Ir ao supermercado é uma experiência que se repete pela necessidade de comprar os produtos de subsistência inerentes ao ser humano. Vou com minha esposa, às vezes a contragosto, outras vezes porque gosto de observar e, muitas vezes, fazer meus juízos de valor. Somos humanos, somos estranhos. Observo um casal em que o homem abre uma das geladeiras para escolher um pedaço de carne congelada. Ele revira todos os pedaços e segue em frente sem levar nada deixando o freezer aberto. Mais adiante vejo uma mulher idosa que se aproxima da pilha de papel higiênico, apalpa um pacote e com o dedo perfura o plástico para sentir a textura. Aproximo-me da mulher e pergunto:
– Perdão, senhora, não se pode fazer isso. Imagina se todos fizessem o que você fez, como seria?
Ela me olha entre desafiada e ofendida. Logo responde com raiva:
– Você não tem nada a ver com isso! E eu não sou como todos! Que se danem todos!
Foi uma senhora, mas poderia ter sido qualquer um.
Discordo dela quando me diz que não tenho nada a ver com isso, porque tenho a ver com a sua atitude, assim como todos os clientes. Ela furou e tocou um produto que posteriormente poderia ter sido comprado por mim ou por qualquer outra pessoa. Assim, aqui quero ressaltar a dificuldade que temos de viver em sociedade exercendo a nossa liberdade, respeitando o espaço e o direito à liberdade do outro. As situações relatadas são exemplos extraídos da realidade ordinária que podem pouco importantes por serem de baixo impacto, porém creio que elas se repetem em situações de maior impacto em que pessoas com o mesmo entendimento da realidade como as acima citadas estejam presentes.
A questão proposta “se todos vivessem como eu…” leva o indivíduo a resgatar os seus valores e princípios éticos refletidos em seu comportamento. Entenda-se ética como o campo do comportamento humano que estuda os princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam as ações individuais que se refletem em normas e valores presentes na vida e no dia a dia das pessoas. Com isso, constituem-se um conjunto de regras que carregam em si determinados valores morais das pessoas que terminam por ser representativos da sociedade. A partir desse conceito pergunto: o que se pode esperar de uma sociedade composta por indivíduos que não conseguem entender que o seu comportamento impacta a vida de outras pessoas? Acredito que ainda temos um longo caminho de retorno evolutivo para resgatar determinados comportamentos que eram valorizados em tempos passados para que possamos construir uma melhor sociedade no presente e no futuro. Trata-se de voltar a incorporar valores de colaboração, cooperação e consciência ética de saber que aquilo que faço, ainda que ninguém veja, deveria poder ser feito por qualquer um sem que isso represente um dano ou produza um impacto negativo na vida das demais pessoas. O que você faz poderia ser feito por qualquer pessoa?
Enfim, aquela senhora me respondeu com agressividade ao ser interpelada por mim frente ao seu comportamento. Furar um pacote de papel higiênico é grave? Pode parecer que não, entretanto reflete a nossa falta de pensamento coletivo em que as minhas ações impactam a vida das outras pessoas. Como ela acertadamente disse “eu não sou como todos”, ainda bem, porque ninguém é como ninguém. Porém, o exemplo dado por um deveria poder ser seguido por todos. Da mesma forma, eu não quero viver como todos e provavelmente todos não querem viver como você ou como eu, contudo, há a possibilidade de que outros copiem aquilo que você faz. Desse modo, cada um de nós deveria ter isso em mente. Por isso a importância da pergunta: e se todos vivessem como eu?
Na sequência vi uma menininha que tinha sete ou oito anos colocar novamente em seu lugar um pacote de bolachas que alguém havia derrubado por distração. Ainda há esperança!
A irmã mais velha e o irmão de oito anos estavam no trem rumo ao campo de concentração de Auschwitz. Estavam assustados e sozinhos, porque os pais haviam desaparecido e, provavelmente, não estavam mais vivos. O vagão estava abarrotado de gente e, ainda assim, o frio era tremendo. A irmã olhou para o seu irmão e viu que ele estava descalço. Ela se irritou:
– Como pode ser tão burro, será que você não consegue fazer nada direito? Onde estão os teus sapatos?
E seguiu criticando, culpando e acusando o irmão por ter perdido os sapatos.
Essa foi a história contada por Benjamin Zander na palestra “O poder da transformação da música clássica” (https://encurtador.com.br/OIA8H) sobre liderança, exemplificando que os maestros conduzem e dirigem os componentes da orquestra sem dizer nenhuma palavra. Com palavras e sem palavras se pode criticar, culpar e acusar, assim é possível incentivar e desanimar; estimular e desmotivar; afetar com ou sem afeto. Depende da intenção. Desse modo, entende-se que quando nos deparamos com uma situação, ela é um estímulo para os nossos pensamentos e emoções. A boa notícia é que os sentimentos, as intenções e as ações são resultados da nossa escolha.
Entretanto, a nossa conduta frente aos estímulos a que somos expostos, muitas vezes, nos leva a criticar a nós mesmos, aos outros ou a situação, com isso culpamo-nos, culpamos o outro ou a situação por meio da auto acusação, da acusação ao outro ou da situação. Nesse cenário, seguimos um caminho de violência interna que se revela na forma como nos comunicamos com palavras, gestos e comportamentos no ambiente externo. Por fim a pergunta: o que fazer frente a estímulos que nos levam a dizer palavras, a fazer gestos e a adotar comportamentos, por vezes, violentos? E se fossem as últimas palavras, gestos e comportamentos?
