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Sim, tem algo que não faço sozinho!

Moacir Jorge Rauber
Muitas vezes quando não conhecemos algo, temos todas as certezas do mundo sobre aquilo.
Numa sexta-feira qualquer estive num churrasco promovido por alguns amigos. Nele estavam as pessoas de sempre, mais um senhor de uns setenta anos que não conhecia. Cumprimentei-o na chegada e percebi que durante boa parte da janta eu estava sendo observado. Terminada a refeição ele se aproximou de mim e disse, “Deve ser muito difícil a sua situação, não é?”. Apesar da interrogação no final da sua abordagem não respondi nada, mas mantive um sorriso armado até os dentes. Como não obteve resposta ele continuou em sua ladainha de misérias que deveria ser a minha vida, porque nada eu poderia fazer sozinho, entre tantas outras desgraças. Deixei-o falar por mais alguns instantes até que me dispus a interagir, já quase desarmado. Expliquei-lhe que, apesar das dificuldades impostas pela limitação física da condição de cadeirante o mundo tem melhorado consideravelmente nos últimos tempos, oferecendo mais comodidades a cada ano que passa. Disse-lhe também que levo uma vida absolutamente independente, citando um período em que vivi completamente sozinho por quase dois anos. Por fim, mostrei-lhe que inclusive posso e saio sozinho conduzindo o meu carro sempre e quando me convém. Arrematei a nossa conversa dizendo, “Tem apenas uma coisa que não faço sozinho, algo que talvez o senhor não faça mais, para a qual prefiro uma companheira!”. Nesse momento ele arregalou os olhos, aguardou um pouco até assimilar as entrelinhas e soltou uma sonora gargalhada. Ele ficara feliz, porque afinal o conhecimento jogou-lhe luz sobre uma situação sobre a qual ele tinha todas as certezas, apesar de não conhecê-la.
Por isso, a ignorância nos gera certezas, as certezas nos conduzem a arrogância e a arrogância nos conduz as limitações de visão e percepção de oportunidades. Por outro lado, o conhecimento nos gera dúvidas, as dúvidas nos geram alternativas, as alternativas nos ampliam as perspectivas que nos proporcionam novas oportunidades e maior conhecimento.

Gestor e gerido: motivações diferentes em situações distintas

Moacir Rauber
Cada indivíduo está exposto a diferentes situações dentro da organização. Dependendo do nível hierárquico, de questões técnicas e de outras inúmeras situações todas as pessoas podem se encontrar na situação de gestor ou senão de gerido. Esta é uma variável que tem sido pouco explorada e pouco considerada em pesquisas, cursos, eventos e palestras motivacionais. Ora sou gestor, ora sou gerido. Melhor ainda, ora estou gestor, ora estou gerido. Mesmo o diretor presidente de determinada organização pode se encontrar na condição de gerido, ainda que contra sua vontade, pois há momentos em que ficará na dependência de situações fora de seu controle para a tomada de decisão, tornando-se gerido. Desse modo, se as motivações são singulares e os indivíduos são únicos, ao se falar de gestor e de gerido, acrescenta-se uma variável a mais nesse cenário. A motivação torna-se, assim, uma questão muito mais complexa num panorama global de valorização das pessoas e suas competências.
Esse cenário não isenta a ninguém da responsabilidade de entendimento do todo organizacional. Pelo contrário, obriga tanto aos gestores como aos geridos a entender e compreender que aquilo que motiva a um pode não motivar ao outro. Com esse entendimento pode-se, mais facilmente, encontrar os pontos que permitam alinhar os objetivos individuais aos organizacionais; compor os propósitos do grupo aos da organização e dos indivíduos; e ajustar as finalidades das áreas aos da organização e das pessoas.
Para poder conduzir o processo desse alinhamento entre os objetivos dos indivíduos e da organização, permeando as diferentes áreas ou departamentos, faz-se necessário entender o propósito final das diferentes partes envolvidas naquela composição. Todas as partes devem entender que os propósitos devem ser únicos, desmembrando-se em finalidades departamentais e pessoais também exclusivos. Só assim pode-se ter uma organização singular, composta por indivíduos únicos, trabalhando em busca de um objetivo organizacional comum e individual exclusivo.
E você, está gestor ou está gerido? Na vida empresarial muitas vezes estou gestor, mas em casa, sem sombras de dúvidas, estou gerido…

