gratidão na língua portuguesa. A expressão mais comumente usada para agradecer algo é dizer “Muito Obrigado”. Ela tem um peso que vai além das expressões de agradecimento de outros idiomas. Ao dizer “Muito Obrigado” você não somente agradece. Você também se compromete a fazer algo de concreto em benefício daquele que fez algo por você. Esse ato pode ser no mesmo instante ou em algum momento futuro, mas deve resultar em algo palpável. Caso não seja possível devolver para a pessoa que lhe fez algo que mereceu ser agradecido, o que você vai fazer? Para quem você vai fazer? Esse é o desafio. Pergunte-se: por que o dia que termina foi melhor pela minha existência? Na lista de agradecimentos de quem eu estou presente por ter feito algo de bom hoje?

Sim, é importante que continuemos sendo gratos por todas as pequenas e as grandes coisas boas que nos acontecem todos os dias. Por isso, faça a sua lista de três agradecimentos todos os dias. A vida ficará mais leve e feliz. Porém, acredito que seja tão ou mais importante fazer coisas boas para que as outras pessoas também possam estar agradecidas porque você existe. O que você fez de bom hoje que mereça um “Muito Obrigado”? Assim, também faça a sua lista de coisas boas que você fez pelas quais os outros podem estar agradecidos.

Moacir Rauber

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