Frente a essas perguntas, a Inteligência Positiva (Shirzad Chamine) nos convida a conhecer os nossos sabotadores internos liderados pelo crítico, para resgatar o sábio que está dentro de nós. Para isso, inicialmente faça uma pausa para se conectar com a realidade e se indagar: o que é fato aqui? Uma simples parada muda tudo, porque ela nos permite tomar consciência da diferença entre o que é fato e aquilo que é a interpretação dele (Passo 1 da Comunicação Não-Violenta de Rosenberg). Esse momento, fará com que se possa observar sem julgar para entender a emoção e mudar os pensamentos para escolher os sentimentos. A pausa nos permite identificar as necessidades que podem ser expressadas de forma trágica e violenta, com palavras, gestos ou comportamentos ao criticar a si mesmo, o outro ou a situação. Qual era a situação da irmã com o seu irmãozinho no caminho do campo de concentração?
A situação vivida pelos irmãos exigia que cada um dos poucos recursos disponíveis fosse preservado, porque não haveriam outros. Por isso, a reprimenda da irmã revelava as emoções que se transformaram em sentimentos que ela não conseguiu evitar, como o medo pela necessidade de segurança não atendida. Assim, os sabotadores sequestraram a sabedoria da garota e ela se expressou com violência. Ao contar a história, o maestro Benjamin Zander relembrou que a irmã conseguiu sair com vida dos campos de concentração de Auschwitz, porém o irmãozinho não. E aquela bronca foram suas últimas palavras ao irmão o que fez com que ela tomasse a decisão, “Eu nunca mais vou falar algo que não poderiam ser minhas últimas palavras”. É possível? Provavelmente não, porém com os recursos oferecidos pela Inteligência Positiva e pela Comunicação Não-Violenta é uma busca a ser vivida.
Respeitando as diferenças, no nosso dia a dia como líder, liderado, professor ou aprendiz, cabe a nós escolher as palavras, os gestos e os comportamentos como se fossem os últimos, porque um dia eles serão. Pode ser clichê, mas é real.
Finalmente, as palavras, os gestos e os comportamentos afetam o mundo, fazê-lo com afeto é a escolha de cada um!
Da esquerda para a direita: Wagner Rauber, Moacir Rauber e Oguener Tissot – De Boa na Lagoa remando por 220km (Janeiro de 2013),
O texto foi escrito para ser publicado no sábado (19-10-24), mas por alguma razão simplesmente esqueci. Hoje, num dia muito triste, publico em homenagem ao meu amigo Oguener Tissot que deixou lindas palavras para todas as pessoas com as quais compartilhou parte de sua breve vida.
O pior entre os melhores ou o melhor entre os piores?
Ele era a estrela do time do bairro, uma equipe competitiva para a realidade onde atuava. Ali ele se sentia feliz com o reconhecimento dos companheiros e com os elogios recebidos das pessoas que o viam jogar. O jovem tinha muita habilidade, por isso, muitas pessoas o incentivavam a buscar equipes mais fortes para jogar. Um dia um senhor o elogiou e o convidou para se apresentar numa equipe mais poderosa, porém, o jovem respondeu:
– Prefiro ser titular em time pequeno do que reserva em time grande…
O que a visão de mundo presente na resposta do jovem pode nos revelar?
Antes de responder à questão, cabe ressaltar que a vida não é uma competição em que você se compara com os outros, porque a comparação entre o incomparável é a chave da infelicidade. Entretanto, cada pessoa pode ser competitiva ao transformar o seu potencial em talento, entendendo-se potencial como tudo aquilo que alguém imagina que possa ser e fazer e talento como a capacidade de colocar em prática esse potencial.
Voltando a questão sobre a visão de mundo do jovem futebolista, pode-se propor pelo menos dois pontos: o melhor entre os piores não tem espaço para evolução, enquanto o pior entre os melhores tem todas as possibilidades à sua frente.
Desse modo, a resposta do jovem futebolista vista da perspectiva da Inteligência Positiva pode ocultar alguns sabotadores internos que temos, entre eles o crítico. Para Chamine, autor da teoria, o crítico é o sabotador mais poderoso ao criticar a si mesmo, aos outros e a situação. Na fala de preferir ser titular em equipe pequena está implícita uma crítica às equipes grandes, assim como uma autocrítica numa possível falta de autoconfiança. Além do mais, essa resposta reflete a aliança do crítico com sabotadores cúmplices. Um deles poderia ser o prestativo, que necessita da aceitação dos demais de maneira quase irrestrita, algo disponível onde o jovem está e que expõe a falta de autoestima. Igualmente, o crítico se alia ao controlador, que deseja que as pessoas atuem em conformidade com a sua vontade, algo existente na sua equipe e exibe arrogância. E, a aliança entre o crítico e o esquivo, evidenciada na busca por fugir de desafios maiores, algo que teria que enfrentar ao migrar para uma equipe mais poderosa e indica covardia. Portanto, da perspectiva da Inteligência Positiva os sabotadores estão no controle das ações do jovem, ao levá-lo a acreditar que está satisfeito onde se encontra.
A dominância dos sabotadores na resposta do jovem, igualmente evidencia uma violência interna não manifestada diretamente na resposta. O jovem carrega em si a necessidade de reconhecimento, supostamente atendida. Entretanto, ao responder fazendo uma comparação entre a equipe em que está com equipes “grandes”, ele revela a expectativa de avançar para novos desafios, sufocados pelo medo imposto pelos sabotadores no sutil diálogo interno ao mantê-lo onde está. Aí está a disfarçada violência dele para com ele mesmo.
Enfim, no fato de ter recebido um convite, como ele poderia ter respondido fugindo do domínio dos sabotadores sem ser violento consigo mesmo e permitindo um caminho evolutivo?
Primeiro, uma Pausa.
Em seguida, escutar o convite, receber o elogio e agradecer com naturalidade, reconhecendo em si a alegria como um Sentimento de bem estar resultado da Necessidade de reconhecimento atendida. Na pausa, resgatar o sábio diante da situação. Assim, ele poderia receber a empatia oferecida no elogio e no convite, além de explorar com autêntica curiosidade a situação. Ainda na Pausa, indagar-se quais as dádivas no elogio e no convite para poder se abrir para recebê-las. Nesse momento, navegar com a segurança e a confiança de quem reconhece que as habilidades individuais nos abrem para um mundo de oportunidades. Por fim, sem medo responder com assertividade e humildade ativando o sábio com os seus poderes.
