Todos os posts de Moacir Rauber

Moacir Rauber acredita que tem "MUITAS RAZÕES PARA VIVER BEM!" porque "MELANCOLIA NÃO DÁ IBOPE". Também considera que a "DISCIPLINA É A LIBERDADE" que lhe permite fazer escolhas conscientes, levando-o a viver de forma a "QUE POSSA COMPARTILHAR TUDO COM OS PAIS E QUE TENHA ORGULHO DE CONTAR PARA OS FILHOS".

Você é um aprendiz? Pode ser professor…

Não, não dá. Essa tecnologia toda, internet pra lá e pra cá. Eu não uso e não quero saber. Outro dia vieram com um tal de “tablete” pra mim. Eu falei que não quero! Quero dar a aula e pronto… E continuou discorrendo sobre a sua revolta com o atual mundo da tecnologia. Eu fiquei ouvindo e me perguntando, E pode ser um professor? Questionei-me porque, na minha opinião, alguém que quer ensinar também deve estar disposto a aprender.

O surgimento de novos aplicativos tecnológicos para usos em áreas tão diferentes como a saúde, a comunicação, a educação e o lazer é uma realidade objetiva que não está mais ao alcance do indivíduo alterar. Não está mais no controle de um ou de outro, seja do professor que fez o seu desabafo, do meu ou do seu. A tecnologia vai continuar no ritmo de desenvolvimento determinado pelas pessoas que a usam e que são a grande maioria. O que está no controle de cada um é o que se vai fazer com ela. Muitos ainda dizem, É, as pessoas não têm noção. Exageram. Fazem fotos no velório para postar… É verdade. Mas bom senso não é questão da tecnologia. A falta de noção sempre existiu e vai continuar existindo, dependendo exclusivamente das pessoas. Por isso, entender, conhecer, saber, diferenciar, escolher e disciplinar o uso da tecnologia depende de cada um, assim como manter a mente aberta para a aprendizagem.

A resistência à aprendizagem nada tem a ver com o surgimento da tecnologia, isso é um movimento de oposição de indivíduos que querem que tudo se mantenha como está. Para muitos, aprender dá trabalho e estes ficarão perdidos transformando-se rapidamente em analfabetos funcionais. Melhor qualidade de vida terão aqueles que acreditarem que aprender é um prazer, entre eles professores e formadores.


No meu ponto de vista, aqueles que pretendem atuar como instrutores, professores, consultores ou outras profissões que trabalham com a formação de pessoas deveriam ser os primeiros no processo de disponibilidade para a aprendizagem. Não quer dizer sair por aí enchendo-se de penduricalhos tecnológicos, mas sim saber dos potenciais, do uso e abrir-se para a sua intuitividade. Você quer ensinar? Sim. Você está disposto a aprender? O “sim” deveria ser uma obrigação. Eric Hoffer, falecido em 1983, já dizia, “Em tempos de mudança, os aprendizes sobreviverão, enquanto aqueles que acham que sabem muito estarão preparados para um mundo que já não existe.” Pensando nisso, um aprendiz pode ser professor, mas um professor, obrigatoriamente, deve ser um aprendiz. E um aprendiz pode ser o que quiser…


O moço de carrinho…

Era o aniversário de número 85 da avó da minha esposa. Uma festança. Estavam reunidos netos, tios, tias, primos e alguns conhecidos para festejar com a matriarca. Entrei no salão com a minha esposa. Muitas pessoas a reconheceram imediatamente. A mim não, porque era a primeira vez em quinze anos de relacionamento que eu participava de uma festa da família dela. Todos que olhavam para ela, logo saudavam-na e a abraçavam. Quando dava, para algumas pessoas, ela me apresentava. Festa de família é isso. Eu fiquei por ali, quase só observando. Nisso vejo a minha sogra se aproximando da filha. Percebi que não conseguiram se cumprimentar porque havia uma roda de primos a volta da minha esposa. Assim, a sogra veio até mim. Atrás dela vi uma senhorinha bem velhinha com um olhar alegre e faceiro. Bastante idosa, mas parecia ser bem serelepe. A minha sogra me cumprimentou com um abraço. A velhinha ficou olhando. De repente eu a vejo abrir os braços para também me dar um abraço, mas antes ouvi:
– Mas quem é esse moço de carrinho?

