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Moacir Rauber acredita que tem "MUITAS RAZÕES PARA VIVER BEM!" porque "MELANCOLIA NÃO DÁ IBOPE". Também considera que a "DISCIPLINA É A LIBERDADE" que lhe permite fazer escolhas conscientes, levando-o a viver de forma a "QUE POSSA COMPARTILHAR TUDO COM OS PAIS E QUE TENHA ORGULHO DE CONTAR PARA OS FILHOS".

Vai demorar um pouco… O senhor se importa em esperar?

Entrei no salão para cortar o cabelo acompanhado de minha esposa. Era a primeira vez que cortaria o cabelo desde que fora morar naquela cidade. Havia escolhido um salão e fui até ele. Ao abrir a porta, as pessoas voltaram a cabeça para dar aquela olhada, como naturalmente se faz. Porém, a olhada ficou um pouco mais demorada, porque a presença de um homem, e ainda usuário de cadeira de rodas, naquele ambiente, provavelmente, não era algo muito comum. Tudo bem, tudo bem… pensei comigo mesmo para me acalmar. São quase trinta anos usando a cadeira de rodas e ainda fico um pouco temeroso ao entrar em ambientes desconhecidos, embora isso também seja comum para quase todos. Minha esposa estava atrás de mim. Eu olhei para quem se aproximou para me atender e perguntei:
– Alguém tem disponibilidade para cortar o cabelo?
A atendente olhou-me e disse que sim. Era ela também a própria cabeleireira que cortaria o meu cabelo. Assim perguntou:
– Como você quer cortar?
– Olha, pode ser com a máquina número 3, por favor?
– Em toda a cabeça? Disse ela olhando para a minha esposa. Logo pensei, Será que ela vai começar a falar com ela em vez de falar comigo?
– Sim, respondi. Pode passar a máquina em tudo.
Ela assentiu e pediu para que eu me posicionasse frente a um espelho. Ainda fiz uma brincadeira de que mereceria um desconto, uma vez que eu trouxera a minha cadeira. Ela sorriu e respondeu que se eu quisesse sentar na cadeira do salão ela daria um jeito. Ficamos nessa brincadeira enquanto ela foi buscar a máquina. Aproximou-se e colocou o lençol a minha volta e começou a cortar o cabelo. Via e observava os seus movimentos manuseando a máquina. Pude perceber que era alguém que ainda não estava completamente à vontade com ela. Deve ser nova aqui… Pensei isso porque durante os últimos seis ou sete anos eu mesmo cortei os meus cabelos com uma máquina que tinha em casa. A minha esposa fazia os arremates do corte. Gostava do ritual. Continuei a observar e parecia-me que a máquina era demasiadamente silenciosa. Escutei com mais atenção e percebi que se tratava de pouca potência. Dava-me a impressão de que a máquina pararia a qualquer momento… E não é que parou mesmo? Olhando pelo espelho vi uma expressão que misturava medo e pânico no rosto da cabeleireira. Ela olhou para a máquina e bateu-lhe suavemente. Silêncio. Ligou e desligou o botão. Nada. Olhou a sua volta buscando socorro em suas amigas. O silêncio foi constrangedor. A tagarelice tão comum em salões desapareceu por completo. Por fim, ela olhou para mim pelo espelho e disse:
– Acabou a bateria. Vou ter que carregar a máquina. Vai demorar um pouco… O senhor se importa em esperar? A voz quase sumindo, porque ela estava completamente constrangida.
Logicamente que eu esperaria, porque tampouco poderia sair com a cabelo cortado somente em metade do cocoruto. Ainda mais vendo o desespero da mulher, sair seria a última ação que tomaria. Disse-lhe com suavidade e também certa descontração que não havia problema, que eu estava sem pressa. Aparentemente ela se tranquilizou, colocou a máquina para carregar a bateria e ficou a minha volta. Estava nervosa. Atordoada. Para piorar ainda mais a situação uma colega passou por perto e disse:
– Ainda bem que a dona não está aqui agora, porque você seria demitida hoje…
O apoio que ela esperara das amigas, da sua equipe, foi uma ameaça. Nada de amparo. Nenhuma máquina sobressalente, alternativa ou alguma história para tirar a tensão do ambiente. Apenas o silêncio e a clara sensação de que a haviam relegado a sua própria sorte. Depois de um tempo, o zumbido das conversas paralelas voltou para aliviar a situação. Passaram-se mais ou menos cinco minutos e ela pegou a máquina novamente. Recomeçou a cortar o cabelo. O ruído estava mais alto, com mais potência. O sorriso estava de volta ao seu rosto, porém durou poucos segundos. A máquina parou mais uma vez. O silêncio constrangedor. Os olhares acusadores. A solidão em meio a tantas pessoas conhecidas e, talvez, até amigas. E a cena se repetiu mais três vezes até que, enfim, ela conseguiu terminar o corte.
Disse-lhe:
– Fica tranquila, não tem problema não. Eu estava com tempo mesmo. Quanto lhe devo?
Ela não teve tempo para responder porque foi interrompida por uma outra cabeleireira que, provavelmente, tinha mais tempo de casa:
– Não, o senhor não deve nada. Nós é que lhe pedimos desculpas e agradecemos muito a sua compreensão.
Ao meu lado, a cabeleireira se encurvou num movimento corporal claro de autoproteção. Ainda sorriu timidamente e também se desculpou por não ter a máquina com a bateria carregada. Finalizei dizendo:
– Bom, vocês têm mais um cliente garantido. E vou torcer para que na próxima vez acabe a bateria novamente, assim não precisarei pagar.
Saímos rindo. Por outro lado, fiquei pensando, Caramba, quantas vezes nós não estamos preparados nem para aquilo que nos propusemos a fazer, o que dizer de estar preparado para uma nova oportunidade? E o trabalho em equipe onde ficou?