Como sair de ser o melhor entre os piores para estar entre os melhores?
Onde você está?
“Pois eu declaro a vocês que a todo o que tem será dado ainda mais;mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado” .
Naquele dia, segundo a sua agenda, a palestra virtual estava marcada para começar às 20h. O palestrante, para quem a pontualidade era importante, tentava entrar na sala virtual 20 minutos antes para revisar equipamentos, tela de compartilhamento, áudio e receber os participantes. Entretanto, a abertura da sala estava sob responsabilidade do diretor da empresa. Assim, conforme os minutos passavam, a impaciência tomava conta dele. O relógio já marcava 20h e ele tentou ligar para o diretor, que não atendeu. O diálogo interno ficava agressivo, “Me irrita essa falta de pontualidade!”. Finalmente, decidiu respirar fundo e aceitar que essa ação não estava no seu controle. Um minuto depois a sala foi aberta:
– Boa noite, meu amigo, saudou o diretor.
– Boa noite, respondeu o palestrante incomodado.
– Estamos em tempo, o pessoal deve começar a entrar agora. A reunião vai começar às 20h15min.
Logo, o palestrante relaxou.
Aqui há algumas questões para serem analisadas, entre elas as oportunidades para exercer a paciência, a força para atuar naquilo que está no seu controle e a diferença entre as estratégias e as necessidades. Dessa perspectiva, acredito que a paciência é a chave que permite esclarecer os pontos seguintes.
Entenda-se paciência como a virtude do resultado da força emocional para o autocontrole que conduz o indivíduo a suportar a pressão de situações que não estão no seu controle. Inclusive, a paciência se revela na capacidade de escutar injúrias, supostas ofensas ou aceitar comportamentos dissonantes mantendo a calma, e ainda tolerar erros de terceiros. A palavra paciência tem origem latina patientĭa,ae entendida como a ‘capacidade de suportar, de resistir’. Destaque-se, porém, que paciência não é passividade e tampouco o ato de não escolher. Muito pelo contrário. A paciência é a virtude que permite refletir para atuar no momento apropriado sobre aquilo que está no seu controle, assim como reassumir o controle emocional para fazer o efetivo discernimento sobre as escolhas possíveis.
Assim, com paciência se pode avançar para os outros pontos: (1) o que estava no controle do palestrante? Não estava no seu controle abrir a sala virtual, contudo ligar para o diretor estava e ele o fez. Porém, o diretor não atendeu ao telefone. Assim, somente restava ao palestrante exercer a paciência. (2) Quais eram as suas necessidades e a quais eram as estratégias adotadas pelo palestrante? O palestrante adotava a estratégia da pontualidade para cuidar das necessidades suas, possivelmente de respeito, coerência ou consideração. Porém, a estratégia não funcionaria mais na situação descrita, porque não estava no seu controle iniciar a reunião. Desse modo, somente restava ao palestrante exercer a paciência.
Aqui, cabe resgatar que ser paciente não se refere a permitir que os outros o maltratem ou que o desrespeitem. A virtude da paciência, que exige muita força emocional, nos leva a ser tolerantes conosco e com os outros ao não exigir a perfeição nas relações segundo as nossas expectativas. Volta-se para a capacidade de avaliar o que está sob o meu controle, assim como para o exercício do discernimento de escolher uma das tantas estratégias disponíveis para cuidar das necessidades e atuar. E se os resultados não forem os esperados? Paciência, porque quando somos impacientes abrimos as portas para os comportamentos agressivos e antissociais, com as justificativas internas para os impulsos reativos que nos levam a ser violentos.
Enfim, após a entrada do diretor na sala virtual e a informação de que estavam no horário, o palestrante relaxou e lembrou-se: ele adotava a estratégia de agendar os compromissos com quinze minutos de antecedência para poder ser sempre pontual. Com isso, ele atendia a sua necessidade de respeito para com os participantes; de coerência para consigo mesmo; e de consideração para com a empresa que o contratara. Estava tudo certo, porque ele havia esquecido da estratégia adotada.
Quais as oportunidades que a vida lhe dá para exercer a paciência?
Numa de suas muitas interações com as pessoas que atendia, enfermos e carentes, a Madre Teresa de Calcutá ouviu uma das pessoas que a observava dizer:
– Não faria isso por dinheiro nenhum.
Ela respondeu:
– Nem eu.
Ela não o fazia por dinheiro, fazia por sentido. A história é conhecida e dela se podem extrair reflexões, entre elas indagar-se: eu faria o que faço se não fosse por dinheiro? Qual é o sentido para mim e para outro daquilo que faço? São perguntas que podem nos dar um norte num momento da história em que buscamos a sustentabilidade ambiental, social e econômica. Falamos muito de atividades “mais sustentáveis”, orientando o desenvolvimento tecnológico centrado nas pessoas e com soluções que contribuam de alguma maneira para a manutenção da vida no nosso planeta.
Entende-se que houve um caminho percorrido pela humanidade começando com a Sociedade 1.0, da caça, passando para a Sociedade 2.0, da agricultura, seguindo para a Sociedade 3.0, da indústria, avançando para a Sociedade 4.0, da informação, e, finalmente, chegando a Sociedade 5.0, da hiper conexão. Nessa sociedade há uma convergência entre o virtual e o físico fazendo com que ambas sejam reais, com a geração de alegria e tristeza; vitórias e derrotas; conquistas e fracassos; e amores e desamores em qualquer dos ambientes. Acredita-se que a Sociedade 5.0 pode nos levar a um modo de vida mais sustentável, mais eficiente e mais inteligente. Entretanto, qual é o sentido daquilo que se faz?
