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Teoria e prática

Fernando Pessoa não é só poesia ao escrever sobre prática e teoria…

“Toda a teoria deve ser feita para poder ser posta em prática, e toda a prática deve obedecer a uma teoria. Só os espíritos superficiais desligam a teoria da prática, não olhando a que a teoria não é senão uma teoria da prática, e a prática não é senão a prática de uma teoria. Quem não sabe nada de um assunto, e consegue alguma coisa nele por sorte ou acaso, chama teórico a quem sabe mais, e, por igual acaso, consegue menos. Quem sabe, mas não sabe aplicar – isto é, quem afinal não sabe, porque não saber aplicar é uma forma de não saber -, tem rancor a quem aplica por instinto, isto é, sem saber que realmente sabe. Mas, em ambos os casos, para o homem são de espírito e equilibrado de inteligência, há uma separação abusiva. Na vida superior a teoria e a prática completam-se. Foram feitas uma para a outra.”

… mas não deixa de ser poético!

Texto extraído do livro Organizem-se! A gestão segundo Fernando Pessoa reúne e contextualiza escritos mais econômicos do poeta. A edição da obra é de Filipe S. Fernandes.


Um pedinte diferente…

– Olha, aqui estão os 0,70 centavos de troco…
– Não, não precisa. Pode ficar.
– Obrigado!!! Disse o rapaz. Em seguida saiu correndo para ainda ter tempo de pegar o trem.
Quem nunca se confrontou com alguém próximo a uma rodoviária, estação de metrô ou de trem pedindo dinheiro para comprar a passagem de volta? As razões são muitas, desde o extravio da carteira, ter sido assaltado, a necessidade urgente de visitar um parente adoentado ou a morte do papagaio, do cachorro e até da mãe. Não sabemos quando falam a verdade, porque a realidade quase nunca é essa. Endurecemos e deixamos de ajudar, porque o que sabemos é que na grande maioria das vezes o sujeito vai pegar o seu dinheiro e comprar cachaça ou crack. Simples e triste assim.
A minha esposa, entretanto, encontrou um pedinte diferente. Ele estava circulando entre os portões da estação pedindo a quantia de 1,30 que ainda lhe faltavam para comprar a sua passagem de volta para casa. Ela lhe deu dois e ele quis dar o troco, conforme o diálogo inicial. Pode isso? Claro que pode, quando a pessoa realmente vai usar o dinheiro para o fim pedido…

Educar para ser bom!

Eram quatro horas da madrugada quando saí da casa do meus amigos para ir para a minha casa. Seriam mais ou menos novecentos metros rodando com a minha cadeira de rodas pelas ruas desertas da cidade. Cheguei na esquina da avenida, cruzei a primeira pista e parei no canteiro central para esperar um carro que por ali circulava. Vi que ele estacionou antes da faixa de pedestre no seu lado direito. Assim, aproveitei para cruzar a faixa da segunda pista que agora estava vazia. Observava a movimentação porque percebi que o carona saía do carro. Automaticamente um sinal de alerta foi ativado em minha mente. O rapaz vinha em minha direção. A primeira reação foi de medo, Esse cara vai me assaltar… pensei. Mas não havia muito o que fazer. Correr com a minha cadeira de rodas? Sem chances… Estava realmente preocupado, mas segui em frente. O rapaz me abordou:
– Ei, tá tudo bem? O senhor precisa de ajuda?
Fiquei imediatamente aliviado. Vindo de uma cultura em que a violência e a desumanização das pessoas tem sido um constante o oferecimento de ajuda de forma gratuita é inesperado. Logo, senti-me um pouco envergonhado por ter pensado mal de alguém que não conhecia. Em seguida respondi:
– Não, não. Tá tudo bem. Estou indo pra casa. Moro logo ali, quatrocentos metros em frente. Já tô quase lá…
– Mas o senhor quer que o levemos até a sua casa?
– Muito obrigado! Também estou aproveitando o passeio e a frescura da madrugada. Muito obrigado mesmo.
O rapaz, que tinha lá seus 25 anos, oferecia ajuda espontaneamente. Ele e seus amigos que ficaram no carro deveriam estar indo ou vinda de algo festa. Tiveram a percepção de parar e oferecer ajuda alguém que talvez pudesse precisar. Foi espetacular! Em seguida o jovem se despediu gentilmente, entrou no carro, acenou e foi embora. 

Uma cena simples, mas para mim reveladora. Mostrou-me que as pessoas são boas, desde que sejam educadas para serem boas. Aquele rapaz certamente foi educado para ser bom. E é bom ser bom. 

Ainda olhei para trás e vi o carro seguindo o seu caminho, enquanto eu seguia o meu. Cheguei em casa e dormi com a certeza de que o mundo pode ser um lugar melhor para se viver. E mais, fiquei com vontade de ser gentil também…

Vamos trocar de lado?