Diante da situação, a imagem da mulher vai rapidamente desaparecer de minhas memórias, mas a lembrança do estabelecimento, a percepção da incapacidade de ação e a sensação da ausência de cooperação que demonstraram a clara falta de entendimento daquilo que representa trabalhar em equipe vão me acompanhar por muito tempo.

Por isso a pergunta: quem realmente sabe trabalhar em equipe?

Quais as perguntas que você faz?

Uma conversa pode ser iniciada dando uma opinião. Ao emiti-la, lembre-se que na sua frente pode estar alguém que tem uma opinião divergente da sua. Lembre-se também que a sua verdade nem sempre é a verdade dos demais. Uma conversa também pode ser entabulada comentando um fato. Seja habilidoso para escolher algo que possa ser do interesse do seu interlocutor, despertando-o para o aprofundamento da conversa. Da mesma forma, uma conversa pode ser iniciada com uma pergunta. Destacamos que o objetivo de uma pergunta deve ser o de contribuir com a situação em que estamos envolvidos, demonstrando genuíno interesse nos objetivos da conversa.

Cada indivíduo tem como inteligentes as suas opiniões e não sente nenhum prazer em vê-las denegridas. Por isso, numa conversa, a contestação pode ser o caminho para o descaminho. A pergunta deve ser feita para transformar a conversa em um quadro em que todos possam contribuir. Por isso, ao fazermos uma pergunta, também devemos lembrar dos limites da intimidade que gozamos com quem conversamos.

Quais os tipos de perguntas que você faz? Construtivas? Genuínas?

Saiba mais…


Você nasceu assim 2?