Assim, a Sociedade 5.0 aprofunda as possibilidades a partir da Inteligência Artificial, em que homens e máquinas são mais inteligentes; com a internet das coisas em que a tecnologia facilita a nossa vida; com a computação em nuvem que provê soluções a partir do compartilhamento de dados em escala global e por aí segue. Desse modo, a tecnologia está integrada no nosso dia a dia de maneira que já não se consegue viver sem ela. Entretanto, as perguntas existenciais, como, “quem sou?”, “de onde vim?”, “para onde vou?, se é que vou…” continuam a angustiar os seres humanos, porque não têm uma resposta que possa ser fornecida pela tecnologia. Creio que a tecnologia, por vezes, contribui para que se gere ainda mais ansiedade pelos estímulos externos a que somos expostos, mantendo-nos conectados num mundo virtual, desconectando-nos do mundo físico. Entende-se que o virtual não é antônimo de real, mas sim de físico. Entretanto, o mundo físico exige a presença real. Por isso, acredito que a Sociedade 5.0, muito mais do que hiper conexão nos deveria levar a entender o sentido daquilo que fazemos para contribuir nas respostas de nossas perguntas existenciais.
Enfim, responder as perguntas iniciais para saber se você faria o que faz se não fosse por dinheiro e qual é o sentido daquilo que faz para si mesmo e para os outros, nos levaria a um verdadeiro estado evolutivo, para Sociedade do Sentido. Com isso, passaríamos a ser uma sociedade sustentável, não apenas mais sustentável, porque não há espaço para destruirmos somente “um pouco o ambiente” ou para sermos “um pouco responsáveis” com atividades que não são viáveis. Igualmente, temos recursos tecnológicos e humanos para sermos uma sociedade eficiente e sem desperdícios. Assim, finalmente construiríamos uma sociedade inteligente e nela somente se faria aquilo que faz sentido. Senão, para que fazer?
Desse modo, entendo que é essencial que olhemos para trás e aproveitemos os exemplos de pessoas que, com sua forma de agir, trabalhar e viver, afetaram o mundo positivamente. É importante ser remunerado pelo que se faz? Sim, entretanto é indispensável que aquilo que se faz contribua para que a vida seja melhor para todos.
Relembrando o que disse Madre Teresa de Calcutá que não fazia o que fazia pelo dinheiro, porque acreditava que “se você não vive para servir não serve para viver”. Certamente, se todos vivessem como ela o mundo seria um lugar melhor para se viver, em todos os sentidos!
A conversa no café girava em torno das dificuldades econômicas e sociais do nosso país, principalmente como reflexo da conduta e do comportamento dos políticos nas diferentes esferas de influência. Era unanimidade que os vereadores, os deputados e os senadores, assim como os prefeitos, governadores e o presidente não representavam autenticamente os interesses dos eleitores. Inclusive, constatava-se que o poder judiciário se preocupava mais em politizar as situações do que em resolver em conformidade com a lei. Portanto, um dos integrantes da conversa ratificou: o problema de nosso país é a corrupção. Na sequência o tema mudou para a questão da comunicação e do entretenimento, admirando-nos com a profusão de recursos e serviços tecnológicos disponíveis, dificultando cada vez mais a escolha. Isso porque cada plataforma tem a sua forma de distribuição e de adesão. Desse modo, são tantas as ofertas que se você comprar ou assinar todos os serviços não há como pagar nem consumir. Nesse momento, um dos integrantes do grupo compartilhou:
– Ahh, eu comprei um aparelhinho que me abre todos os canais sem pagar nada. Paguei uma vez e está tudo disponível…
A fala foi feita com orgulho, demonstrando que se sentia mais esperto do que aqueles que pagavam mensalmente pelos serviços consumidos. O comentário, aparentemente inofensivo, confirma que o problema de nosso país é a corrupção. Trata-se de corrupção endêmica e transversal à população, confirmando que os políticos e aqueles que ocupam as altas esferas do poder não são nem mais nem menos corruptos do que nós, cidadãos comuns. Eles apenas têm acesso a outros tipos de oportunidades de serem corruptos. Por isso a pergunta: como seria o mundo se todos vivessem como vivia o meu amigo que rouba o sinal de TV?
Talvez possa parecer um crime menor roubar o sinal das TVs a cabo sob a justificativa de que o serviço é muito caro, porém se alguém não o pode comprar nada justifica roubar. Se eu não posso comprar uma TV de 50 polegadas isso não me dá o direito de roubá-la. Comparativamente às críticas feitas aos políticos e aos magistrados de que, muitas vezes, são corruptos, a ação de quem rouba o sinal é corrupção. Pode-se estender a pergunta para outras áreas: e se todos fizessem gato da energia elétrica? Para mim, esses atos de corrupção, que podem parecer pequenos, menores ou não prejudiciais, representam um problema endêmico da falta de valores e princípios de nossa sociedade em que fomos nos corrompendo gradativamente. Isso tende a nos levar a que ninguém mais pague os impostos ou a que ninguém respeite a casa do vizinho. Enfim, não se trata do tamanho do crime, porque é essencial entender que desviar recursos públicos ou roubar o sinal da TV a cabo é crime.
Nesse momento, fiquei triste, porque constatava que seria difícil sair da situação em que nos encontramos como país e como sociedade, porque são os pequenos roubos que fazemos que nos mantêm reféns do eterno país do futuro. A corrupção está no atestado falso, no uso inadequado dos recursos da empresa, no recebimento de benefício indevido e assim por diante. Da mesma forma, às vezes, parece-me pouco grave começar a aula cinco ou dez minutos mais tarde, porém, me pergunto: e se todos começassem suas atividades cinco minutos mais tarde? Outras vezes, parece-me pouco grave prestar um serviço e não emitir nota fiscal, contudo, outra vez me pergunto: e se ninguém emitisse nota fiscal? São essas pequenas corrupções que impedem que avancemos. Há que se destacar: ninguém está livre do pecado.
Por fim, ao final da conversa, paguei dezoito reais pelo café e um pão de queijo com uma nota de cinquenta pensando que era de vinte. A moça do caixa me alertou e deu o troco certo. E se todos nós nos comportássemos como a moça do caixa?