Lá estavam os dois amigos sentados um ao lado do outro. Um tinha 72 e o outro 71 anos e mantinham uma amizade que havia começado na faculdade. De repente o primeiro  fala ao segundo:
– Ô, José,  vamos trocar de cadeira. Senta você desse lado.
– Ah, pois. Havia esquecido. Sim, o meu ouvido bom é o esquerdo e o seu o direito…

Trocaram de lugar para que cada um pudesse ouvir o outro melhor.

Com o passar dos anos as nossas deficiências vão se manifestando com mais força. É a audição que diminui, é a visão que enfraquece , assim como a mobilidade é afetada. Porém, para cada contratempo uma solução.

Fiquei feliz em ver a solução encontrada pelos dois amigos.


Boca fechada não entra mosquito…

– Pois é, acho que a professora deixou a desejar. Ela até pode ter competência, mas não está conseguindo passar muito para nós. Pelo menos é o que eu penso… Disse um dos dois alunos que estavam comigo no buffet do restaurante.

O outro colega concordou meneando a cabeça. Eu não disse nada, não porque não quisesse, mas porque não conseguia expressar exatamente aquilo que eu pensava. O diálogo transcorria em inglês e o meu domínio da língua é ainda muito limitado. Terminamos de nos servir e fomos até a mesa. Continuamos nossa conversa durante o almoço. Mais algumas críticas e outros tantos elogios ao programa e aos professores. Após a refeição principal, pegamos a sobremesa, tomamos um café, pagamos a conta e estávamos passamos pelo buffetem direção à saída do restaurante quando vimos, muito próxima a ele, a professora objeto da primeira crítica. Nós não a havíamos visto antes porque ela estava de costas para o buffet. Gelamos com o pensamento de que ela pudesse nos ter ouvido. A professora quase que nos deu a certeza quando disse:
– Olá, tudo bem? Eu bem que pensei ter reconhecido a voz de vocês antes… 

Silêncio constrangedor. A professora prosseguiu de forma muito simpática:
– Como foi o almoço?

Respondemos que estivera ótimo, porém ficamos visivelmente constrangidos. Rapidamente nos despedimos e saímos do restaurante. O meu colega que havia feito as críticas mais duras estava arrasado. O outro tentava minimizar a questão dizendo que provavelmente ela não entendera o conteúdo. Eu até estava aliviado porque não havia falado nada. Entretanto, frustrei-me ao entender que não falei não por ser sábio, mas porque eu não tivera competência o suficiente para fazê-lo em inglês.

Em boca fechada realmente não entra mosquito, ainda que seja por incompetência ao não saber abri-la.


Vindima – a colheita da uva

A vindima já foi uma questão de sobrevivência.

Sem muitos recursos tecnológicos as pessoas trabalhavam em mutirão para a colheita da uva. Conforme elas maturavam os grupos se dirigiam para uma chácara ou outra. Eram os parentes e os vizinhos mais próximos que formavam uma legião de trabalhadores. O ditado, “a união faz a força” era exercido ao pé da letra durante a vindima.

A vindima também era motivo de celebração, porque após um longo e duro dia de trabalho havia a diversão: comidas, bebidas e dança. A vindima transformava-se em festa, quase uma despedida do verão.

Nos dias de hoje, a vindima continua sendo uma festa, mas muito mais por turismo do que por necessidade. A sobrevivência já não é a razão principal para a sua realização, mas a vindima se mantém como tradição.


Fica uma pergunta: por onde será que anda a colaboração? Ficou quase como uma vaga lembrança de um tempo em que a colaboração nos garantia a sobrevivência…


Foi uma experiência única na quinta do Zé Manuel e Maria Alice. Muito obrigado!

É um brinde. Você tem que aceitar!

Ei, onde está o alicate? Indagava aquele que parecia ser o chefe.
– Não sei, eu não peguei nele hoje… Respondeu o mais jovem.
– Mas eu o vi aqui na sala, agorinha. Mas que m… Onde foi parar? Vamos, se mexe, dá uma olhada por aí! Resmungava o suposto chefe.
O clima estava tenso, porque a dona da casa era quem os observava. Nessa toada ficaram uns dez minutos procurando por um alicate que não teria como se perder dentro de uma sala que estava ocupada somente por um sofá de três lugares e uma estante, atrás da qual seria instalado o ponto de TV a cabo. Olhavam para um lado e para outro. Ergueram o sofá. Olharam nas prateleiras da estante. Nada. O bendito alicate simplesmente sumira. O jovem saiu da casa e foi até o carro de apoio que estava estacionado em frente ao prédio. Voltou angustiado porque não conseguia ajudar o seu chefe. Disse:
– Nada, nem sinal. E não temos nenhum alicate reserva.
O chefe ficou com o olhar perdido. Cruzou as mãos por trás das costas e teve um sobressalto. Apalpou rapidamente o bolso traseiro de sua calça macacão e deu com o alicate dentro dele. Alívio geral.