Olhando para o passado, inovando no presente e garantindo o futuro

Moacir Jorge Rauber
Ao ler a notícia de que num hotel na Dinamarca as pessoas podem pedalar, gerar energia e ganhar dinheiro, lembrei-me das bicicletas tão comuns nos anos 1950, 1960 e 1970. Naqueles tempos quase todo rapaz possuía a sua bicicleta com um pequeno dínamo movimentado pela pressão do pneu que gerava energia para alimentar o próprio farol. Gerava-se luz e tinha-se autonomia por meio de um processo auto-sustentável. Pode-se afirmar, portanto, que a inovação propagada para a notícia do hotel dinamarquês não é completamente verdadeira, uma vez que a inovação ocorreu na forma de explorar conhecimentos já existentes.
Esse fato pode servir de base para outras situações nas quais ao se olhar para o passado pode-se encontrar situações que nos permitam inovar no presente e garantir o futuro.

O conhecimento que nos emburrece

Moacir Jorge Rauber
O acúmulo de conhecimento pela humanidade tem crescido exponencialmente, notadamente nos últimos séculos, alcançando as mais variadas áreas. Na saúde saiu-se de um mundo de feiticeiros que combatiam espíritos malignos para a penicilina, para a medicina preventiva, para as biociências que conseguiram decodificar o genoma humano. Nas comunicações deixamos um mundo em que as notícias e os fatos demoravam dias, semanas e meses para cruzar o mundo para a virtualidade que, instantaneamente, propaga as informações para todos os cantos do planeta. Nos transportes evoluímos da charrete aos veículos e aviões. Enfim, em todas as grandes áreas que englobam atividades comuns a evolução foi marcante nas últimas décadas, resultado do conhecimento acumulado pelo ser humano ao longo de sua trajetória planetária. Contrariamente, entretanto, o indivíduo que compõe a atual sociedade perde conhecimento numa velocidade nunca vista. Que fenômeno é esse?
Se por um lado a humanidade acumula conhecimento o ser humano individual de forma geral perde. Esse fenômeno ocorre porque o acúmulo de conhecimento se dá com bases tecnológicas em que este fica armazenado fora dos cérebros humanos. Enquanto no passado o conhecimento passava de geração para geração basicamente pela transmissão oral, atualmente o conhecimento é produzido e armazenado segundo convenções metodológicas nos diferentes produtos tecnológicos criados. Antes o conhecimento era dominado em sua totalidade pela pessoa que o transferia. Hoje o conhecimento é gerado por pessoas diferentes, em distintos lugares e é armazenado em tecnologias diversas, assumindo um caráter prático somente quando se junta para uma finalidade.
O resultado é um ser humano incompleto e fragmentado, que se não tiver ao seu alcance a tecnologia que o conecta ao conhecimento não mais sobrevive. As pessoas hoje são diferentes daquelas que formavam as gerações passadas, que eram auto-suficientes e sobreviviam sem dependência de apetrechos tecnológicos que não conseguiam produzir sozinhos. Assim, temos mais conhecimento na totalidade, mas temos emburrecido na individualidade.

Cuida bem do teu paizinho…

Tive o prazer de viver em Florianópolis por um bom período, desfrutando das belezas naturais, do convívio com muitos amigos e do registro de muitas situações cômicas. Minha esposa e eu vivíamos um momento bastante zen e frequentávamos a igreja regularmente. Num domingo, final de tarde, havíamos participado da missa do dia dos pais. Naquele dia entramos na igreja e procuramos um lugar no corredor central, que era mais largo. Ela sentou-se na ponta do banco e eu fiquei com minha cadeira na borda do banco ocupando uma parte de espaço do corredor, embora minha presença ali não atrapalhasse em nada o trânsito das demais pessoas. Ao final da cerimônia sempre acontece um alvoroço das pessoas querendo sair todas ao mesmo tempo. Nós ficamos em nossos lugares esperando que a movimentação maior passasse. Nisso, aproxima-se uma senhora bastante idosa, deslocando-se com muita dificuldade, amparada por uma pessoa mais jovem. Ao passar por mim ela toca no meu ombro e dirige-se para minha esposa dizendo, “Cuida bem do teu paizinho!” Entre um sorriso para ser simpático e os pensamentos indaguei-me mentalmente, “Mas como ela conhece o pai da minha esposa?” A senhora seguiu o seu caminho e eu recebi um aperto na mão e um suave cochichar em meu ouvido, “Oi, paizinho!” Foi então que eu, com minhas sinapses atrasadas, dei-me conta que o paizinho era eu… Na hora fiquei atordoado, mas esse fato continua sendo um motivo a mais para rir até os dias de hoje.
Nunca fale sobre aquilo que você não conhece e evite constrangimentos. Porque quem fala o que quer pode ouvir o que não quer!