A atividade consistia em tirar uma foto do ambiente escolar. Os professores saíram com seus celulares para fazer as fotos e ao retornar a facilitadora as exibia, dizendo:
– Como a foto se conecta contigo e com o teu papel aqui?
Uma professora exibiu a foto de uma borboleta pousada numa flor; outro professor mostrou a foto do alambrado com um buraco e o sol por trás; mais um professor exibiu a foto de uma sala com as suas carteiras escolares; por fim, lembro-me de outra que mostrava pares de calçados no chão do ginásio de esportes e de um professor abraçado a um aluno. Todos viram as mesmas fotos, porém cada uma delas dava margem para diferentes interpretações. Com a realidade é semelhante, porque ainda que se esteja diante do mesmo fato a interpretação dele depende de quem o vê.
Desse modo, é importante entender que o conflito pode ser uma oportunidade e ele se inicia quando uma das partes se sente prejudicada frente a ação da outra numa área que considera importante. As divergências de opinião sobre um fato ou as discordâncias de postura na criação de normas ou os desacordos sobre um tema levam ao surgimento de conflitos que, se não cuidados, terminam em confronto. O que fazer diante de uma divergência que pode gerar um conflito e até um confronto?
A proposta a partir da integração da Inteligência Positiva (Shirzad Chamine) e da Comunicação Não-Violenta (Marshall Rosenberg) para a resolução de conflitos é que se pratique a Pausa para resgatar os Poderes do Sábio na busca por acessar os recursos internos de cada um.
Assim, antes da ação a Pausa, considerada uma ferramenta para tomar consciência da realidade, revelando-se como um processo ativo de escolher o movimento. Portanto, a Pausa dá a possiblidade de Observar sem julgar ou acrescentar opinião. Essa postura resgata o Sábio com os seus Poderes permitindo que a Empatia registre os Sentimentos próprios e alheios; que identifique as Necessidades das partes envolvidas; e que se Expresse de forma a ver as oportunidades num aparente conflito. A Pausa leva a que as partes Explorem a situação: o que está acontecendo aqui? Inovem nas alternativas: qual é a oportunidade existente? Naveguem pelas possibilidades: o que é ou não importante aqui? E Ativem os resultados: quais são as ações exigidas? Desse modo, a Pausa é essencial para que fotos e fatos, ainda que materialmente iguais, possam ser interpretados de diferentes maneiras, transformando conflitos em alternativas.
A professora que exibiu a foto da borboleta na flor viu a importância de se aproximar para ver a beleza, assim seria o papel dos professores com os alunos. O que você veria?
Fonte: IA BING
A foto do alambrado despertou no professor que entre as grades e os limites é possível encontrar as passagens para caminhar em direção a novas conquistas. O que ela despertaria em você?
Fonte: IA BING
A professora que exibiu a foto da sala com suas carteiras reforçou a importância dos limites que preservam a integridade dos alunos, estimulando o cuidado e o autocuidado. Qual seria a sua interpretação?
Fonte: IA BING
A professora que mostrou sandálias e sapatos, assim como o professor que mostrou uma foto com um aluno lembraram que eles são a razão de ser da escola. O que elas representariam para você?
Fonte; IA BING
Por fim, a interpretação das fotos trouxe algo bom em cada uma das interpretações. Assim, a intenção é resgatar os nossos recursos internos para ver algo bom e agir em conformidade, ainda que nos enfrentemos com situações aparentemente não boas. A dor, o sofrimento e a frustração são inerentes a vida humana, entretanto como nós as observamos é a nossa escolha. Resgatar o nosso sábio do domínio dos sabotadores para interromper o ciclo da violência é o desafio para ver o mundo de forma mais generosa e compassiva.
Ela se considerava uma pessoa consciente dos problemas que enfrentamos como seres humanos na nossa trajetória, por vezes, não tão evolutiva. Por um lado, transformamos o planeta de maneira a que seja mais amigável ao ser humano; por outro lado, nós o degradamos deixando-o inabitável em muitos lugares. Por isso, ela estava indignada com ela mesma, porque não acreditava que havia comprado um novo celular, sabendo que aquele que tinha atendia as suas demandas. Havia feito uma compra por impulso, porém agora restavam as parcelas a serem pagas e a dor na consciência por consumir sem necessidade. Assim, ela se perguntou:
– E se todos vivessem como eu, como seria?
Fiquei pensando nas reflexões que se podem fazer a partir dessa pergunta, indagando-me: e se todos vivessem como eu, como estaria o mundo? Posso fazer uma autoanálise, mas é mais fácil falar do outro… Cedo à tentação de levar essa pergunta para o comportamento de consumo de influentes, famosos, ricos e nós, pobres mortais, que, muitas vezes, mostramo-nos como defensores do planeta.
Começando por JeffBezos, maior acionista da Amazon, que citei como exemplo ético na condução das reuniões de sua organização, pergunto: se todos vivessem como ele, como seria o mundo? Provavelmente não teríamos recursos naturais suficientes para a próxima década, porque somente em seis semanas de uso de seu novo avião ele emitiu mais CO2 do que um cidadão médio emitiria em 17 anos (fonte: br.ign.com). Comportamento inviável!
Seguindo com um famoso, tomando Matt Damon como exemplo, mas poderia ser outro: como seria o mundo se todos vivessem como ele? Não conheço o seu estilo de vida, entretanto os milhões de dólares que ganha pela realização de um filme o coloca num patamar de consumo individual muito acima da média. Além disso, considere-se o impacto de consumo dos seus filmes ao redor do globo, comparativamente com as atividades de um pobre mortal. Nada recomendável!