Essa foi a imagem na minha cabeça quando fui chamado de “O moço de carrinho…”

A palavra “carrinho” fora dita referindo-se a minha cadeira de rodas. Creio ter ficado com a cara um pouco entediada, mas recebi o abraço, pensando, Já começou. O que mais vou ouvir hoje…A minha sogra explicou para a senhorinha, amiga da família, que eu era o genro dela. Ela somente expressou um Ah… e seguiu toda alegre pelo salão. O dia foi lindo e a festa maravilhosa. Ao final  da festa todos se despediram de todos, mas principalmente da avó. Afinal era o aniversário dela…
Um ano se passou e a avó continua firme e forte. Isso é motivo para mais uma festa, agora para o 86° aniversário.
Chegamos no salão e toda aquela muvuca outra vez. Minha esposa sendo cumprimentada pelos primos, amigos e parentes. Desta vez eu já estava enturmado. Também os cumprimentava. Olhei em volta e vi a minha sogra se aproximando. Ela nos cumprimentou com um forte abraço. Olho para o lado e vejo a mesma senhorinha do ano anterior de braços abertos para também me dar um abraço. Pensei, Olha só, quem está aí… Antes que eu pudesse falar qualquer coisa ouço-a dizer:
– Mas quem é esse moço de carrinho?

Senti-me preso no Feitiço do Tempo, descrito no filme de 1993, em que o personagem vive inúmeras vezes o mesmo dia. Veremos como será a festa no próximo ano…

A situação nos serve para uma reflexão: quantas vezes nós somos vítimas do feitiço do nosso próprio tempo? Quantas vezes ficamos presos aos nossos conceitos, ideias, medos, amores e rancores? Podemos e devemos avançar, embora nem sempre seja fácil. Entretanto, estar disposto a desaprender para aprender de novo é parte da construção de um novo caminho, como já dizia Gonzaguinha na música Eterno Aprendiz.

Você é curioso?

Muitas vezes, ao assistir uma entrevista ou uma reportagem pergunto-me por que os repórteres fazem tão poucas perguntas? São inúmeras as situações que o jornalista responsável dá a sua versão do fato, que é mera opinião, dá a sua resposta e deixa ao final uma interrogação. As entrevistas coletivas dadas por jogadores e treinadores durante a Copa do Mundo exemplificaram a situação. 
Lembro-me de uma pergunta feita a um técnico:
– Você não acha que na última derrota se nós não tivéssemos encarado eles de igual para igual, assumindo que são mais fortes, e tivéssemos povoado o meio de campo (expressão da moda) nós teríamos obtido um resultado melhor?

Pergunto: isso é uma pergunta? No meu ponto de vista não. O repórter mencionou o fato, fez a análise e deu a resposta. Caso o técnico tivesse dito “Sim” ou “Não” poderia ter encerrado a questão. O repórter usou a forma interrogativa para expressar a sua opinião. Às vezes, deve-se lembrar que a pergunta é uma ferramenta útil para aqueles que querem investigar, descobrir e aprender quando usada com genuína curiosidade.
Você tem sido genuinamente curioso?

