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Por que não te calas?

Por que não te calas?

Outro dia, tratávamos dos desafios diários enfrentados por muitos: a falta de rotina, as agendas superlotadas e a super exposição aos estímulos externos. Como falar de qualidade de vida se não conseguimos manter uma rotina diária? Qual a estratégia para reordenar as agendas? O que fazer para escolher os estímulos a que alguém vai se expor? É uma tarefa árdua, uma vez que a exposição aos estímulos tecnológicos é transversal às pessoas nos seus diferentes papéis sociais, levando-nos a não ter rotina, dando-nos, muitas vezes, a impressão de que não se tem tempo para nada. O que fazer? O meu amigo Rosan deu uma sugestão a partir de um fato inusitado ocorrido entre dois chefes de estado na conferência ibero-americana de 2007. Devido às constantes interrupções durante a fala dos demais, em um determinado momento, o rei Juan Carlos interrompeu o então presidente Venezuelano Hugo Chavez e disse:

– Por que não te calas?

O silêncio foi instantâneo. A agenda congelou, a rotina deixou de existir e o único estímulo que havia era o mal-estar pela força das palavras. Esse mal-estar pode ser um bom sinal da importância do silêncio. “Por que não te calas” reflete uma necessidade humana básica de silenciar para se escutar, assim como para escutar o outro, permitindo que se converse consigo mesmo e com o outro. Desse modo, ficar em silêncio pode gerar um mal-estar inicial, por isso, acredito que a maioria das pessoas quase nunca está no silêncio. Quando não falam ouvem qualquer coisa para não escutar, primeiramente a si mesmo. Entenda-se a diferença entre ouvir e escutar. Enquanto ouvir é o processo de reconhecer sons provenientes do sentido da audição, escutar é uma ação consciente de tentar entender o sentido e o significado dos sons. Para isso é preciso calar e se manter em silêncio. Só assim para escutar muito mais do que ouvir. Com o silêncio exterior e, principalmente, a escolha de se manter em silêncio começa o processo da escuta. É na escuta que está a atenção plena e a presença. É a escuta que nos traz para o mundo real, levando-nos a observar sem julgar. É na escuta que registramos sentimentos e identificamos as necessidades. É na escuta que não reagimos e escolhemos agir em conformidade com as intenções. Enfim, é na escuta que reconhecemos os nossos sabotadores e resgatamos o poder do sábio que há em cada um de nós. Para escutar o outro é preciso de uma pausa. A meditação é uma pausa que nos permite a auto escuta, assim como no retiro se pratica a pausa que nos leva a que nos escutemos. Com a escuta começamos a nos relacionar bem conosco o que promove boas relações bem com os demais. Com a habilidade da escuta desenvolvida falamos menos, nos conectamos mais e somos produtivos. Portanto, a escuta é uma competência de resultados que alinha as ações com as intenções.

Não conheço o Rei Juan Carlos e nem conheci ao ex-Presidente Hugo Chavez, porém a expressão “por que não te calas?” provoca diferentes reflexões. Algumas delas nos remetem a importância do silêncio. Não há julgamento na descrição do fato, apenas cabe ressaltar a importância da pausa presente na escuta. Nesse processo, acredito que se pode observar mais e julgar menos. Que se pode desenvolver a capacidade de registrar os sentimentos meus e dos envolvidos. Que se consegue identificar as necessidades minhas e as do outro. Portanto, com a escuta se aprende a expressar de forma a quebra do silêncio seja melhor do que o silêncio. Desse modo, calar-se permite que se estabeleça uma rotina com qualidade de vida, que se ordene a agenda e que se escolha os estímulos a que vai se expor.  Enfim, conseguir comportar-se dessa maneira não é fácil, tratando-se de um desafio tremendo. Entretanto, acredito que a pausa que nos permite escutar faz com se diminuam alguns dos nossos sabotadores deixando o sábio florescer.

Um mundo com mais silêncio pode ser melhor!