Por fim, tomemos uma influencer atual, como Greta Thunberg: como seria o mundo se todos vivêssemos como ela? O ativismo dela sobre a consciência ambiental tem gerado debates ao redor do planeta, algo positivo, porém ele consome energia e outros produtos feitos de recursos naturais acima da média. Assim, quando ela sai da Suécia e vai para a Alemanha, Estados Unidos, Portugal ou qualquer outro país onde faça um protesto, ela gasta energia e gera CO2. Por vezes, ela até pode usar um catamarã movido a velas, entretanto, elas mesmas, o casco, as camas, as cordas e todos os recursos tecnológicos embarcados representam um nível de consumo energético bastante alto. Prática insustentável!
Assim, se todos nós (8,2 bilhões de habitantes) vivêssemos como Greta, Matt ou Jeff, ou outros tantos ativistas, artistas e milionários, não tenho ideia de quantos planetas precisaríamos para nos atender com os recursos naturais consumidos. Porém, não se trata somente dos influentes, ricos e famosos, mas de cada um de nós. Isso porque é igualmente insustentável, independentemente da renda, jogar uma garrafa de plástico no mar ou passar o dia na frente do computador vendo vídeos. É o nosso estilo de vida como humanos que precisa ser repensado. Consumir sim, mas para quê?
Enfim, a minha amiga, com seu drama de consciência por ter comprado um celular que não precisava, traz um sinal de esperança para que mudemos o nosso estilo de vida e de consumo. Não se trata de não consumir, mas de repensar o modelo do descartável, incorporando o conceito de negócios que seja ambientalmente correto, socialmente responsável e economicamente viável. A ordem dos fatores não altera o produto? Neste caso, sim, porque é essencial ser nessa ordem para que tenhamos um planeta para viver. Assim, cuidamos da casa e em seguida o universo é o limite!
Em termos de consumo, como seria o mundo se todos vivessem como você vive? Uma reflexão a ser feita por cada um e confesso que a minha consciência pesa…
Pontualidade era uma das características de Jeff Bezos, CEO e sócio principal da Amazon uma das maiores empresas globais. Assim, faltando alguns minutos ele entrou na sala onde o conselho de administração estava reunido. A sua cadeira vazia o esperava e, ao lado, outra cadeira vazia estava posicionada. O CEO se sentou e tocou o respaldar da cadeira vazia ao seu lado para em seguida indagar:
– Quem está aqui?
Todos sabiam que não havia ninguém sentado nela, porém todos igualmente sabiam o que ela representava. Essa era uma estratégia usada por Jeff Bezos, um dos símbolos do moderno empreendedorismo, para que todos tivessem consciência para quem eles verdadeiramente trabalhavam. Não era para a empresa, era para os clientes. Além disso, a cadeira vazia representava todas as partes envolvidas no negócio, como os colaboradores, os fornecedores e a comunidade. Por isso, propositadamente ele deixava uma cadeira vazia em suas reuniões com os executivos de sua organização, simbolizando que tudo o que fosse tratado pudesse ser ouvido por todas as partes.
A cadeira vazia servia para lembrar a todos que a reunião acontece pelos clientes, consumidores, fornecedores, colaboradores e todas as partes envolvidas na organização, porque sem eles ela simplesmente não existe. Uma organização é uma construção abstrata, as pessoas é que são reais. Desse modo, Jeff Bezos destacava que a cadeira vazia era a parte mais importante da reunião, servindo de controle para que tudo o que fosse proposto fosse feito com respeito. Portanto, cada um dos participantes da reunião deveria se perguntar: o que eu vou propor pode ser ouvido pelos meus clientes e colaboradores? Qual é a perspectiva do consumidor? Estou atendendo os objetivos da organização e do cliente?Ou relego ao consumidor e cliente um papel secundário? O que vai ser proposto aqui atende todas as partes envolvidas para que esta organização exista?
A estratégia da cadeira vazia pode ser aplicada para muitos outros temas e situações, como quando alguém vai preparar uma aula, uma palestra ou uma reunião de vendas, representando a perspectiva daqueles para quem o trabalho se destina.
Ao pensar o conteúdo da aula que como professor vou dar é importante pensar se ele realmente é dirigido para atender as demandas a quem ele se destina ou se simplesmente serve para que o meu trabalho seja mais fácil. Ao se escolher os temas a serem tratados na palestra para a qual fui convidado é essencial ter em mente se os tópicos vão aportar algo concreto para os participantes ou se apenas são pensados para que a minha participação pareça brilhante. Ao coordenar a reunião de vendas da minha equipe de trabalho é relevante ter em mente se as estratégias propostas são transparentes de tal maneira que o cliente sinta que um problema seu seja resolvido ao realizar a compra e não somente para eu atinja a meta de vendas. Dessa maneira, a cadeira vazia vai representar as necessidades daqueles envolvidos na minha organização sem a qual o meu negócio não existe. Quais são as suas expectativas? Quais são os seus desejos e preocupações? Quais são as suas necessidades que nós atendemos? E, por fim, o que eles pensariam do que estamos propondo?
Trata-se de uma maneira inteligente, simples e fácil de entender as pessoas. Lembrar que na cadeira vazia estão sentadas as pessoas que representam as demais partes envolvidas e, por vezes, colocar-se em seu lugar, adotando a sua perspectiva pode nos revelar situações que escondem grandes oportunidades. Além de tudo, uma cadeira vazia pode preencher o espaço com o verdadeiro respeito pelo outro.
Quem representa a cadeira vazia a quem o seu trabalho é dirigido? O que você propõe pode ser ouvido por qualquer uma das partes?
A esperança é a resposta certa quando enfrentamos dificuldades em nossas vidas.
A esperança é a resposta certa quando enfrentamos dificuldades em nossas vidas.
Devemos manter a esperança em tempos incertos?
Hoje em dia, essa questão está na vanguarda da minha mente — e provavelmente de muitas outras pessoas. Especialmente quando enfrentamos polarização política, crises humanitárias em nossas fronteiras e a perspectiva de um planeta em aquecimento, é mais fácil se desesperar do que ter esperança.