Tá vazando óleo…

Viagem com contratempo e a sogra no meio…

As chuvas têm castigado muitas cidades da região sul do Brasil nos últimos dias. Algumas rodovias, que em geral não são lá aquelas coisas, também são atingidas por deslizamentos. Numa viagem recente, ficamos presos numa barreira. Estávamos entre os primeiros cem carros parados após o deslizamento. Ficamos sabendo que para dar passagem teríamos que esperar pelo menos seis horas. Resolvemos dar a volta e ir até a cidade mais próxima, onde almoçamos e conversamos com algumas pessoas. Na saída do restaurante nos deparamos com uma viatura da Polícia Militar em que os policiais nos informaram que havia um caminho alternativo, porém teríamos que fazer uns 20km de estrada de chão. Disseram que a estrada tinha partes boas e outras com muitos buracos, mas sem risco de ficarmos atolados. Havia mais uma família que estava na mesma situação. O carro deles estava lotado. Estavam nele um casal, um garoto com uns 12 anos, um bebê de colo e a avó, a sogra do homem do casal. Lá fomos nós pelo atalho… Realmente nos primeiros quilômetros a estrada estava boa, mas depois os buracos e a lama tomaram conta. Foi um rally, porque patinamos, aceleramos, derrapamos e chacoalhamos para valer, mas finalmente chegamos ao asfalto que dava acesso à balsa que completaria o nosso atalho. Uma fila enorme de veículos que aguardavam a sua vez. O motorista do carro, que fez o mesmo trajeto conosco e que levava a sua sogra, aproximou-se da janela do carro. Começamos a conversar com a participação ativa do garoto. Ele até parecia um homem que gostava de puxar papo, mas, impaciente, logo se mandou. Alguns segundos depois o menino grita:

Pai, pai, vem aqui. Olha só, tá vazando óleo…

O pai do garoto empalideceu. Pude ver em seus olhos a tristeza pelos prováveis danos ao seu carro, que tinha aparência de ser novo. Não era de estranhar uma avaria no carro frente a todos os buracos que passamos. Ele rapidamente foi até o garoto. Não pude ver o que ocorreu, mas ouvi o seguinte diálogo:
Onde meu filho, onde?
– Olha ali pai. Tá vindo daquele lado…
– Ah, meu filho, isso não é óleo. Isso é a sua avó…

A sogra não havia conseguido mais esperar por um banheiro… O dia foi tenso e o atalho nos deu trabalho. As seis horas de espera previstas na rodovia se transformaram em dez horas pelo desvio, mas o bom humor resistiu!
Veja que bboa ideia!!!

Sou cadeirante e tenho preconceitos, sim. E se fosse a minha filha?

