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Você está correndo atrás?.

“Correr atrás…” é uma expressão popular que pode identificar um aspecto peculiar enraizado em nossa cultura. Quase sempre estamos “correndo atrás do prejuízo”. Nada contra
correr atrás para perseguir um objetivo, assim como o leão corre atrás de sua presa para garantir o almoço. Mas essa corrida faz parte do planejado. O ruim é que nós, quase sempre, estamos correndo atrás de algo por falta de planejamento, por “levarmos a vida na flauta”. Adotamos comportamentos parecidos com os da cigarra na fábula com a formiga. A primeira canta no verão enquanto a segunda trabalha para ter recursos no inverno. A formiga planeja e executa com antecedência. A cigarra faz festa e deixa tudo para a última hora. Assim somos muitos de nós. Quase sempre acreditamos que podemos “dar um jeitinho” e que na hora “h” vai dar tudo certo. Em alguns casos ou por algum tempo pode até ser, mas na grande maioria das vezes o sujeito vai ficar feito a cigarra pedindo arrego para a formiga. Essa postura revela um país de bravateiros, que preferem levar a vida na flauta cantando as glórias que não existem ao invés de se dedicar a um esforço real.

Você está correndo atrás? Pois é, lamentavelmente, muitas vezes, eu estou…

Ei, preciso falar com você…

Eles chegaram, sentaram-se numa mesa ao lado e pediram o seu almoço. Logo após o pedido cada um voltou para o seu smartphone. Teclavam freneticamente. Um sorrisinho, uma interrupção, olhar fixo na tela e um novo rompante nas tecladas. O tempo passava e eles não trocaram nenhuma palavra entre si. O prato pedido chegou. Cada um começou a se servir, mas o smartphoneestava colocado cuidadosamente ao lado do prato, ao alcance da mão e dos olhos. Entre uma garfada e outra uma rápida teclada. Era um olho no gato e outro no peixe, como diz o ditado. Às vezes o sorriso desaparecia de suas faces. Dava a impressão de que assuntos de vida e morte estavam sendo tratados enquanto eles almoçavam. Cada um imerso em seu mundo. Quarenta minutos depois terminaram o almoço. O primeiro se levantou e já estava se dirigindo para a saída do restaurante enquanto o segundo ainda teclava em seu aparelho. De modo meio atabalhoado, entre parar de teclar e se levantar para acompanhar o amigo, ele disse:
– Ei, ei, espera um pouco. Eu preciso falar com você…
Observei e perguntei-me frente aquilo que presenciei, Como? Preciso falar com você? E o tempo todo que estiveram um frente ao outro? Qualquer semelhança não é mera coincidência, é comportamento!

Retrato de seres humanos, seres estranhos, não é?

Cresceu até morrer…

Viveu e morreu crescendo, o que não quer dizer que tenha morrido de tanto crescer.
Inquietude, curiosidade, obstinação, inteligência, sagacidade e vivacidade são qualidades que permitem expandir a mente. Todas elas estavam presentes na vida e na obra de Ariano Suassuna e foi por isso que ele cresceu até morrer!
A vida nos traz a morte como final, embora, no seu percurso, o crescimento seja opcional.

Você é um aprendiz? Pode ser professor…

Não, não dá. Essa tecnologia toda, internet pra lá e pra cá. Eu não uso e não quero saber. Outro dia vieram com um tal de “tablete” pra mim. Eu falei que não quero! Quero dar a aula e pronto… E continuou discorrendo sobre a sua revolta com o atual mundo da tecnologia. Eu fiquei ouvindo e me perguntando, E pode ser um professor? Questionei-me porque, na minha opinião, alguém que quer ensinar também deve estar disposto a aprender.

O surgimento de novos aplicativos tecnológicos para usos em áreas tão diferentes como a saúde, a comunicação, a educação e o lazer é uma realidade objetiva que não está mais ao alcance do indivíduo alterar. Não está mais no controle de um ou de outro, seja do professor que fez o seu desabafo, do meu ou do seu. A tecnologia vai continuar no ritmo de desenvolvimento determinado pelas pessoas que a usam e que são a grande maioria. O que está no controle de cada um é o que se vai fazer com ela. Muitos ainda dizem, É, as pessoas não têm noção. Exageram. Fazem fotos no velório para postar… É verdade. Mas bom senso não é questão da tecnologia. A falta de noção sempre existiu e vai continuar existindo, dependendo exclusivamente das pessoas. Por isso, entender, conhecer, saber, diferenciar, escolher e disciplinar o uso da tecnologia depende de cada um, assim como manter a mente aberta para a aprendizagem.