Moacir Rauber

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Toda a situação é um presente!

Toda a situação é um presente!

Será?

Morar perto da praia tem todos os benefícios do mundo, entre eles, conectar-nos com a nossa essência e os nossos sentidos: pode-se ouvir o som do mar, sentir o cheiro da maresia, sentir a água e a areia na pele e ver o vaivém das ondas arrebentado na praia. É lindo! Essa beleza faz com que um se perceba como um verdadeiro milagre da natureza em que o privilégio da vida é valorizado. Porém, muitas vezes, entra-se no modo automático de viver a vida e passa-se a não perceber toda essa beleza. Por outro lado, a proximidade do mar aumenta o vaivém de pessoas que passam a fazer visitas mais frequentes. E essa é a melhor parte. As conexões se estreitam, as amizades se fortalecem e a família se une. Porém, uma visita inesperada pode coincidir com outras demandas pessoais, profissionais ou familiares. Às vezes é preciso dizer “não”. Faz alguns anos, tinha programado passar um domingo com a família. Na quinta-feira anterior, final de tarde, um amigo de infância me liga e avisa que domingo estaria na minha cidade e que me convidava para acompanhá-lo nas visitas pelas diferentes praias. Tinha toda a liberdade para dizer que “não”, mas disse “sim”. Logo depois me senti pesado, culpado e frustrado, porque havia cancelado uma programação prévia. Como conviver com isso?

Dizer “sim” para o meu amigo representava dizer “não” para as alternativas, entre elas a de passar o domingo com a família. Essa constatação gerou sentimentos de frustração e de culpa. Perguntei-me: por que disse “sim”? Coincidência ou não, na mesma noite tivemos uma prática de Comunicação Não-Violenta em que fizemos uma atividade na qual cada um repensava uma situação e como poderia mudá-la ou aceitá-la de modo a estar bem com ela. Qual era a situação? Aceitei fazer algo que não queria. Qual era o pensamento principal que o levou a aceitar? Pensei ser importante aceitar, porque ele é meu amigo. Você está seguro de que é verdade? Sim, ele é meu amigo. A outra pessoa está de acordo contigo em relação a esse pensamento? Sim, por isso ela me convidou para acompanhá-la. Quais eram as minhas necessidades por detrás do pensamento principal? Tinha as necessidades de conexão e de amizade. Nesse momento, algo mudou em mim. Pensar, reconhecer e sentir que a visita do meu amigo revelava e atenderia as minhas necessidades de conexão e de amizade, fez com que visse a situação de outra perspectiva. Na atividade voltamos para a pergunta inicial: você pode me acompanhar no domingo para visitar as praias da região? Como você se sente agora? Ao repensar a situação a partir dos fatos, ao registrar os sentimentos iniciais e, principalmente, ao identificar as minhas necessidades passei a me sentir alegre e feliz. Pude entender que ao dizer “sim” para o meu amigo disse “sim” para as minhas necessidades. Mais. Hoje, sob a perspectiva da Inteligência Positiva, a culpa e a frustração nada mais eram do que a manifestação dos sabotadores internos que encobriam a perspectiva do sábio em que a visita do meu amigo era um verdadeiro presente.

No domingo, visitei diferentes praias com o meu amigo em que pude aproveitar a beleza das paisagens explorando os sons, os cheiros e as sensações prazerosas frente aos infindáveis segredos do mar. Pude reconectar-me comigo ao pensar nos insondáveis mistérios da vida e da alma. Pude transformar uma situação frustrante num presente divino, porque depois do exercício, passei a ter a plena consciência de que estava fazendo o que havia escolhido fazer. Isso foi possível ao olhar para dentro de mim com cuidado, identificar as minhas necessidades, minimizar a influência dos sabotadores e potencializar os poderes do sábio. Ao mudar a perspectiva pude aceitar a escolha que havia feito. Redescobri as belezas que já não via e reforcei a amizade que sentia. Amigos, vocês são um presente. Sejam sempre bem-vindos!