Somos feitos de histórias. Quem é usuário de cadeira de rodas pode ter algumas a mais. Já contei aqui uma história em que fui abordado num supermercado para receber a pergunta se eu havia caído ou nascido assim. Não sou o único. Conversava com o técnico da equipe de basquete, amigo meu e que tem um irmão usuário de cadeira de rodas, que me contava ser o irmão dele também questionado sobre a sua condição pelas pessoas. Disse-me:
– Volta e meia quando estou na rua com meu irmão alguém se aproxima de mim e pergunta, “como foi que aconteceu?” ou “o que aconteceu com ele?” ou ainda “ele nasceu assim?” Isso, às vezes me incomoda, mas sei que não é por mal. Eu sempre digo, “vai lá, fala com ele. Ele sabe falar…” Alguns ficam um pouco envergonhados e vão embora. Outros vão lá e perguntam mesmo…

Essa é uma situação muito comum. Muitas vezes entro numa loja para comprar uma camisa ou uma calça acompanhado de minha esposa. Faço a primeira interação com o atendente mostrando o meu interesse e a minha procura. Por incrível que pareça o atendente, logo depois, esquece que estou presente e passa a interagir com a minha esposa. Muitas vezes pegam uma peça de roupa, mostram para a minha esposa e perguntam, Será que ele vai gostar desta?E eu paradão ali do lado. Ou melhor, sentadão. Não sei porque não falam diretamente comigo. Às vezes, tenho a impressão de que por ser um usuário de cadeira de rodas as pessoas pensam que eu não tenha capacidade cognitiva o suficiente para me comunicar. Enfim, deixa pra lá…

Voltando ao caso do meu amigo, quando ele é confrontado com a pergunta, … mas você nasceu assim? ele para, olha para o seu interlocutor e com um ar sério e compenetrado, característico, responde:
– Não, não, eu não nasci assim. Eu nasci assim… (faz um gesto com as mãos mostrando mais ou menos o tamanho de um bebê) … desse tamaninho. Era bem pequeno. Já imaginou se eu tivesse nascido assim, grandão? E ainda com uma cadeira de rodas?

Certamente que as pessoas não o fazem por mal, mas também há situações que não são do seu interesse. Sabemos que a curiosidade é a fonte da sabedoria, mas ela também matou o gato.

Você é um gênio, mas…


O rapaz era um gênio na sua área, mas era também genioso com os colegas. Para ele, pouco importava se a pessoa com quem falava era da sua equipe, de outra área ou mesmo alguém hierarquicamente superior, sempre tinha algo a dizer. Quando a questão se voltava para a área técnica de sua atuação, muitas vezes, tinha razão. Mas nem tudo é tecnologia, mesmo numa organização que trabalha com tecnologia. Assim, o seu comportamento trazia prejuízos relacionais, por vezes, maiores do que os benefícios obtidos com a sua grande capacidade.

Na área de gestão de pessoas o comportamento do jovem gênio era analisado. Após várias tentativas do responsável dos recursos humanos de conversar com o gênio sobre o seu comportamento, o assunto chegou à direção. O diretor o chamou para conversar. A autoconfiança do jovem gênio era tamanha que acreditava que seria mais uma vez promovido. Chegando na sala do diretor, imediatamente acomodou-se confortavelmente em uma poltrona. A conversa começou e o diretor, um pouco constrangido, disse:
– Você realmente é um gênio naquilo que faz…
O rapaz estufou o peito e, mais do que rapidamente, respondeu:
– Muito obrigado!
A resposta não expressava gratidão pelo elogio, mas a segurança de quem simplesmente recebia aquilo que merecia. Era o mínimo… devia ter pensado ele.
O diretor, que não esperava que ele dissesse algo naquela curta pausa, emendou:
– … mas você está demitido.
Ser um gênio somente não basta. O conhecimento técnico por trás de cada uma das funções ou cargos que o gênio irá desempenhar é o mínimo dele exigido. É por isso que as grandes corporações têm contratado as melhores cabeças reveladas em universidades ou pelo próprio mercado para compor as suas equipes. Equipes, eis a questão. Porém, muitos dos gênios contratados não têm a mínima noção daquilo que significa trabalhar em equipe. Não foram instruídos e nem capacitados para entender as pessoas e por isso não conseguem fazer uma equipe, que conta com os melhores talentos, render aquilo que deveria render. Não conseguem fazer com que o todo da equipe seja maior do que a soma das partes. Eis o grande desafio.