A resistência à aprendizagem nada tem a ver com o surgimento da tecnologia, isso é um movimento de oposição de indivíduos que querem que tudo se mantenha como está. Para muitos, aprender dá trabalho e estes ficarão perdidos transformando-se rapidamente em analfabetos funcionais. Melhor qualidade de vida terão aqueles que acreditarem que aprender é um prazer, entre eles professores e formadores.


No meu ponto de vista, aqueles que pretendem atuar como instrutores, professores, consultores ou outras profissões que trabalham com a formação de pessoas deveriam ser os primeiros no processo de disponibilidade para a aprendizagem. Não quer dizer sair por aí enchendo-se de penduricalhos tecnológicos, mas sim saber dos potenciais, do uso e abrir-se para a sua intuitividade. Você quer ensinar? Sim. Você está disposto a aprender? O “sim” deveria ser uma obrigação. Eric Hoffer, falecido em 1983, já dizia, “Em tempos de mudança, os aprendizes sobreviverão, enquanto aqueles que acham que sabem muito estarão preparados para um mundo que já não existe.” Pensando nisso, um aprendiz pode ser professor, mas um professor, obrigatoriamente, deve ser um aprendiz. E um aprendiz pode ser o que quiser…


O moço de carrinho…

Era o aniversário de número 85 da avó da minha esposa. Uma festança. Estavam reunidos netos, tios, tias, primos e alguns conhecidos para festejar com a matriarca. Entrei no salão com a minha esposa. Muitas pessoas a reconheceram imediatamente. A mim não, porque era a primeira vez em quinze anos de relacionamento que eu participava de uma festa da família dela. Todos que olhavam para ela, logo saudavam-na e a abraçavam. Quando dava, para algumas pessoas, ela me apresentava. Festa de família é isso. Eu fiquei por ali, quase só observando. Nisso vejo a minha sogra se aproximando da filha. Percebi que não conseguiram se cumprimentar porque havia uma roda de primos a volta da minha esposa. Assim, a sogra veio até mim. Atrás dela vi uma senhorinha bem velhinha com um olhar alegre e faceiro. Bastante idosa, mas parecia ser bem serelepe. A minha sogra me cumprimentou com um abraço. A velhinha ficou olhando. De repente eu a vejo abrir os braços para também me dar um abraço, mas antes ouvi:
– Mas quem é esse moço de carrinho?

Essa foi a imagem na minha cabeça quando fui chamado de “O moço de carrinho…”

A palavra “carrinho” fora dita referindo-se a minha cadeira de rodas. Creio ter ficado com a cara um pouco entediada, mas recebi o abraço, pensando, Já começou. O que mais vou ouvir hoje…A minha sogra explicou para a senhorinha, amiga da família, que eu era o genro dela. Ela somente expressou um Ah… e seguiu toda alegre pelo salão. O dia foi lindo e a festa maravilhosa. Ao final  da festa todos se despediram de todos, mas principalmente da avó. Afinal era o aniversário dela…
Um ano se passou e a avó continua firme e forte. Isso é motivo para mais uma festa, agora para o 86° aniversário.
Chegamos no salão e toda aquela muvuca outra vez. Minha esposa sendo cumprimentada pelos primos, amigos e parentes. Desta vez eu já estava enturmado. Também os cumprimentava. Olhei em volta e vi a minha sogra se aproximando. Ela nos cumprimentou com um forte abraço. Olho para o lado e vejo a mesma senhorinha do ano anterior de braços abertos para também me dar um abraço. Pensei, Olha só, quem está aí… Antes que eu pudesse falar qualquer coisa ouço-a dizer:
– Mas quem é esse moço de carrinho?