A Andréia era minha amiga. Andávamos juntos sempre que podíamos. Gostávamos de conversar e de ficar próximos um do outro. Na brincadeira para lá e para cá, às vezes, ela sentava no meu colo, aproveitando a minha cadeira de rodas. Eu achava isso o máximo!  Algo estava acontecendo que ultrapassava a simples amizade. Ainda não admitíamos a possibilidade um para o outro, porém um dia isso ficou para trás. Havíamos combinado de sair para conversar após as aulas dela. Esperei-e em frente ao portão da universdade e fomos até o lago, uma linda região da cidade. Passamos um tempo agradável um na companhia do outro. Depois levei-a para casa. Os limites da amizade foram superados naquela noite. Deixei-a na porta de sua casa e fui para a minha. Estava um pouco zonzo. Fiquei pensando, Caramba, o que foi isso? Quase não consegui dormir. No dia seguinte fui cedo para o trabalho, mas a cabeça ainda estava na noite anterior. Mil e uma dúvidas na cabeça. Será que ligo para saber como ela está? Será que ela gostou do que aconteceu ontem? Estava difícil para me concentrar, mesmo assim trabalhar era necessário. Um pouco antes do meio-dia a secretária me passa uma ligação. Era ela! Eu fiquei muito nervoso, mas procurei disfarçar. Até parecia que os meus trinta anos haviam se transformado em quinze. Sozinho na minha sala eu estava ruborizado. Na conversa, ela me pediu carona para o almoço, uma vez que morávamos no mesmo bairro.
Passei no escritório em que a Andréia trabalhava. O cumprimento foi com um beijinho no rosto, como se fôssemos amigos. O trajeto do centro em direção ao bairro foi preenchido com conversas triviais. Creio que tentávamos parecer tranquilos. Pelo menos era a minha intenção. De repente, silêncio… Não me veio nada mais à cabeça para continuar nossa conversa. O silêncio estava angustiante. Minha atenção estava voltada para a direção. Estávamos justamente passando na região do lago em que precisava fazer uma curva acentuada à esquerda quando o silêncio foi quebrado com uma pergunta à queima-roupa:
Então, Moacir, estamos namorando ou não?
O impacto da pergunta foi tão forte que quase perdi o controle da direção. Minha cabeça entrou em parafuso, A curva,meu Deus, a curva…Consegui contorná-la. Milhões de pensamentos se misturavam na minha cabeça atordoada, Como? Namorando? Eu com você? Ai, ai, ai… O que é isso? Com certeza eu estava de boca aberta. Tentava manter os olhos na rua, mas sentia claramente o olhar da Andréia. Aquele olhar curioso, transparente e que parecia que podia ver através de mim. Por fim, balbuciei algo:
­- Bom… Bem… Sim, acho que sim.
Ela respondeu:
– Ôba!!!
Com a resposta, ela deu a entender que isso era assunto encerrado. Ela era minha namorada e eu o seu namorado desde a noite anterior.
Na minha cabeça estava tudo enrolado. Como assim, “Ôba!”? Pensei que fosse somente para ficar? Ela tem menos de 20 e eu tenho mais de 30… Ah meu Deus… Não falei quase nada até chegar em casa, mas muita coisa estava no meu íntimo. O pensamento voltava, Namorando, eu? Não, não, não… Isso não vai dar certo. E todas as demais questões envolvidas? A reação dos pais dela? O que achariam os meus pais disso? Namorar uma meninota de menos de 20 anos… E os meus amigos? A minha comunidade? Na realidade o pano de fundo era bem outro. Eu era um cadeirante por mais de dez anos e nunca havia namorado, publicamente, ninguém. Tratava-se do meu preconceito para comigo. Todas essas dúvidas e medos me assaltavam. Mas, por outro lado, eu deveria lembrar que eu não namoraria com os pais dela, com os meus pais, com os amigos, com a comunidade  ou com qualquer outra pessoa. Ela, a Andréia, é que seria minha namorada. E para ela estava tudo resolvido por meio de uma constatação e de uma pergunta: Eu gosto de você. Você gosta de mim? Simples,  não? As demais questões estavam na minha cabeça.
Escrevo tudo isso quase vinte anos depois. Foi a situação exposta no post E se fosse a sua filha? sobre as dúvidas e os medos daquela mãe com a possiblidade de que a sua filha única fosse se casar com um cadeirante que me fez pensar sobre tudo isso. Relembrei a reação do meu sogroe da minha sogra. Agora relembrei o meu comportamento. Voltando no tempo constato que eu tinha preconceitos e era preconceituoso. Até então nunca havia assumido uma namorada porque o meu preconceito para comigo me impedia de fazê-lo. Imagino agora se eu tivesse tido uma filha e ela quisesse, naquela época, casar com um cadeirante… Muito provavelmente eu não seria um entusiasta. Hoje, já vivi comigo como usuário de cadeira de rodas por quase trinta anos. Caso pai eu fosse, certamente, seria zeloso com as amizades e namoros de uma filha, mas as preocupações se voltariam para o caráter da pessoa e não para a sua condição física. Confesso que ainda tenho preconceitos e são muitos. Não vejo nada de errado em tê-los, porque simplesmente não se pode evitá-los. Eles são naturais do ser humano. Reconheço que tenho tantas opiniões formadas sobre assuntos que não domino o suficiente para tê-las que revelam os meus preconceitos. Entretanto, o que me diferencia hoje com relação àquele sujeito que fui há 20 anos é o que faço com eles. Caso não me interesse, deixo de lado. Caso pretenda me manifestar a respeito, esclareço-os para que não seja preconceituoso. Depois de esclarecido e entendido algo posso gostar ou não, mas aí resultado de conceitos, de princípios e de valores, mas não por ser preconceituoso.