Você é um gênio? Então faça com que cada pessoa exiba o seu potencial na totalidade, transformado-o em talento a serviço da sua equipe. Mostre com isso que o resultado da sua equipe é maior do que a soma dos indivíduos que a compõe nas suas distintas partes. Caso contrário, você até pode ser um gênio, mas será demitido ou não terá ninguém que queira trabalhar com você. Lembre-se de que sem os outros não há equipe, não há organização e não há necessidade nem de gênio nem de genialidade.

Qual é a sua história?


Sempre que leio uma autobiografia de um grande executivo ou de alguém famoso encontro a linda história de uma pessoa quase perfeita. As dificuldades, a superação e o sucesso alcançado. Momentos marcantes que foram determinados pela fibra, pelo empreendedorismo e pela resiliência daquele que conta a sua própria história, sempre pautados por um comportamento ético e impecável. Isso é o que as pessoas escrevem. Isso é o que elas contam. Porém, sabe-se que nem sempre é assim.

Muitos dos grandes exemplos de autobiografias que foram sucessos editoriais lutam para manter oculta alguma biografia não autorizada na qual parte de uma história não contada viria à tona. Por que é assim? Porque os grandes nomes que despertam o interesse para que pessoas comuns como nós comprem a sua história não são tolos a ponto de revelar as suas fraquezas na sua trajetória. Muitas vezes, fazem-nos sentir pequenos.Não me refiro a admitir a presença do medo ou as dúvidas em momentos de tomada de decisão. Refiro-me às falhas de caráter, como as pequenas e grandes trapaças que muitos ocultam no seu caminho para o sucesso. Poderia ser o simples fato de abrir a correspondência do colega que lhe revelou uma oportunidade que não era sua. Poderia ser a ideia copiada de uma conversa despretensiosa com alguém conhecido ou desconhecido num evento. Refiro-me também às pessoas que não foram e jamais serão reconhecidas como importantes nesse caminho. Poderia ser o porteiro que facilitou o primeiro encontro com alguém que o encaminhou para a pessoa que lhe abriu portas. Poderia ser a secretária que, por algum motivo, deu-lhe uma brecha na agenda do chefe. Poderia ser o cancelamento da apresentação de alguém que teve um imprevisto. Enfim, são muitas as situações que já não estão mais na memória daqueles que contam a sua história de sucesso. Refiro-me à pura sorte da qual muitos deles foram beneficiários, assim como de outros elementos fora de seu controle que os afetaram positivamente. Muitas vezes não há como explicar e os autores não explicam, ocultam. Habituaram-se ao sucesso e já não têm nenhuma importância no momento de relembrar o caminho do anonimato ao estrelato. Eles têm a receita para o sucesso. Alguns o fazem por má fé. Outros o fazem por pura ignorância ao acreditar que eles são o resultado único e exclusivo da sua força de vontade e da sua dedicação. Por isso, cuidado ao ler autobiografias de pessoas famosas. Não se sinta diminuído. Sinta-se grande, porque você, assim como os famosos, na hora de dormir vai dormir consigo mesmo e não com a imagem que  passa.