Senti-me preso no Feitiço do Tempo, descrito no filme de 1993, em que o personagem vive inúmeras vezes o mesmo dia. Veremos como será a festa no próximo ano…

A situação nos serve para uma reflexão: quantas vezes nós somos vítimas do feitiço do nosso próprio tempo? Quantas vezes ficamos presos aos nossos conceitos, ideias, medos, amores e rancores? Podemos e devemos avançar, embora nem sempre seja fácil. Entretanto, estar disposto a desaprender para aprender de novo é parte da construção de um novo caminho, como já dizia Gonzaguinha na música Eterno Aprendiz.

Você é curioso?

Muitas vezes, ao assistir uma entrevista ou uma reportagem pergunto-me por que os repórteres fazem tão poucas perguntas? São inúmeras as situações que o jornalista responsável dá a sua versão do fato, que é mera opinião, dá a sua resposta e deixa ao final uma interrogação. As entrevistas coletivas dadas por jogadores e treinadores durante a Copa do Mundo exemplificaram a situação. 
Lembro-me de uma pergunta feita a um técnico:
– Você não acha que na última derrota se nós não tivéssemos encarado eles de igual para igual, assumindo que são mais fortes, e tivéssemos povoado o meio de campo (expressão da moda) nós teríamos obtido um resultado melhor?

Pergunto: isso é uma pergunta? No meu ponto de vista não. O repórter mencionou o fato, fez a análise e deu a resposta. Caso o técnico tivesse dito “Sim” ou “Não” poderia ter encerrado a questão. O repórter usou a forma interrogativa para expressar a sua opinião. Às vezes, deve-se lembrar que a pergunta é uma ferramenta útil para aqueles que querem investigar, descobrir e aprender quando usada com genuína curiosidade.
Você tem sido genuinamente curioso?

Tá vazando óleo…

Viagem com contratempo e a sogra no meio…

As chuvas têm castigado muitas cidades da região sul do Brasil nos últimos dias. Algumas rodovias, que em geral não são lá aquelas coisas, também são atingidas por deslizamentos. Numa viagem recente, ficamos presos numa barreira. Estávamos entre os primeiros cem carros parados após o deslizamento. Ficamos sabendo que para dar passagem teríamos que esperar pelo menos seis horas. Resolvemos dar a volta e ir até a cidade mais próxima, onde almoçamos e conversamos com algumas pessoas. Na saída do restaurante nos deparamos com uma viatura da Polícia Militar em que os policiais nos informaram que havia um caminho alternativo, porém teríamos que fazer uns 20km de estrada de chão. Disseram que a estrada tinha partes boas e outras com muitos buracos, mas sem risco de ficarmos atolados. Havia mais uma família que estava na mesma situação. O carro deles estava lotado. Estavam nele um casal, um garoto com uns 12 anos, um bebê de colo e a avó, a sogra do homem do casal. Lá fomos nós pelo atalho… Realmente nos primeiros quilômetros a estrada estava boa, mas depois os buracos e a lama tomaram conta. Foi um rally, porque patinamos, aceleramos, derrapamos e chacoalhamos para valer, mas finalmente chegamos ao asfalto que dava acesso à balsa que completaria o nosso atalho. Uma fila enorme de veículos que aguardavam a sua vez. O motorista do carro, que fez o mesmo trajeto conosco e que levava a sua sogra, aproximou-se da janela do carro. Começamos a conversar com a participação ativa do garoto. Ele até parecia um homem que gostava de puxar papo, mas, impaciente, logo se mandou. Alguns segundos depois o menino grita:

Pai, pai, vem aqui. Olha só, tá vazando óleo…

O pai do garoto empalideceu. Pude ver em seus olhos a tristeza pelos prováveis danos ao seu carro, que tinha aparência de ser novo. Não era de estranhar uma avaria no carro frente a todos os buracos que passamos. Ele rapidamente foi até o garoto. Não pude ver o que ocorreu, mas ouvi o seguinte diálogo:
Onde meu filho, onde?
– Olha ali pai. Tá vindo daquele lado…
– Ah, meu filho, isso não é óleo. Isso é a sua avó…

A sogra não havia conseguido mais esperar por um banheiro… O dia foi tenso e o atalho nos deu trabalho. As seis horas de espera previstas na rodovia se transformaram em dez horas pelo desvio, mas o bom humor resistiu!
Veja que bboa ideia!!!