No final do domingo, ao chegar à casa, ainda tive tempo de jantar e jogar cartas em família.

Moacir Rauber

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QUEM CONSERTA O MOTOR DO SEU CARRO?

Quem conserta o Motor do Seu Carro?

“Um homem seguia com seu carro por uma rodovia quase deserta. Começou a sentir um problema no motor e o carro foi parando até que não se moveu mais. O homem desembarcou, revisou todas as partes para encontrar o defeito. Infelizmente, não conseguiu encontrá-lo, apesar de acreditar que conhecia muito bem o motor. Logo em seguida parou outro carro e dele desceu um senhor que ofereceu ajuda. O dono do carro com problemas respondeu:

– Olha, esse carro é meu desde novo e eu o conheço como a palma da minha mão. Não há como você me ajudar.

O outro insistiu até que o primeiro concordou, mas alertou:

– Não creio que consiga fazer alguma coisa. Este é o meu carro…

O segundo homem se pôs a trabalhar e em poucos minutos havia consertado o motor do carro. O primeiro estava espantado:

– Como você conseguiu fazer isso? Afinal, é o meu carro…

– Bem, meu nome é Felix Wankel e sou o inventor do motor rotativo que está no seu carro.

Veja como são as coisas. Quantas vezes dizemos “esta é minha vida”, “este é meu destino”, “esta é a minha casa”, “deixe-me sozinho que eu consigo resolver”.

Escutei a história contada pelo Pe. Jorge Nardi. Fiquei intrigado, comovido e inspirado, porque vivemos num mundo movido pela busca constante, frequente e, quase, insana pela autonomia gerando um individualismo exacerbado. Pessoas individualistas especiais acreditam que detém prerrogativas que as permite fazer o que quiserem de um modo egoísta. Particularmente, creio que sou especial pela minha unicidade e singularidade, assim como o outro é especial pela sua unicidade e singularidade. Isso nos torna comuns. Por isso, a nossa vida somente tem sentido na interdependência com o outro. Ora ajudo, ora sou ajudado. Entender que é nessa relação que faz sentido desenvolver-se para melhorar as habilidades técnicas permite que se construa um mundo melhor. Buscar autonomia? Uma necessidade básica humana. O dono d carro com problemas fez aquilo que estava ao seu alcance. Não aceitar ajuda? Arrogância do ego que a contragosto aceitou a oferta. Assim, o convite para resgatar o sábio descrito na Inteligência Positiva diante de uma situação complicada pode nos auxiliar para observar sem julgar, o primeiro passo da Comunicação Não-Violenta. O que está acontecendo? Tenho as competências para resolver? O tempo e a situação me permitem desenvolvê-las? Se sim, mãos a obra. Se não, aceite a ajuda porque tudo aquilo que existe fora da natureza existe pela competência de alguém assim como você. Talvez aqui se fale do discernimento que é a “capacidade de avaliar as coisas com bom senso e clareza” (Oxford Languages), tendo a sua origem nos textos bíblicos. Hoje a palavra é utilizada na psicologia e na filosofia, ampliando o seu uso e o significado. Para observar sem julgar é essencial ter discernimento, uma prerrogativa da sabedoria que entendo estar muito próxima daqueles seres espiritualizados.

“Esta é a minha vida”, “estes são meus problemas”, são pensamentos comuns daqueles que querem assumir o comando da própria vida. Também eu quero isso, uma vez que uma das minhas buscas mais intensas sempre foi pela autonomia de exercer as minhas escolhas. Entretanto, reconhecer que existem situações (observar) nas quais devemos aceitar ajuda é um exercício de humildade (sábio). Parar, olhar para dentro e em seguida para fora nos permite conectar com o outro, que assim como eu tem as mesmas buscas. Contudo, cada um tem competências diferentes que na interdependência são complementares. Portanto, avaliar as situações, buscar conhecimentos para aprender ferramentas que nos proporcionem autonomia entendo ser uma busca natural. Enfim, infiro que com a mente aberta, para que o discernimento esteja presente em nossas escolhas, pode nos levar a nos aproximar do Criador do nosso motor. Isso é sabedoria, é Espiritual!