O que quero dizer com isso? Quero dizer que toda a história vale a pena ser contada, desde que tenha valido a pena ser vivida. Famosa a pessoa ou não, conhecida a história ou não, não tem muita importância, porque quem determina o real valor dela é você. É você que vai conviver com as suas verdades e as suas mentiras. É você que saberá se o seu dia foi bem vivido ou não. Pode-se mentir num livro autobiográfico, dourando a pílula, omitindo questões delicadas ou até assumindo para si glórias que na realidade eram de outros. Tudo isso dificilmente será contestado num livro autobiográfico. Entretanto, ao mentir o livro passa do gênero de biografia para a ficção, que no meu olhar é onde a grande maioria das autobiografias deveriam ser enquadradas. E os famosos mentirosos precisam conviver com isso. Haja terapia, álcool e drogas para suportar a pressão da ficção assumida como realidade. Mas e nós, simples mortais, como vamos contar a nossa história? A nossa história será contada? Nós não podemos fazê-la virar ficção, porque simplesmente é a nossa vida. Se ela for contada ou não também é relativo, entretanto você saberá como ela foi vivida. Isso importa. Porque quando você encostar a cabeça no travesseiro você sabe o que foi real ou ilusão no seu dia. Você sabe quais os medos teve a coragem de desafiar e superar. Você sabe quais as tentações que teve a força de caráter necessária para suplantar, ou não… E o mais importante: você sabe quanta garra, determinação, resiliência, assertividade, alegria, humildade e gratidão foram investidos no seu dia para reconhecer que o esforço próprio é fundamental, porém a participação dos outros é indispensável.


Qual é a sua história?

Não somos máquinas…

Muito se fala sobre a separação entre o profissional e o pessoal como uma necessidade para se manter a sanidade. Não se devem levar problemas da empresa para casa, assim como não seria correto levar problemas de âmbito doméstico para a organização. No meu ponto de vista, trata-se de uma vã tentativa de transformar pessoas em máquinas. Considero quase impossível simplesmente desligar o botão da pessoa que está na empresa a partir do momento que ela deixa a organização, passando então a desempenhar somente o papel da pessoa que convive com a família e amigos. Da mesma forma, acredito ser improvável que alguém consiga entrar na organização deixando porta afora os sentimentos, as emoções e as questões relacionadas com aqueles com quem convive diariamente em outras esferas. Nós não somos máquinas, não há um botão ligar e desligar em nosso cérebro e em nossas emoções.

Lembro-me da história de um casal que se havia proposto a não levar para dentro de casa nada que os pudesse importunar. Os problemas deveriam ficar da porta para fora! O sossego da casa era sagrado. Em função das suas qualificações, o marido ficou responsável por trabalhar fora e trazer o dinheiro para o sustento da casa. A esposa seria a responsável pela organização da casa e da educação dos filhos. Cada um com os seus problemas, que não seriam discutidos no ambiente familiar para se manter a harmonia e também para que pudessem desfrutar sempre o lado bom da companhia um do outro. O papel desempenhado por um ou outro poderia ser invertido, mas a situação descrita era essa. Assim, sempre que a esposa avistava o marido retornando do trabalho meio cabisbaixo, ela avançava até o portão para dizer:
– Aqui em casa nada de problemas do trabalho, meu querido. Aqui é o nosso canto do sossego… e recebia-o alegremente com um beijo.

Sim, pensava ele, é o nosso trato. Desse modo, não compartilhava com a esposa as suas preocupações e frustrações no trabalho. Nunca lhe fizera um comentário sequer sobre a situação da empresa. Em casa se mostrava o mais solícito e alegre possível para continuar a construir a felicidade conforme acordado com a esposa, mantendo a segurança e a tranquilidade do ambiente familiar. E a esposa fazia por merecer a tranquilidade. A casa sempre estava impecável, organizada e limpa. Os filhos recebiam uma excelente educação. Frequentavam a melhor escola da cidade e tinham várias atividades extracurriculares como dança, canto e esportes. E ela, a esposa, o fazia com todo o empenho e dedicação. O seu dia também estava repleto de atividades de manhã até à noite com os problemas inerentes à atividade doméstica, que não eram poucos. Ela também não lhe dizia das dificuldades enfrentadas com as crianças na escola ou as demandas da casa. E assim, eles criaram uma bolha de tranquilidade e segurança para a família. Mas isso tudo estava somente na bolha, não na cabeça do marido.