Sou cadeirante e tenho preconceitos, sim. E se fosse a minha filha?

A Andréia era minha amiga. Andávamos juntos sempre que podíamos. Gostávamos de conversar e de ficar próximos um do outro. Na brincadeira para lá e para cá, às vezes, ela sentava no meu colo, aproveitando a minha cadeira de rodas. Eu achava isso o máximo!  Algo estava acontecendo que ultrapassava a simples amizade. Ainda não admitíamos a possibilidade um para o outro, porém um dia isso ficou para trás. Havíamos combinado de sair para conversar após as aulas dela. Esperei-e em frente ao portão da universdade e fomos até o lago, uma linda região da cidade. Passamos um tempo agradável um na companhia do outro. Depois levei-a para casa. Os limites da amizade foram superados naquela noite. Deixei-a na porta de sua casa e fui para a minha. Estava um pouco zonzo. Fiquei pensando, Caramba, o que foi isso? Quase não consegui dormir. No dia seguinte fui cedo para o trabalho, mas a cabeça ainda estava na noite anterior. Mil e uma dúvidas na cabeça. Será que ligo para saber como ela está? Será que ela gostou do que aconteceu ontem? Estava difícil para me concentrar, mesmo assim trabalhar era necessário. Um pouco antes do meio-dia a secretária me passa uma ligação. Era ela! Eu fiquei muito nervoso, mas procurei disfarçar. Até parecia que os meus trinta anos haviam se transformado em quinze. Sozinho na minha sala eu estava ruborizado. Na conversa, ela me pediu carona para o almoço, uma vez que morávamos no mesmo bairro.
Passei no escritório em que a Andréia trabalhava. O cumprimento foi com um beijinho no rosto, como se fôssemos amigos. O trajeto do centro em direção ao bairro foi preenchido com conversas triviais. Creio que tentávamos parecer tranquilos. Pelo menos era a minha intenção. De repente, silêncio… Não me veio nada mais à cabeça para continuar nossa conversa. O silêncio estava angustiante. Minha atenção estava voltada para a direção. Estávamos justamente passando na região do lago em que precisava fazer uma curva acentuada à esquerda quando o silêncio foi quebrado com uma pergunta à queima-roupa:
Então, Moacir, estamos namorando ou não?
O impacto da pergunta foi tão forte que quase perdi o controle da direção. Minha cabeça entrou em parafuso, A curva,meu Deus, a curva…Consegui contorná-la. Milhões de pensamentos se misturavam na minha cabeça atordoada, Como? Namorando? Eu com você? Ai, ai, ai… O que é isso? Com certeza eu estava de boca aberta. Tentava manter os olhos na rua, mas sentia claramente o olhar da Andréia. Aquele olhar curioso, transparente e que parecia que podia ver através de mim. Por fim, balbuciei algo:
­- Bom… Bem… Sim, acho que sim.
Ela respondeu:
– Ôba!!!
Com a resposta, ela deu a entender que isso era assunto encerrado. Ela era minha namorada e eu o seu namorado desde a noite anterior.
Na minha cabeça estava tudo enrolado. Como assim, “Ôba!”? Pensei que fosse somente para ficar? Ela tem menos de 20 e eu tenho mais de 30… Ah meu Deus… Não falei quase nada até chegar em casa, mas muita coisa estava no meu íntimo. O pensamento voltava, Namorando, eu? Não, não, não… Isso não vai dar certo. E todas as demais questões envolvidas? A reação dos pais dela? O que achariam os meus pais disso? Namorar uma meninota de menos de 20 anos… E os meus amigos? A minha comunidade? Na realidade o pano de fundo era bem outro. Eu era um cadeirante por mais de dez anos e nunca havia namorado, publicamente, ninguém. Tratava-se do meu preconceito para comigo. Todas essas dúvidas e medos me assaltavam. Mas, por outro lado, eu deveria lembrar que eu não namoraria com os pais dela, com os meus pais, com os amigos, com a comunidade  ou com qualquer outra pessoa. Ela, a Andréia, é que seria minha namorada. E para ela estava tudo resolvido por meio de uma constatação e de uma pergunta: Eu gosto de você. Você gosta de mim? Simples,  não? As demais questões estavam na minha cabeça.
Escrevo tudo isso quase vinte anos depois. Foi a situação exposta no post E se fosse a sua filha? sobre as dúvidas e os medos daquela mãe com a possiblidade de que a sua filha única fosse se casar com um cadeirante que me fez pensar sobre tudo isso. Relembrei a reação do meu sogroe da minha sogra. Agora relembrei o meu comportamento. Voltando no tempo constato que eu tinha preconceitos e era preconceituoso. Até então nunca havia assumido uma namorada porque o meu preconceito para comigo me impedia de fazê-lo. Imagino agora se eu tivesse tido uma filha e ela quisesse, naquela época, casar com um cadeirante… Muito provavelmente eu não seria um entusiasta. Hoje, já vivi comigo como usuário de cadeira de rodas por quase trinta anos. Caso pai eu fosse, certamente, seria zeloso com as amizades e namoros de uma filha, mas as preocupações se voltariam para o caráter da pessoa e não para a sua condição física. Confesso que ainda tenho preconceitos e são muitos. Não vejo nada de errado em tê-los, porque simplesmente não se pode evitá-los. Eles são naturais do ser humano. Reconheço que tenho tantas opiniões formadas sobre assuntos que não domino o suficiente para tê-las que revelam os meus preconceitos. Entretanto, o que me diferencia hoje com relação àquele sujeito que fui há 20 anos é o que faço com eles. Caso não me interesse, deixo de lado. Caso pretenda me manifestar a respeito, esclareço-os para que não seja preconceituoso. Depois de esclarecido e entendido algo posso gostar ou não, mas aí resultado de conceitos, de princípios e de valores, mas não por ser preconceituoso.