Mas, de acordo com William Miller, professor emérito da Universidade do Novo México, essa é a abordagem errada para o que nos aflige. Em seu novo livro, “8 Maneiras de ter Esperança”, ele explica por que devemos ter esperança e como cultivar uma perspectiva esperançosa.
“A essência da esperança é a melhoria visualizada, e ela nos serve bem”, escreve Miller. “Ela vem programada na natureza humana para sonhar um futuro melhor, nos ajudando a seguir em frente e sobreviver.”
Por que precisamos de esperança?
Como Miller define, a esperança não é uma abordagem ingênua para ver o mundo, onde ignoramos problemas e nos envolvemos em “pensamentos positivos”. Em vez disso, a esperança é uma resposta complexa, envolvendo “sentimento, pensamento, ação, visão, uma força vital e uma maneira de ver ou ser”.
Ter esperança, em vez de viver com medo ou ser cínico, ele argumenta, nos ajuda a ver possibilidades nas circunstâncias atuais e não ficar sobrecarregados. Pessoas que se sentem esperançosas são boas solucionadoras de problemas, mais resilientes e persistentes, mais engajadas e produtivas no trabalho, mais criativas e adaptáveis e melhores em se recuperar de adversidades. Por essas e outras razões, inculcar mais esperança em nós mesmos significa que estamos mais bem equipados para lidar com problemas e aproveitar mais a vida.
“Dada a infinidade de características positivas com as quais está associada, a esperança pode ser considerada uma virtude mestra”, escreve Miller. “É uma orientação positiva da mente e do coração em relação ao seu próprio futuro ou ao do mundo em geral.”
Ser esperançoso também pode ser contagioso, afetando como os outros veem o que é possível. Por exemplo, Miller relata um estudo em que a equipe de um centro de tratamento de alcoolismo para pacientes internados recebeu a mensagem esperançosa de que certos pacientes sob seus cuidados tinham mais probabilidade de melhorar. Após o término do tratamento, esses pacientes de fato tiveram menos episódios de bebida, períodos mais longos de abstinência e maiores taxas de emprego do que outros pacientes. Mas acontece que a equipe foi enganada — esses pacientes na verdade não tinham mais chance de melhora do que quaisquer outros. Apenas infundir esperança mudou o curso do tratamento.
Embora alguns possam duvidar dos benefícios da esperança, Miller sugere que uma visão sombria do futuro muitas vezes se torna uma espécie de profecia autorrealizável. Por exemplo, ele diz, acreditar que as pessoas são contra você pode fazer com que você aja sutilmente (ou não tão sutilmente) mais hostilmente em relação a elas, e seu comportamento pode realmente fazer com que elas reajam negativamente em relação a você. Infelizmente, escreve Miller, “[Essas] expectativas negativas, como um vírus, podem se replicar em um indivíduo ou grupo, muitas vezes sem consciência, e resistir poderosamente ao esforço de removê-las.”
Como ter esperança?
Como há boas razões para ter esperança, é útil entender as muitas facetas da esperança, escreve Miller. Cada uma delas pode desempenhar um papel na criação ou manutenção da esperança em nós mesmos e nos outros.
Desejo.
A esperança envolve querer um resultado futuro que poderia potencialmente se manifestar (mesmo que pareça improvável). Miller, que passou grande parte de sua carreira ajudando pessoas a superar o alcoolismo, descobriu que a esperança de sucesso era um elemento importante da recuperação — e o desejo era um precursor importante da esperança. Se seus pacientes não achassem que era tão importante parar de beber — se eles realmente não desejassem a sobriedade — era mais difícil fazê-los tomar as medidas necessárias para mudar.
“O desejo pode criar esperança, e a esperança nos encoraja a agir”, ele escreve.
Nesse sentido, esclarecer o que você deseja pode ser um ponto de partida importante. Uma maneira de fazer isso é tentar os exercícios da Varinha Mágica ou do Melhor Eu Possível.
Para encontrar seu propósito, imagine um mundo melhor
Probabilidade.
Como não podemos saber o que o futuro reserva, sempre há incerteza. Mas, até certo ponto, acreditar que um resultado positivo tem uma boa probabilidade de acontecer pode nos deixar mais esperançosos sobre isso.
No entanto, a probabilidade também pode enganar. Somos todos diferentes em nossa necessidade de certeza, o que afeta quando nos permitiremos ter esperança — e pode variar dependendo da situação também. Por exemplo, se estivermos entrando em uma cirurgia arriscada, podemos pesquisar cada canto da internet buscando garantias antes de ficarmos esperançosos ou apenas confiar na experiência do nosso cirurgião.
Quando se trata de avaliar a probabilidade de um resultado esperado, devemos ter em mente nossos preconceitos, como a tendência de buscar apenas informações que confirmem nossas visões (como ignorar a ciência em torno da segurança das vacinas) e nossos preconceitos (como presumir que a raça ou o gênero do nosso cirurgião é um sinal de sua competência).
Também não devemos presumir o que é provável com base apenas em experiências passadas. Por exemplo, as mulheres ganharam o direito de votar nos EUA, e a Irlanda do Norte intermediou um acordo de paz, apesar dos fracassos passados. Ter esperança pode mudar nossas chances, ele diz, então não precisamos deixar que a probabilidade a determine.
“A esperança não apenas antecipa, mas também molda o futuro”, ele escreve.
Possibilidade.
A esperança não é apenas sobre o que é provável, mas também sobre o que é possível. Estar disposto a manter a esperança viva pode afetar tudo, desde sua saúde até um tratado de paz, diz Miller.
Por exemplo, inúmeras pesquisas descobrem que manter a esperança viva em situações médicas pode afetar a quantidade de dor que um paciente sente e se ele será ou não “curado”. Na verdade, Miller cita uma revisão interessante de muitos estudos de placebo que descobriram que as pessoas podem experimentar alívio significativo da dor com placebos se estiverem esperançosas sobre eles, mesmo que o placebo não esteja ativo
“Ao perceber e buscar possibilidades, o aparentemente improvável pode acontecer porque, pelo menos em parte, o que você vê é o que você obtém”, escreve Miller. “Ver um possível caminho a seguir é tanto uma fonte quanto um produto da esperança.”