A cabeça do pobre homem era um turbilhão de problemas, angústias, medos e insegurança. Não compartilhava com ninguém, uma vez que a condução da empresa estava sob sua responsabilidade. Como poderia compartilhar? Como poderia falar com alguém? Às vezes chegava a pensar em falar com algum colega, mas se preocupava, Se eu falar, os outros vão me achar fraco, medroso…. E assim seguia ele a sua sina. Até que teve um dia em que os problemas da empresa o atropelaram. Não havia como ocultar mais nada. A situação ficou de tal modo insustentável que a falência foi inevitável. O que fazer agora? pensava ele. Frente aos colegas e fornecedores, já estava arruinado, mas dar essa notícia em casa? Como contar para a minha esposa? Quem vai pagar a escola dos filhos?, pensava enlouquecidamente sem encontrar uma resposta. De todas as formas ele teria que ir para casa. Naquele dia, ao chegar no portão da casa, a esposa percebeu que ele estava especialmente triste. Teve vontade de perguntar o que havia acontecido, mas, como as regras por eles criadas não lhe permitiam, não disse nada. O marido a beijou e entrou. Abraçou as crianças que brincavam no jardim dos fundos da casa. Foi para o quarto como todos os dias fazia. Vai tomar o seu banho… pensou ela, mas hoje ele está muito triste… Começou a caminhar em direção ao quarto para conversar com o marido, mas foi interrompida por um estampido. Nada mais havia a ser feito.

História real.

Talvez a questão não seja a de não levar problemas para casa ou para a empresa. Não vejo nada de errado em estar no ambiente familiar e, de de repente, lembrar-me de como seria possível resolver um problema na organização. É natural, é inteligente e é produtivo. Isso passa a ser um problema quando a pessoa vive a todo o momento resolvendo os problemas da organização sem mais dedicar tempo para a família, o lazer e a diversão. Por que digo isso? Porque, da mesma forma, não há nada de errado em estar no ambiente de trabalho e pensar numa questão familiar ou mesmo programar alguma diversão extra-trabalho. Também acredito que isso seja salutar. O problema, mais uma vez, passa a ser quando alguém passa a usar os recursos da organização para atender e resolver questões particulares. Recursos esses que podem ser o tempo, os materiais ou equipamentos pertecentes à organização para a qual trabalha. Provavelmente, o ponto principal para resolver essa questão e manter a sanidade seja o equilíbrio entre uma e outra.

Por isso digo que nós não somos máquinas. Orgulho-me de pensar em questões de trabalho num domingo, porque isso me faz ver que aquilo que faço é importante para outras pessoas. Da mesma forma, sinto-me tranquilo ao comentar com um colega de trabalho sobre questões que são de foro familiar, porque isso me faz lembrar que sou humano.

Não sou máquina. E você?


Respeito dá lucro?

– Você só faz M…. Não dá para pedir nada pra você!

Alguém já ouviu algo parecido? Alguém já presenciou uma cena como essa ou mesmo já foi o protagonista dela, num papel ou no outro? Muitas são as vezes em que falas desse nível são proferidas nas organizações, principalmente de um diretor, gerente ou alguém em cargo de chefia para um estagiário, subordinado recém contratado ou de menor escalão. E o que se vê em falas como essas? Quem as usa pode pensar que está expressando autoridade, força e liderança. Porém, não acredito que seja isso que as outras pessoas veem. Acredito que o que se vê nessas falas é a total falta de respeito para com os outros, a ausência de visão estratégica, a inexistência de autoridade e nenhuma característica de liderança. Comportamentos assim na pessoa de alguém que ocupa um cargo de chefia levam a organização a ter baixa produtividade, ambiente de trabalho ruim e prejuízo. Traduzindo para uma construção muito mais simples, não respeitar é simplesmente burrice.