E você, tem preconceitos? É bem diferente de ser preconceituoso…

E se fosse a sua filha 3? Enfim, a sogra…

Genro e sogra são capítulos a parte. A relação com a minha sogra não é diferente… Tudo começou quando ela soube que a filha dela estava namorando um cadeirante. Isso também foi lembrado pela minha esposa no jantar com o meu sogro, conforme relatado nos posts E se fosse a sua filha? e E se fosse a sua filha 2? O sogro.
A conversa estava animada, pois as lembranças eram ótimas.  Agora era a vez de falar sobre como fora a reação da mãe da Andréia para essa revelação. O desfecho foi bem diferente… A minha esposa lembrou que também estava um pouco temerosa de contar para a mãe. Nunca teve dúvidas com relação à decisão do namoro, mas ficava um pouco intimidada com uma possível reação negativa da mãe e talvez do círculo de amizades dela. Cidade pequena, todo mundo conhece todo mundo. Sabe como é…
No final de semana em que ela começou a preparar o terreno para contar a novidade, disse:
– Mãe, no próximo final de semana gostaria de te apresentar o meu namorado…
A mãe da Andréia, sem dar muita importância para a conversa, apenas respondeu:
– É?… E continuou sentada no sofá, tricotando.
– Sim, mas queria dizer que talvez você possa não gostar muito dele.
– Por que, minha filha?
– É que ele é cadeirante… Disparou a Andréia.
A mãe dela parou de tricotar, levantou-se do sofá num rápido impulso, olhou para a filha e disse:
– Ah, mas não vai fazer ele sofrer. Se for para isso escolha outro…

Quando a Andréia terminou de contar essa história nós rimos até chegarmos às lágrimas. Também o olhar para trás, nesse caso, revelou-me a real preocupação com o outro. A mãe da Andréia não estava tão preocupada com a filha, mas sim com um possível sofrimento que o seu comportamento poderia infringir a outro, que supostamente já sofrera muito… Essa genuína preocupação com o outro também vejo refletida no comportamento da Andréia.
O jantar prosseguiu. A Andréia e o pai dela continuaram a conversa. Eu permaneci nas lembranças e veio-me à mente como se fosse hoje a primeira visita que fiz à Andréia na casa da mãe dela. Cheguei e vi uma casa com um pequeno e bem cuidado jardim na sua frente. A Andréia apareceu com a mãe dela. Fui muito bem recebido. Cumprimentamo-nos. Entramos na casa e a mãe da Andréia fez questão de mostrar as mudanças que havia feito na casa para que eu, um cadeirante, pudesse circular à vontade. Ela me explicava, enquanto íamos de um cômodo ao outro:
– A casa tem dois banheiros. Este aqui (mostrou o banheiro social), mas não tem jeito de adaptar para você usar. E este aqui (mostrou o banheiro que estava na suíte do quarto dela). Aqui deu para ajeitar. Mandei arrancar a porta dele para que você pudesse passar… E continuou dando maiores detalhes.
Quase duas décadas depois, sempre que vou até a casa da minha sogra, durmo no quarto dela. Pois é, tem alguém aí que dorme na cama da sogra? Eu durmo…
Pela terceira vez a pergunta: o que você diria se a sua única filha quisesse se casar com um cadeirante?

Eis o desafio: você conseguiria ver a pessoa além da cadeira? Minha esposa e os pais dela viram… E eu, conseguiria?

No próximo post vou comentar sobre outra situação: e se fosse a minha filha? A situação é hipotética porque não tenho filha nem filho, mas tenho lá meus conceitos e preconceitos…