E você, tem preconceitos? É bem diferente de ser preconceituoso…

E se fosse a sua filha 3? Enfim, a sogra…

Genro e sogra são capítulos a parte. A relação com a minha sogra não é diferente… Tudo começou quando ela soube que a filha dela estava namorando um cadeirante. Isso também foi lembrado pela minha esposa no jantar com o meu sogro, conforme relatado nos posts E se fosse a sua filha? e E se fosse a sua filha 2? O sogro.
A conversa estava animada, pois as lembranças eram ótimas.  Agora era a vez de falar sobre como fora a reação da mãe da Andréia para essa revelação. O desfecho foi bem diferente… A minha esposa lembrou que também estava um pouco temerosa de contar para a mãe. Nunca teve dúvidas com relação à decisão do namoro, mas ficava um pouco intimidada com uma possível reação negativa da mãe e talvez do círculo de amizades dela. Cidade pequena, todo mundo conhece todo mundo. Sabe como é…
No final de semana em que ela começou a preparar o terreno para contar a novidade, disse:
– Mãe, no próximo final de semana gostaria de te apresentar o meu namorado…
A mãe da Andréia, sem dar muita importância para a conversa, apenas respondeu:
– É?… E continuou sentada no sofá, tricotando.
– Sim, mas queria dizer que talvez você possa não gostar muito dele.
– Por que, minha filha?
– É que ele é cadeirante… Disparou a Andréia.
A mãe dela parou de tricotar, levantou-se do sofá num rápido impulso, olhou para a filha e disse:
– Ah, mas não vai fazer ele sofrer. Se for para isso escolha outro…