Antes de entrar na questão da lucratividade trazida pelo respeito, cabe destacar um aspecto moral. Para isso, lembro-me da homilia de um padre amigo meu. Ele falava para os presentes que apesar de não compactuar com o divórcio de um casal que havia assumido um compromisso vitalício de união, ele nada podia fazer para evitar as separações. Entendia por bem que, muitas vezes, a separação era o melhor caminho. O que ele não entendia e não aceitava era que os casais que queriam se separar chegassem até ele para dizer ofensas ao cônjuge. Muitos homens diziam, Aquela vaca…, ou, aquela vagabunda…, entre outras preciosidades. Por outro lado, muitas mulheres diziam, Aquele FDP…, ou, aquele cachorro…, entre outros “elogios” para os seus companheiros. Ele lembrava que os cônjuges se escolhiam para o serem por livre e espontânea vontade, por isso se indagava, Como assim? Quem vive com vaca é o quê? Quem vive com cachorro é o quê? Exatamente isso que você está pensando. As espécies convivem entre si. Da mesma maneira no ambiente organizacional. Contrata-se uma pessoa por livre e espontânea vontade e isso não dá o direito a ninguém a desmerecer outrem. Se você é um diretor, um gerente ou um chefe que vive com alguém que só comete erros, provavelmente isso nada mais é do que reflexo de quem você é e das suas competências ou falta delas.

Outro aspecto na questão de respeitar as pessoas com quem se convive pode ser respondida por uma simples pergunta: quem é a pessoa mais importante para você sem a qual você não se levanta pela manhã? Para todos, independentemente de ser diretor, gerente, chefe, estagiário ou jardineiro será: você mesmo. Não há resposta diferente para essa pergunta. Cada indivíduo neste mundo, obrigatoriamente, é o que há de mais importante para ele mesmo. Pode alguém pensar na esposa, no filho ou num irmão, mas a realidade é que se ele não puder contar consigo mesmo tampouco poderá ser importante para outros. Isso porque cada um é o centro do seu próprio mundo sendo cada um a parte mais importante que há nele. Lembre-se: sem você o seu mundo não existe. Parece simples, mas esse é um princípio para o respeito. Um diretor, gerente ou chefe que não consegue entender isso com relação à equipe que com ele trabalha dificilmente conseguirá respeitar alguém. Essa falta de percepção da importância do respeito tornará ainda menos provável a liderança de uma equipe ou gestão de uma organização lucrativa.

Cada vez mais nos aproximamos de uma época em que as pessoas se dão conta de que nada existe fora da natureza que não seja feito pelas pessoas e para as pessoas. A posição que cada um ocupa? Essa é circunstancial. Hoje você pode ser o diretor e esculachar um estagiário. Deixe passar alguns anos e o estagiário poderá ser o seu chefe ou o proprietário de uma empresa da qual a sua organização dependerá diretamente. E o tempo é implacável. Quem hoje pisa, amanhã poderá ser pisado. Começa-se a vislumbrar o lucro que pode advir do respeito.

No longo prazo, manter relações de respeito com as pessoas, não importando a posição que ocupam, lhe dará a lucratividade resultante de relações respeitosas no passado e no presente, garantindo-lhe um futuro. As pessoas com quem você conviveu o terão em alta consideração, podendo resultar em benefícios pessoais e organizacionais.

No médio prazo, o princípio do respeito ajuda a obter lucratividade de forma semelhante. Os bons contatos oriundos de relações decentes e o respeito adquirido de chefes, subordinados, estagiários, vendedores, fornecedores, entre outros tipos de convívio organizacional, apenas tendem a abrir portas. Com isso, tem-se facilitado o trabalho de prospecção de clientes, além da manutenção de amizades com concorrentes e fornecedores. Tudo isso também se reverete em lucro.