E se fosse a sua filha 2? O sogro…

No post E se fosse a sua filha?  escrevi sobre as preocupações de uma mãe porque a sua única filha estava querendo se casar com um rapaz paraplégico. No meu caso a filha única de alguém contou para os seus pais que estava namorando um cadeirante. O sogro e a sogra: diferentes pessoas, reações desiguais. 
Como foi a reação do meu sogro ao saber que a sua única filha iria casar com um cadeirante?
Recentemente, estávamos jantando, meu sogro, minha esposa e eu. Falávamos sobre diferentes temas, alguns polêmicos e outros ocasionais. Uma certa nostalgia no ar, porque recordar também é olhar mais uma vez. Não se trata de ficar preso ao passado e viver de lembranças, mas de esmiuçar as experiências para viver bem no presente e garantir um futuro melhor para si e para os outros. Entre as lembranças nos ocorreu como foi que a minha esposa, filha única, havia dado a notícia para os seus pais de que estava namorando um rapaz paraplégico. Não só como deu a notícia, mas também como fora a reação deles.
A Andréia começou a contar a história da reação do pai. Ela disse que, inicialmente, estava preocupada em contar para ele, pois não sabia qual seria a sua reação. Ela somente sabia que estava gostando do dito namorado, que no caso era eu. Sorte a minha! O pai dela e eu somente escutando… Ela continuou relembrando, dizendo que nós já estávamos “ficando” por mais de um mês quando ela resolveu contar. Foi num sábado à tarde, antes de ir até a minha casa (quase sempre era ela que me visitava. De novo, sorte a minha!) que ela revelou o grande segredo para o pai:
– Falei mais ou menos assim. “Pai, eu tenho um namorado. Não sei se você vai gostar muito dele…”. Lembro que ainda antes de eu dar os detalhes ele já respondeu, “Mas você gosta dele?”. Daí eu disse que sim, mas que você era cadeirante… Ela disse olhando para mim.
Logo continuou contando:
– E as palavras do meu pai foram as seguintes, “Se você gosta dele, tudo bem. É você quem vai viver com ele, não eu!” Ainda bem para mim…
Nós rimos das lembranças. Para mim ficou o aprendizado da ausência total de preconceito, o incentivo a independência e a assunção de responsabilidades sobre as próprias escolhas na postura do meu sogro. Sempre pude perceber que esses ensinamentos estão presentes na conduta da Andréia. Ao longo dos quase 20 anos em que convivo com ela, e também com o meu sogro, essa percepção inicial se mostrou real. Não foram somente palavras. Nunca tive que ouvir qualquer comentário que se referisse à minha condição física ou lamúrias sobre decisões que houvessem se mostrado equivocadas.

Por fim, mais uma vez a pergunta: o que você diria se a sua única filha quisesse se casar com um cadeirante?

No próximo post vou contar como a minha sogra recebeu a notícia que a sua única filha estava namorando um cadeirante…

E se fosse a sua filha?

Nas últimas semanas minha esposa e eu fizemos várias palestras nas quais atuamos conjuntamente. Ela, uma mulher jovem, linda, inteligente e profissionalmente bem-sucedida. Eu, um homem menos jovem. Bom, com relação à minha beleza ou inteligência não vou falar nada…  Profissionalmente, atuo naquilo que gosto. Alguns detalhes: ela é filha única e eu sou um usuário de cadeira de rodas.
Nas nossas apresentações discorremos sobre competências técnicas, mas sempre lembrando das competências humanas que as pessoas deveriam exibir no ambiente de trabalho. Destacamos que somente o bom desempenho fundamentado no saber fazer não garante que sejamos bons profissionais. Desempenho se espera de qualquer um. Precisamos muito mais do que isso. Precisamos saber estar com as pessoas, porque as oportunidades existem com elas. Para esse fim, a humildade sem a subserviência e a assertividade sem a arrogância podem permitir que consigamos enxergar a pessoa e o profissional por trás de um rótulo qualquer. É fácil conseguir isso? Não creio que seja, mas é possível. Essa crença se fundamenta naquilo que minha esposa e eu vivemos no período em que nos conhecemos, namoramos e casamos. Em várias ocasiões, logo após o encerramento das palestras, as pessoas se aproximam de nós para nos dizer, “Que casal bonito vocês formam!!!”, “Parabéns, vocês são um exemplo!!!”, entre outros elogios que recebemos com muito carinho e consideração. Porém, os elogios e as felicitações, muitas vezes, nos são dadas porque essa situação não aconteceu na família de quem nos cumprimenta. Pode parecer rude essa afirmação, mas reflete uma realidade. Não há julgamento sobre as pessoas serem boas ou más na afirmação, há somente a constatação de que o desconhecido continua a nos assustar. Também não há nada de errado nisso, porque estranhar o desconhecido faz parte do nosso instinto de sobrevivência. A diferença está naquilo que fazemos frente ao desconhecido. Procuramos conhecer ou nos fechamos no que pensamos sobre o que não conhecemos? Há duas semanas nós nos deparamos com uma situação que evidencia isso.
Encerrada a nossa palestra no evento, minha esposa e eu fomos para uma área onde as pessoas circulavam no tempo livre entre uma atividade e outra. Conversávamos com várias pessoas que nos haviam assistido. De repente se aproxima de nós uma mulher que deveria ter lá seus quarenta e cinco anos. Ela nos cumprimentou e, educadamente, pediu:
Eu poderia falar com vocês por alguns instantes?
Percebemos que a intenção era falar em particular. Logo concordamos e nos deslocamos para um local isolado. Ali a mulher começou a dizer:
Não sei nem como começar, mas nós temos um problema na nossa família…