Faltou latir

Moacir Jorge Rauber
Entre as idas e vindas nessa vida como cadeirante enfrentam-se situações as mais inusitadas. Algumas engraçadas, outras constrangedoras, mas todas elas fruto do desconhecimento sobre as capacidades e potencialidades de uma pessoa com deficiência. Uma das situações das quais eu mais ri aconteceu num lindo sábado de sol. Por volta das 9h da manhã minha esposa e eu pegamos o elevador no oitavo andar para sair, passear e aproveitar a beleza do dia, além da folga pouco comum. O elevador desceu dois andares e parou. Entrou uma senhora bem idosa, com sua bengala. Cumprimentou-nos e olhou-me demoradamente. Depois dirigiu-se a minha esposa e disse, “Um lindo dia para levá-lo para passear, não é?” Demorei um pouco para entender a frase. Esse “levá-lo” se referia a quem? Olhei para minha esposa e para a senhora e não vi ninguém mais. Nenhum gato ou cachorro. “Caramba, ela falou sobre mim! O cachorrinho sou eu…” Quase deu vontade de levantar as mãos como um cachorro o faria e fazer “au, au…”. Mas limitei-me a sorrir, sair do elevador e aproveitar o passeio para rir sobre a situação presenciada!
Por isso, antes de emitir uma opinião sobre uma realidade que não se conhece deve-se olhar e pensar mais uma vez!

Para colaborar é preciso saber

Moacir Jorge Rauber
Florianópolis é uma cidade muito bonita em diversos aspectos. Geograficamente é fabulosa pelas praias, pelos montes, pela mata atlântica e pela natureza exuberante. Arquitetonicamente tem várias belezas, entre bairros antigos e novos. A população em geral é muito simpática, divertida e com um humor diferenciado, além de um sotaque único. Problemas existem, principalmente na infra-estrutura urbana, como ruas estreitas, transporte coletivo deficiente, calçadas mal planejada e falta de acessibilidade para um cadeirante, por exemplo. Morei na cidade por vários anos.
Num dia qualquer estava eu, com minha cadeira de rodas, aguardando juntamente com os pedestres que um semáforo abrisse para cruzar a rua. Na esquina não havia rampa. Estávamos num horário de pico. Logo formou-se um grande grupo de pessoas atrás de mim que também aguardavam o sinal abrir. Quando o sinal abriu eu empinei minha cadeira de rodas para mais facilmente descer o meio fio que se encontrava a minha frente. Uma senhora que estava logo atrás, ao ver o movimento que fiz em que as rodas dianteiras da minha cadeira subiram, jogou-se desesperadamente para frente agarrando as manoplas existentes no encosto da mesma para segurar-me. Creio eu que ela deva ter tropeçado no trajeto de onde saiu até alcançar-me, pois as suas mãos conseguiram agarrar a cadeira que quando ela caiu arrastou-me junto. Ela esborrachou-se no chão! Eu também. A cadeira virou com tudo para trás, levando-me com ela. Ainda sem saber o que acontecia apenas pude perceber que caí sobre alguém. Estava entre deitado sobre uma pessoa e ao mesmo tempo enrolado com ela. Braços e pernas, eu não sabia quais eram os meus. Rapidamente tentei desvencilhar-me para voltar a subir em minha cadeira. Olhei para a senhora que estava com os dedos sangrando. Perguntei-lhe se ela estava bem, recebendo uma resposta afirmativa. Foi então que comecei a entender o que havia acontecido. Ela desculpou-se explicando que havia me visto empinar a cadeira e achou que eu estaria caindo. Então expliquei-lhe o procedimento que faço para descer um degrau ou um meio fio, como era o caso. Ela desculpou-se várias vezes. E a nossa conversa foi acompanhada por um grande grupo de curiosos que, inicialmente, estavam todos apreensivos, mas que logo virou em motivo para risadas.
Por isso, sempre que se pretende ajudar ou colaborar com alguém deve-se saber como proceder. Aplica-se a mesma regra para pessoas, empresas e organizações. Dificilmente se pode contribuir sem conhecer!