As relações de respeito no curto prazo são ainda mais lucrativas. Quando você trata a todos com quem convive diariamente com respeito, o ambiente fica mais leve, aprazível, produtivo e criativo. As empresas que mais investem em Treinamento & Desenvolvimento e que contam com ambientes mais relaxados são as mais produtivas ano após ano entre as Maiores & Melhores da Revista Exame. Outras publicações também confirmam essa tendência. Investir nas pessoas é uma maneira de demonstrar respeito que deve ser acompanhada de atitudes respeitosas no dia a dia. Não se trata de não cobrar resultados. Trata-se tão somente de respeitar inclusive no ato de cobrar. Aquele que diz que o outro só faz M… é literalmente quem está fazendo M…. Quem usa de tais recursos comportamentais não está sendo estratégico, nem ético, nem líder e nem chefe. Está sendo burro mesmo. Ôpa, se eu o chamar de burro também eu o sou? Não nesse caso, porque não me refiro a espécie, mas sim ao fato de ser ignorante ao não respeitar o outro.

Se o respeito, além de tudo, é lucrativo, não entendo como ainda se veem tantas situações em que pessoas tratam tão mal outras pessoas. Mais do que isso. Dê o sentido que você quiser para a palavra lucro e ainda assim o resultado de respeitar a todos será altamente lucrativo. Se você respeitar o seu amigo, a sua amizade vai se solidificar. É lucro. Se você respeitar a sua esposa, ela vai lhe amar ainda mais. É lucro. Se você respeitar o seu filho, ele vai se espelhar em você e respeita-lo-á. É lucro. Se você respeitar em qualquer situação, você será respeitado. É lucro. Por isso que se diz que respeito é bom e todos gostam. Por fim, todas as formas de respeito lhe trazem um lucro ainda maior: paz de espírito no curto, no médio e no longo prazo.

Viva melhor. Respeite!


Você tem vencido as discussões?

Nas nossas relações recebe destaque a capacidade de articular, de conversar e de respeitar para que se tenha um ambiente positivo e humano. Para desenvolvermos tais percepções, é necessário termos a flexibilidade mental para poder ouvir, escutar e processar querendo realmente entender o ponto de vista daquele com quem se conversa. Devemos ter a humildade para saber que se é possível estarmos errados quando todos estão de acordo, a probabilidade é ainda maior quando as opiniões divergem. Se é possível pensar o contrário, também é possível que a solução seja contrária àquilo que inicialmente se imagina (Rauber, 2010). Descobrimos isso somente quando se tem boa habilidade para conversar, mas principalmente quando sabemos escutar.
Destacamos aqui a importância de entendermos que não se conversa para vencer, mas sim para construir. Assim, não há necessidade de desenvolvermos o sentimento de estarmos enfrentando alguém, mas sim de compartilhamento com uma pessoa que naquela organização tem objetivos comuns. Não há partes contrárias. Há um todo do qual somos partes constitutivas e colaborativas.

Como são as suas conversas? Você “vence” muitas discussões? Cuidado, você pode estar perdendo uma chance…


Você sabe respeitar?

Uma conversa somente é validada quando há a escuta. Maturana (2001), lembra outros pontos que estão presentes numa conversa, como o contexto, o estado emocional e a história pessoal daqueles que conversam. Conhecer e saber sobre isso é fundamental para o profissional que quer fazer a diferença e quer fazer fluir. É o contexto que condiciona a forma de falar e de escutar, portanto a conversa. Também merece destaque perceber o estado emocional dos envolvidos na conversa, sabendo da predisposição para agir ou não a partir dela. Ou seja, tudo pode ser diferente dependendo do estado emocional dos envolvidos em uma conversa. Por fim, recordar que cada um tem a sua história pessoal que determina aquilo que cada um é e que estará presente na conversa. Falamos e escutamos a partir da forma como nos construímos com a nossa história pessoal. E o outro também.

Você sabe respeitar o outro como um verdadeiro outro?