Ela interrompeu a fala, corou, gaguejou um pouco e continuou:

Não deveria ser um problema, mas é difícil… Meu marido e eu temos uma única filha. Ela está com 18 anos e está namorando um… Mais uma vez se engasgou. Sentimos a emoção tomando conta daquela mulher.

Parecia que ela não sabia como continuar. Nós ficamos em silêncio, respeitando o tempo dela. Por fim ela disse:

– Olhando para vocês eu me senti com muita culpa, porque a minha filha está prestes a se casar com um cadeirante e nós não queríamos isso. Nós queríamos o melhor para a nossa filha. Por isso, já tivemos muitas brigas lá em casa. Às vezes perguntávamos para ela, “O que você vai fazer com ele? Ele nunca poderá acompanhá-la em todas as atividades…”. Mas ela está determinada a namorar e a se casar com ele. Só que vendo vocês dois juntos há tanto tempo, felizes, não está me parecendo tão ruim… Ela parou de falar. As lágrimas surgiram em seus olhos. Internamente tive que rir pela expressão, “…não está parecendo tão ruim…”.

Depois de alguns segundos em silêncio a minha esposa disse:
Olha, eu também sou filha única. Eu casei com o Moacir, não com o cadeirante. Muitas pessoas próximas a mim me questionaram da mesma forma e acho que dá para entender a preocupação.
A mulher olhava para a minha esposa com admiração. Eu estava quietinho. A minha esposa prosseguiu:
Quero dizer que eu nunca vi a cadeira de rodas do meu marido, eu sempre vi a pessoa que ele é. Acho que a felicidade que nós vivemos nesses quase vinte anos de casamento não tem nada a ver com a cadeira. Também não foram somente flores. Tivemos nossos problemas. Eu acredito que para a sua filha se casar bem o que realmente importa é quem é a pessoa com a qual ela vai se casar…
A Andreia continuou a falar sobre algumas situações vividas por nós, as nossas viagens e as nossas aventuras e desventuras. Comecei a participar da conversa. Contamos casos engraçados como aquele de uma amiga dela que lhe perguntara como ela faria quando quisesse viajar e o marido não a pudesse acompanhar… O destino, com sua dose de ironia, tratou do assunto. Menos de seis meses após o nosso casamento eu viajei para Cuba pelo período de trinta dias, sozinho! Via-se nos olhos daquela mulher que aquilo lhe fazia bem. Por fim ela disse:
Muito obrigado pelo tempo e pelo exemplo. Estou muito melhor com relação à decisão da minha filha… e se despediu na sequência. Minha esposa e eu nos entreolhamos. Sim, quase vinte anos depois e continuamos vivendo muito bem!
Saber estar com as pessoas é ver a pessoa e não somente o seu rótulo. É um cadeirante? Não, é uma pessoa. É um padre? Não, é uma pessoa. É um engenheiro? Não, é uma pessoa. Por isso, não é o fato de que o namorado tenha um rótulo ou outro que dará a chance de que aquela filha única seja feliz, mas sim a pessoa é que fará a diferença. E a cadeira não tem nada a ver com isso, é apenas um detalhe. Certamente que os pais querem o melhor para os seus filhos, por isso estranhar não é problema. Questionar não é problema. Porém, lembrar que procurar entender, aceitar, superar, evoluir e respeitar é o que nos torna melhores, permitindo que vejamos a pessoa por trás dos rótulos. Quem for capaz disso até terá um desempenho melhor…
Por fim, fica a pergunta: o que você diria se a sua única filha quisesse se casar com um cadeirante?
No próximo post vou contar como o meu sogro e a minha sogra receberam a notícia que a única filha deles estava namorando um cadeirante…