Moacir Rauber

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O QUE É REAL?

O que é real?

Quando o trabalho o afasta da zona de conforto, há uma tendência a que as emoções aflorem com mais facilidade. É o momento de encontrar o equilíbrio para ver as alternativas. Nem sempre é fácil. Organizar um evento com a presença de pessoas com as quais você se compromete a entregar um conteúdo diferenciado está fora da zona de conforto de quase todos. Para mim era um desafio tremendo começar uma oficina com mais de trinta inscritos de diferentes regiões brasileiras, idades variadas e formações múltiplas, agrupando pessoas únicas e singulares. Tratar de temas como a espiritualidade, a positividade e a não-violência no ambiente organizacional contribuíam para que o conforto desse lugar a inquietação. O ambiente virtual com a dependência tecnológica de computador, câmera, microfone, aplicativo de transmissão e a internet completava o cenário. Aquilo que estava no meu controle, acreditava, estava feito. O conteúdo estava preparado e organizado com a sequência de atividades. O horário se aproximava e eu estava usando o computador na bateria. Queria deixá-lo bem carregado para a oficina, assim fui conectá-lo na tomada. Pareceu-me um pouco mais duro e forcei um pouco. Foi o suficiente para ouvir um pequeno estalido que indicava a quebra de algo. A bateria, que estava quase descarregada, não carregava e não teria energia para toda a oficina. Assustei-me. Pensei num plano B. Passei na loja de computadores perto de casa, mas ela estava fechada. Peguei outro computador e transferi para ele os arquivos. “Tudo certo. Que alívio!”, pensei. A oficina começou num bate-papo informal e em seguida começamos as atividades. Os comandos diferentes do computador e um power point de outra versão me deixaram um pouco nervoso. Não conseguia compartilhar a imagem como queria. Ajuda daqui e dali dos participantes e a oficina engrenou perfeitamente. De repente, do nada, o meu computador simplesmente desligou. A facilitação dessa parte da oficina estava sob minha responsabilidade. E agora? O que fazer?

Provavelmente, muitos de vocês passaram por situações com imprevistos. Da perspectiva da inteligência positiva, esse é o momento em que os sabotadores se manifestam. Ao pensar na comunicação não-violenta a probabilidade de que a pessoa seja dura consigo mesma é imensa. Os meus sabotadores começavam a me levar para um nível ansiedade muito alto. Tornei-me agressivo comigo. O pensamento de que tinha tudo sob controle desapareceu, deixando o controlador, um dos meus sabotadores, descontrolado. O sabotador principal que critica a si mesmo, os outros e as situações, rapidamente se uniu a ele. “Eu te avisei” dizia ele. Levava-me a pensar, “sem a minha presença para comandar a facilitação a oficina vai ser um desastre”. Fiquei com raiva de mim e culpei-me pelo descuido. Culpei a situação ao não entender como poderia sair do meu controle algo que estava bem planejado com planos A e B. Os meus sabotadores me levavam a entrar em desespero! Nesse momento, em meio ao turbilhão de pensamentos agressivos dos sabotadores, veio-me um ditado à mente: “O homem propõe e Deus dispõe”. Um pouco da espiritualidade que nos traz sabedoria. Foi uma micro pausa que me permitiu retomar o contato com a realidade. O que estava acontecendo de fato? Nada que já não tivesse acontecido antes comigo ou com outras pessoas. O que eu poderia fazer? Reiniciar o computador, que demoraria um pouco, e conversar com as pessoas a partir do notebook de minha esposa que participava da oficina. Tudo seguia na sua normalidade.