Ei, o cliente sou eu!!!

Moacir Jorge Rauber
Não sou um aficcionado por fazer compras, como roupas, calçados ou outros produtos individuais indispensáveis para o nosso dia-a-dia, embora goste eu mesmo de fazê-las, porque ninguém melhor do que a própria pessoa para saber aquilo que lhe cai bem. Ou nem tanto. Nas compras sou bastante racional. Saio de casa com uma lista clara e objetiva daquilo que vou comprar. Poucas vezes compro por impulso, exceto comidas. Também já defino de antemão as lojas nas quais vou procurar o que quero. Algumas lojas adotam a postura de não se aproximar do cliente, deixando-o à vontade para escolher os produtos em exposição. Particularmente é a forma que mais me atrai. Em outras, antes mesmo da pessoa entrar, muitas vezes já ocorre uma abordagem. E é sobre essas que vou relatar uma situação que não raras vezes já me ocorreu, quando acompanhado da minha esposa.
Lá vou eu, sabadão de manhã, pelo calçadão do centro da cidade. Entro naquela loja já previamente definida. Meto-me entre expositores de calças e camisas tão próximos uns dos outros que muitas vezes torna-se difícil enxergar algo, ainda mais considerando a minha altura em função de ser cadeirante. Ando mais um pouco e logo sou alcançado por uma vendedora. Bom dia ela dirige-me a palavra, o que o senhor deseja? Antes mesmo de eu responder os seus olhos já começam a passear entre os meus e o de minha esposa. Começo a explicar que estou procurando uma peça de roupa assim e assado Após os detalhes ela sai para buscar algumas peças e na volta os seus olhos já não encontram mais os meus. A vendedora mantém o olhar sobre mim, diretamente para a minha esposa, que nesse caso está postada atrás, pois está apenas me acompanhando. A conversação também toma outro formato, Mas ele gosta mais de cores fortes ou sóbrias, como se estivesse falando de uma pessoa ausente. Acho que esta ficaria melhor para ele recebendo alguma olhada de soslaio. Às vezes a vendedora apoia a camisa em mim para visualizá-la, mas a conversa continua em outra direção. Até que não aguento mais e digo, Ei, o cliente sou eu! Em algumas situações retirei-me de lojas.

No seu negócio e na sua empresa o cliente tem sido identificado corretamente? É realmente para aquele que decide a compra que estão sendo oferecidos os produtos e os serviços? Saber quem é o cliente é fundamental para ajustar a forma de oferecer aquilo que se quer vender, bem como para quem oferecer. Cuidado com os delizes! Mantenha o foco no cliente.

Levanta-te e anda!

Moacir Jorge Rauber
Em outro atendimento hospitalar houve uma situação completamente inusitada. Desde que sou usuário de cadeira de rodas já passei por inúmeras tentativas de milagres, cirurgias espirituais e toda sorte de propostas que me devolveriam a capacidade de caminhar. Na fase inicial pós-acidente algumas tentativas foram voluntárias, induzidas pelo desespero de enfrentar uma realidade completamente estranha e nada encorajadora. Outras foram resultados de ofertas de um sem número de igrejas e seitas que prometem tudo aquilo que o Senhor pode fazer, desde que você tenha fé. Ao final o milagre de voltar a andar não acontece e a culpa fica por conta daquele que tem pouca fé. Neste caso eu, que estaria condenado a usar uma cadeira de rodas porque, afinal, sou um homem de pouca fé.

Uma situação constrangedora, entretanto, ocorreu num ambiente no qual jamais deveria ocorrer. Havia sofrido outro acidente automobilístico, mas de pouca gravidade. De todas as formas fui conduzido a um hospital para exames de verificação para saber se não havia nenhum ferimento interno. Cheguei no hospital na minha cadeira de rodas, acompanhado do meu pai que entrou no gabinete do médico e explicou-lhe a situação. Meu pai disse-lhe que eu era cadeirante há mais de 15 anos e que precisaria fazer os tais exames para desencargo de consciência. O médico chamou-me, apontou para aquela típica maca hospitalar, que é alta para quem está de pé, imagine para está sentado, e ordenou-me: “Suba na maca!” Eu lhe disse que não poderia, porque afinal eu era paraplégico e a maca era muita alta, além do que eu não estava em condições de fazer esforços. Ao que ele respondeu: “Mas levante e suba!” Repeti a informação e encarei um olhar abobalhado de um médico que continuava a não entender o que é um sujeito paraplégico.