Um queijo por um beijo…

Era quinta-feira. Tínhamos algumas horas que não havia nada para fazer até que pudéssemos pegar alguns resultados de exames médicos na clínica da cidade. Não queríamos voltar para casa, uma vez que não valeria a pena fazer todo o caminho. Por isso, fomos até o cinema que estava ao lado da clínica. Seria a primeira vez naquele cinema. Olhamos o que estava em cartaz e escolhemos um filme de acordo com o horário. Fomos na fila para comprar os ingressos. A moça nos atendeu. Escolhemos as poltronas da primeira fila que são aquelas a que os usuários de cadeira de rodas tem acesso. E, geralmente, são ótimas! Na hora de fazer o pagamento a minha esposa lembrou de uma informação que havíamos recebido de amigos no dia anterior, assim perguntou:
– Hoje não é o dia em que se tem desconto por um beijo?

A menina nos olhou meio incrédula. Devia estar pensando, Sim e daí… porque certamente não imaginava que pudéssemos ser um casal. Assim, ela respondeu meio sem saber porque respondia:
– Sim…, disse titubeando. Hoje os casais que se beijam recebem desconto de 50% num ingresso.

Não deu nem tempo para pensar, pois a minha esposa já estava me beijando. A moça arregalou os olhos, pois fora uma surpresa. A expressão do seu rosto revelou o espanto. Agora devia estar pensando, Meu Deus, eles são um casal… ou será que estão fraudando a promoção? Porque eu também havia ficado boquiaberto. Mas foi muito bom. O beijo nos rendeu o desconto, além dos seus próprios benefícios.


Um queijo por um beijo? Acho que é mais isso que significa a expressão…


E essas pernas, como vão?

Cheguei no clube de remo pela manhã. Não era tão cedo, mas acompanhei o nascer do sol nas margens do Arroio Pelotas. Conversava com os meus amigos acompanhado pelo tradicional chimarrão. Alguém saiu para remar. Outro saiu para pegar mais um barco. Eu estava ali para remar, mas já estava me dando uma preguiça danada de ir remar. Só de pensa no exercício estava ficando cansado. Seria mais um daqueles dias em que eu iria até o clube, mas voltaria para casa sem remar… Nisso, uma pessoa, para mim desconhecida, chegou na roda. Cumprimentou as pessoas, deu-me uma olhada analítica de cima até embaixo e lascou uma pergunta de aproximação:
E essas pernas, como vão?

Silêncio. O assunto morreu. Não por falta de educação, mas depois de tantos anos como usuário de cadeira de rodas ainda fico sem palavras com a abordagem que algumas pessoas usam para conversar comigo. Um dos meus amigos deu um sorriso e saiu de fininho. O outro também desapareceu. Deixaram-me com aquela “mala” ali no meio do pátio do clube. Olhei para um lado e outro em busca de socorro que eu sabia que não viria. Lá vou eu ter que explicar para o sujeito… Falei:
Tá tudo bem. Vim aqui para dar uma remada…

Deixei a pergunta de lado. De qualquer maneira, ele não queria que eu respondesse a pergunta. Ele queria falar de si. Aproveitou a minha pausa para emendar:
Sim, eu também estive numa dessas por um tempo…  e blá, blá, blá. Continuou depejando um besteirol digno de um campeonato de misérias.

Num momento de distração dele, enquanto buscava lembrar das suas misérias para continuar a despejá-las, aproveitei e disse:
Vou indo, chegou a minha vez de remar…

E fui. Você quer maior incentivo para remar do que esse que eu tive?