Agora poderiam continuar o trabalho que consistia em simplesmente religar uma conexão de TV a cabo naquela residência. Alguns minutos depois a primeira parte estava concluída. Ligaram a televisão na estante. Lindas imagens e todos os canais funcionando. Testaram o telefone fixo. Perfeito. Conectaram o notebook da moradora no sistema de wireless. Impecável. Tudo testado e explicado. Senhas anotadas. Por fim, o chefe se empertigou todo para dar a grande boa notícia:
– Muito bem. A senhora agora vai receber um brinde de nossa operadora. A senhora pode escolher qualquer lugar na casa para que nós instalemos mais um ponto para outra televisão. É um brinde da nossa empresa!
Logo após a sua fala ele exibiu um sorriso. O jovem ao seu lado o acompanhava nas expressões e movimentos. Era literalmente o seu fiel escudeiro. Certamente se imaginava um dia sendo ele o chefe com um ajudante. O dois estavam felizes, apesar de terem gasto mais tempo em trapalhadas do que em trabalho. A moradora revelava em seu semblante um ponto de interrogação, O quê? Brinde? Mais um ponto de televisão? Eram os seus pensamentos. Depois de um curto período ela respondeu:
– Olha, não quero mais um ponto de televisão.
– Como? Perguntou quase indignado o chefe de instalação.
– Não, não quero, porque a casa não é minha… E também no quarto eu não quero televisão.
Os sorrisos do chefe e de seu ajudante desapareceram. Eles não estavam acreditando na recusa de um brinde oferecido pela empresa. As pessoas fazem gato, puxam fio de lá pra cá, fazem gambiarras para ter mais um ponto de televisão e essa senhora não quer? Como assim? Deveriam ser os pensamentos na cabeça daqueles prestadores de serviço. Por fim, um chefe quase exaltado disse:
– É um brinde. Um presente. Não vai custar nada. A senhora tem que aceitar!
A moradora vendo o quase desespero dos dois. Ponderou um pouco e disse:
– E se nós instalarmos outro ponto junto com o primeiro, pode ser? Eu não quero mexer no restante da casa. Ela não é minha…
Os dois imediatamente relaxaram um pouco. O chefe disse:
– Sim, pode ser.
Logo instalaram o novo ponto ao lado do primeiro. Depois se despediram e saíram felizes, porque afinal haviam prestado o serviço e ainda dado o brinde para a cliente. Assim, a moradora tem o benefício de poder por uma televisão ao lado da outra na estante da sala.
A cena descrita ocorreu no final de setembro. A situação da perda do alicate pode ter sido simplesmente um ato falho, uma distração. Porém, a segunda situação, ao não saber tratar com a recusa de um brinde revela que a empresa não entendeu inteiramente o que o cliente quer. Ou melhor, que cada cliente pode querer algo diferente e o que é um brinde para um pode não o ser para o outro.
Fica a pergunta: você realmente sabe o que o seu cliente quer?

Fonte: Kátia Muck.

Como as pessoas se sentem com você?

Quando conversamos nós perguntamos, pedimos, ofertamos, prometemos, agradecemos e nos desculpamos, fazendo com que as coisas aconteçam. Assim, muito mais do que falar com chefes, supervisores, diretores, clientes ou colegas de trabalho, o profissional atual precisa saber estar para saber conversar; saber conversar para saber perguntar; saber perguntar para fazer fluir. Ao fazer fluir, provavelmente, se terá criado um ambiente positivo.

As pessoas se sentem bem com você?



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Viver dá trabalho?

Antes de viajar tínhamos que tomar uma vacina antitetânica, exigência legal do nosso destino. Lá fomos nós, a Andréia e eu, para tomarmos a vacina. Aproximamo-nos do balcão e a recepcionista, muito solicitamente, atendeu-nos. Explicamos a situação, ela pensou um pouco e nos informou:
– Vou fazer uma fichinha aqui e depois vocês vão para o segundo andar. Lá vocês dizem que é para a vacina e se faltar alguma informação voltem aqui…

O trabalho dela consistia em atender e fazer uma triagem para onde encaminhar as pessoas. Exibia um sorriso natural que demonstrava a pessoa de bem que estava por trás daquele rosto. Já não era mais jovem, entretanto tinha uma vitalidade invejável. Estávamos felizes por termos sido atendidos tão bem. Juntamos nossos documentos e começamos a nos mover em direção ao elevador, quando ouvimos uma voz:
– Ei, ei, só um momentinho. Se vocês precisarem de algo você não precisa vir não (disse apontando para mim). O senhor fica lá sentadinho quietinho na sua cadeirinha. Pode vir somente ela tá. O senhor fica lá!

Nós ficamos um pouco atordoados com as palavras, mas tudo bem. Ela somente estava sendo gentil. Ainda pudemos ouvir ela dizer para a atendente ao seu lado:
– Coitadinho, deve dar muito trabalho…

A Andréia e eu rimos muito, porque nós sabemos que em prédios, calçadas e outros pisos planos um usuário de cadeira de rodas pode ser muito mais rápido do que um andante convencional. E mais. Cuidar da saúde, fazer esportes e caminhar, ou rodar, é viver.


E viver não dá trabalho!