Otimismo.
Embora a esperança possa ser situacional, o otimismo é uma faceta de ser esperançoso que é mais como um traço de personalidade, escreve Miller. Pessoas otimistas parecem experimentar muitos benefícios, incluindo maior bem-estar e resiliência, e melhor saúde e desempenho no trabalho.
Quando otimistas enfrentam notícias negativas, eles ainda procuram informações esperançosas sobre elas, e isso pode inspirá-los a não perder a esperança. Pessimistas, por outro lado, podem se perder em notícias negativas e se sentirem desesperados ou desamparados. Mas todos nós podemos fazer bem em não focar excessivamente em notícias negativas, pois isso pode afetar nossa saúde mental e desencorajar o otimismo em outros também.
“O otimismo coletivo pode aumentar ou diminuir dentro de um grupo ou população, afetando a disposição das pessoas de investir no futuro”, escreve Miller.
Confiança.
Confiança pode parecer ver as pessoas ao seu redor como geralmente confiáveis ou acreditar que as coisas geralmente darão certo, mesmo que às vezes não dêem. Dessa forma, requer algo diferente de outras facetas da esperança.
“Probabilidade é um cálculo, possibilidade é uma visão, desejo é uma aspiração e otimismo é uma predisposição”, escreve Miller. “Confiança é mais como uma decisão, uma escolha arriscada de confiar seu bem-estar à proteção de outro.”
Confiança pode construir relacionamentos e encorajar cooperação, o que é bom para ação coletiva. Embora nem todos ou tudo seja necessariamente confiável, frequentemente obtemos melhores resultados se nos permitirmos ser vulneráveis e aceitarmos a incerteza que vem com a confiança, escreve Miller. Ceder ao medo, em contraste, pode nos manter presos e infelizes.
“A confiança mútua está intimamente relacionada à felicidade em relacionamentos pessoais, organizações e nações”, ele escreve. “Você [pode] escolher confiar apesar das dúvidas e do medo. Se o risco for recompensado, confiar pode abrir a porta para mais confiança, assim como o medo gera mais medo.”
Significado e propósito.
Ter um senso de significado ou propósito na vida também pode promover esperança, escreve Miller. Embora diferentes em teor, ambos ajudam a afetar como nos vemos em relação ao mundo ao nosso redor.
“Perceber significado na vida pode fornecer uma sensação de coerência, reconhecimento e compreensão em tudo o que está acontecendo”, escreve Miller, enquanto “o propósito na vida inclui um papel pessoal no presente e no futuro”.
Quando as pessoas têm um forte senso de significado ou propósito, isso as ajuda a ver um quadro maior e evitar desistir após enfrentar obstáculos ou contratempos. Por exemplo, se você é uma mulher que enfrentou discriminação, pode encontrar significado e propósito na luta pela igualdade e estar menos inclinada a se afastar dessa luta, mesmo que fique desanimada.
Assim como o otimismo, pessoas com propósito parecem experimentar muitos benefícios, incluindo menos chance de desenvolver demência e melhor saúde mental e física. O propósito pode nos dar o combustível para ter esperança (e trabalhar em direção a) algo melhor, assim como o significado.
“O significado se baseia em suas crenças e valores profundamente arraigados, pintando um quadro maior do que os detalhes do presente”, diz Miller. “Ele fornece um contexto maior dentro do qual entender a adversidade atual, um pouco como aumentar o campo de visão com a altitude que proporciona uma visão mais ampla”.
Perseverança.
Enquanto outras facetas da esperança são mais sobre como pensamos e sentimos, a perseverança é mais sobre ação, escreve Miller. “Perseverar é continuar tentando apesar dos obstáculos ou oposição, perseguir o que é difícil mesmo depois que muitos otimistas e realistas já perderam a esperança há muito tempo”, ele escreve.
Embora a esperança possa desencadear ação, a ação também pode desencadear esperança. Por exemplo, quando as pessoas estão deprimidas (e se sentindo sem esperança), uma das abordagens de tratamento é simplesmente ativá-las — fazê-las se mover ou se envolver em atividades agradáveis, quer tenham vontade ou não. Fazer essas atividades pode dar esperança, pois as pessoas veem que seu humor não é permanente, mas pode flutuar.
Quando perseveramos, temos mais probabilidade de ter sucesso, porque estamos dispostos a considerar caminhos alternativos se o caminho que esperávamos tomar estivesse bloqueado, escreve Miller.
Esperança além da esperança.
Embora todas as entradas para a esperança possam ser boas, há algo a ser ganho em ter esperança, mesmo quando a causa parece perdida, escreve Miller.
“A característica central da esperança além da esperança é uma recusa, independentemente da realidade atual, de desistir e sucumbir à desesperança, ao cinismo ou ao desespero”, ele escreve.
Embora às vezes possa ser difícil imaginar esperança quando as coisas estão tão difíceis, pode-se olhar para exemplos da história que superaram as probabilidades mantendo a esperança viva, escreve Miller — por exemplo, Martin Luther King Jr., Mahatma Gandhi ou Madre Teresa. Essas pessoas não apenas mantiveram a esperança viva, como também trabalharam em comunidade para ajudar a trazer as mudanças que queriam ver.
Praticar a esperança é particularmente importante quando enfrentamos dificuldades que parecem intransponíveis, escreve Miller. Visualizar o que queremos, colaborar com os outros, praticar a paciência e ser persistente em nossas ações pode fazer toda a diferença no que acontece em nosso futuro.
“Em última análise, a esperança busca manter a fé em valores profundamente arraigados e sem levar em conta o apego a resultados imediatos”, ele escreve. “É uma convicção de que algo melhor é, em última análise, possível para nós coletivamente.”
Artigo escrito por Jill Suttie (agosto, 2024) a partir do livro