Quando a Andréia terminou de contar essa história nós rimos até chegarmos às lágrimas. Também o olhar para trás, nesse caso, revelou-me a real preocupação com o outro. A mãe da Andréia não estava tão preocupada com a filha, mas sim com um possível sofrimento que o seu comportamento poderia infringir a outro, que supostamente já sofrera muito… Essa genuína preocupação com o outro também vejo refletida no comportamento da Andréia.
O jantar prosseguiu. A Andréia e o pai dela continuaram a conversa. Eu permaneci nas lembranças e veio-me à mente como se fosse hoje a primeira visita que fiz à Andréia na casa da mãe dela. Cheguei e vi uma casa com um pequeno e bem cuidado jardim na sua frente. A Andréia apareceu com a mãe dela. Fui muito bem recebido. Cumprimentamo-nos. Entramos na casa e a mãe da Andréia fez questão de mostrar as mudanças que havia feito na casa para que eu, um cadeirante, pudesse circular à vontade. Ela me explicava, enquanto íamos de um cômodo ao outro:
– A casa tem dois banheiros. Este aqui (mostrou o banheiro social), mas não tem jeito de adaptar para você usar. E este aqui (mostrou o banheiro que estava na suíte do quarto dela). Aqui deu para ajeitar. Mandei arrancar a porta dele para que você pudesse passar… E continuou dando maiores detalhes.
Quase duas décadas depois, sempre que vou até a casa da minha sogra, durmo no quarto dela. Pois é, tem alguém aí que dorme na cama da sogra? Eu durmo…
Pela terceira vez a pergunta: o que você diria se a sua única filha quisesse se casar com um cadeirante?

Eis o desafio: você conseguiria ver a pessoa além da cadeira? Minha esposa e os pais dela viram… E eu, conseguiria?

No próximo post vou comentar sobre outra situação: e se fosse a minha filha? A situação é hipotética porque não tenho filha nem filho, mas tenho lá meus conceitos e preconceitos…

E se fosse a sua filha 2? O sogro…

No post E se fosse a sua filha?  escrevi sobre as preocupações de uma mãe porque a sua única filha estava querendo se casar com um rapaz paraplégico. No meu caso a filha única de alguém contou para os seus pais que estava namorando um cadeirante. O sogro e a sogra: diferentes pessoas, reações desiguais. 
Como foi a reação do meu sogro ao saber que a sua única filha iria casar com um cadeirante?
Recentemente, estávamos jantando, meu sogro, minha esposa e eu. Falávamos sobre diferentes temas, alguns polêmicos e outros ocasionais. Uma certa nostalgia no ar, porque recordar também é olhar mais uma vez. Não se trata de ficar preso ao passado e viver de lembranças, mas de esmiuçar as experiências para viver bem no presente e garantir um futuro melhor para si e para os outros. Entre as lembranças nos ocorreu como foi que a minha esposa, filha única, havia dado a notícia para os seus pais de que estava namorando um rapaz paraplégico. Não só como deu a notícia, mas também como fora a reação deles.
A Andréia começou a contar a história da reação do pai. Ela disse que, inicialmente, estava preocupada em contar para ele, pois não sabia qual seria a sua reação. Ela somente sabia que estava gostando do dito namorado, que no caso era eu. Sorte a minha! O pai dela e eu somente escutando… Ela continuou relembrando, dizendo que nós já estávamos “ficando” por mais de um mês quando ela resolveu contar. Foi num sábado à tarde, antes de ir até a minha casa (quase sempre era ela que me visitava. De novo, sorte a minha!) que ela revelou o grande segredo para o pai:
– Falei mais ou menos assim. “Pai, eu tenho um namorado. Não sei se você vai gostar muito dele…”. Lembro que ainda antes de eu dar os detalhes ele já respondeu, “Mas você gosta dele?”. Daí eu disse que sim, mas que você era cadeirante… Ela disse olhando para mim.
Logo continuou contando:
– E as palavras do meu pai foram as seguintes, “Se você gosta dele, tudo bem. É você quem vai viver com ele, não eu!” Ainda bem para mim…
Nós rimos das lembranças. Para mim ficou o aprendizado da ausência total de preconceito, o incentivo a independência e a assunção de responsabilidades sobre as próprias escolhas na postura do meu sogro. Sempre pude perceber que esses ensinamentos estão presentes na conduta da Andréia. Ao longo dos quase 20 anos em que convivo com ela, e também com o meu sogro, essa percepção inicial se mostrou real. Não foram somente palavras. Nunca tive que ouvir qualquer comentário que se referisse à minha condição física ou lamúrias sobre decisões que houvessem se mostrado equivocadas.

Por fim, mais uma vez a pergunta: o que você diria se a sua única filha quisesse se casar com um cadeirante?

No próximo post vou contar como a minha sogra recebeu a notícia que a sua única filha estava namorando um cadeirante…