Existem muitos médicos que realmente se julgam Deus, porque fazem o diagnóstico em uma consulta por meio de uma simples olhada e prescrevem alguma solução, mas usar uma frase bíblica ainda não havia ouvido.

Por isso, antes de tomar uma decisão e de dar ordens, entenda a situação!

Sem chances

Moacir Jorge Rauber
A faculdade é um período rico em amizades, algumas delas que se estendem pela vida. Por incrível que pareça a primeira colega que encontrei e conversei ao entrar na sala de aula no primeiro dia foi minha melhor amiga durante toda a graduação e assim continua até os dias de hoje. Passada a primeira semana de aulas, em que as pessoas vão se ajustando umas as outras, nós vimos nossa amizade se confirmar. Começamos a sair juntos em festas, bailes e baladas. Mais do que isso. Começamos a frequentar as casas de nossos pais. Mas a amizade nunca deixou de ser amizade, sendo apenas isso. Ou melhor, sendo tudo isso! Tínhamos carinho, respeito e admiração recíprocas. Frequentemente íamos aos bailes em minha comunidade no interior, local no qual todos me conheciam e eu conhecia a todos, porque mantinha nela um escritório.

Naquele sábado cheguei ao baile acompanhado pela minha amiga. Entramos de mãos dadas, depois ela permaneceu um tempo com os braços em volta de meu pescoço, apoida sobre meus ombros, uma vez que eu estava sentado em minha cadeira e ela em pé atrás de mim. Para um desavisado parecíamos namorados. Ficamos assim no período inicial em que o baile não “pegava fogo”. Mais tarde um rapaz amigo meu se aproximou e tirou minha amiga para dançar. Para mim tudo normal, porque sempre estava rodeado de amigos e também de muitas moças bonitas. Sequer me apercebi que ela havia ido dançar e que já estava dançando por um bom tempo. Nisso, aproximam-se dois clientes meus. Agricultores bem posicionados na comunidade. Lamentavelmente o único assunto que lhes passa pela cabeça é a produção de soja. Se vão a igreja o assunto antes e depois da missa é soja. Se vão a uma festa o assunto antes, durante e depois é soja. Se vão a um velório, ao mercado, as compras, enfim, a qualquer lugar que vão o assunto em voga é soja e temas ligados, como chuva, máquinas, equipamentos, inseticidas, mercado, preços, etc. Eventualmente se interessam por alguma fofoca. Quando me abordaram já sabia que pelo menos meia hora do meu baile estava condenada. Teria que ouvi-los sobre algum problema burocrático relacionado a atividade, porque para eles nada proporciona mais prazer como alcançar uma vantagem, como uma consulta gratuita num baile. Dito e feito. Ficaram por um longo período procurando por informações que lhes interessassem sem que precisassem pagar. Quando estavam se despedindo para encontrar uma nova vítima, alguém de quem pudessem tirar outro tipo de informação, fizeram uma observação que me deixou atónito. Primeiro porque demorei para entender sobre o que estavam falando. Depois porque foi de uma bossalidade sem tamanho. Um deles apertou-me a mão e disse: Olha, não fique triste, mas você não tem chance mesmo. Ele sabe sançar e você não tem como acompanhar! Entre meio desnorteado e recusando-me a acreditar que era isso mesmo indaguei O que você disse? Ao que o outro reforçou com mais detalhes, dizendo que um cadeirante dificilmente vai conseguir ficar com uma moça tão bonita como era a minha amiga, entre outras coisas. Quando realmente entendi a que se referiam dei uma sonora gargalhada, ficando eles sem entender por quê. Saíram e eu continuei rindo da ignorância deles. Abanava a cabeça, porque custava-me a acreditar no que havia ouvido. Diverti-me!

Entretanto, ficou como lição para mim que não se deve emitir opinião sobre aquilo que não se conhece, bem como a vida privada alheia não é de minha conta, a menos que me peçam para que seja. Os dois agricultores que me abordaram eram muitos qualificados em sua atividade, mas demonstraram uma total ignorância no trato com as pessoas, resultado não de um senso de levar vantagem, mas da falta de conhecimento sobre aquilo que pensaram ter visto. Nem sempre aquilo que parece que vimos é a realidade. Caso não busquemos conhecimentos em diferentes áreas realmente não teremos nenhuma chance!