Enfim, entendo que a espiritualidade nos mostra que tudo tem uma razão para acontecer. Não se trata de conformismo, mas sim de humildade. Tive que reconhecer que nem tudo está no meu controle, assim pude diminuir o controlador, meu sabotador associado. Tive que admitir que a vida segue sem a minha presença, porque a oficina seguiu intermediada pelos demais. Como isso aconteceu? A inspiração vinda da espiritualidade me pôs em contato com a realidade, fazendo com que diminuísse a violência interior que, muitas vezes, se reflete no exterior. Enfim, tive que revelar que a minha esposa estava na oficina. Isso é real!

Moacir Rauber

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É FÁCIL VIVER COM O OUTRO? E CONTIGO?

É fácil viver com o outro?

Estar com o outro, muitas vezes, nos parece difícil. Digo isso porque tive a oportunidade de viver numa família bem organizada a partir dos papéis sociais de cada um: os pais eram os pais e os filhos eram os filhos. Parecia difícil cumprir as exigências dos pais e as implicâncias dos irmãos. No mundo corporativo comecei trabalhando numa empresa em que a chefe era muito exigente e parecia quase impossível alcançar as metas que ela propunha. Com os amigos, por vezes, eles pareciam inconvenientes porque nunca sabiam o que queriam. Na relação conjugal parece que a companheira implica com as pequenas coisas que não me importam muito, por isso também não é fácil estar com ela. Assim, é fácil chegar à conclusão de que viver com o outro não é fácil no trabalho, nas amizades e na família. Porém, a pergunta a ser feita deveria ser: é fácil viver com quem eu sou? É bom estar comigo? Essa pergunta me veio à lembrança porque, certa feita, fui confrontado com uma situação de divergência em que a outra parte disse:

– Caramba, você não é fácil mesmo!

A conversa seguiu. Recuei da minha posição e chegamos a um acordo. Entretanto, aquela fala me acompanhou a noite toda. Repensei inúmeras situações. Na minha família, acreditava que meus pais eram exigentes e os irmãos implicantes, porém ao analisar com mais cuidado também eu era impertinente e pedante. Certamente não foi fácil para eles serem meus pais e não era tão simples meus irmãos serem meus irmãos com quem eu era. No ambiente profissional, cumpri o papel de organizar algumas empresas. Hoje vejo que eu era exigente e não era tão simples nem fácil estar comigo. Nas relações de amizade nem sempre sou tão fácil de encontrar, não faço os movimentos que poderia fazer e igualmente nem sempre sei exatamente aquilo que quero ou espero. Na relação conjugal as pequenas coisas que, por vezes, irritam o outro são uma constante. Tenho a consciência de que deixar a roupa jogada na cama e não pendurada no cabide irrita a minha esposa, entretanto faço isso quase todos os dias. É algo insignificante para mim, mas significante para o outro. Desse modo, além de se perguntar se é fácil viver com quem se é, há que se perguntar: é fácil conviver com o meu comportamento? É fácil viver com as minhas ações e reações? É fácil interagir com as minhas posições e interpretações de mundo? Fazer uma pausa para olhar para dentro pode ajudar. A pausa pode vir de um retiro para fazer um replanejamento estratégico da própria vida. O que você quer? Para onde quer ir? Quem é importante para você nessa viagem? A pausa pode vir de uma meditação diária no início do dia. Qual é a sua intenção? Como transferi-la para as ações? A pausa pode vir da não reação frente a uma ação da qual se discorda. “Conte até dez”, “respira fundo” ou outra estratégia que nos leve a fazer uma pausa para não reagir, mas sim agir em conformidade com as intenções. Entende-se que a pausa muda tudo, inclusive ela dá sentido ao movimento.

Enfim, naquele dia em que fui confrontado com a fala de que eu não era fácil tomei consciência de um universo comportamental que afetava os outros. Eu afetava sem afeto. Nesse movimento produzia dor, angústia e sofrimento, deixando os ambientes tóxicos. Assim, a pergunta: “é fácil viver com o outro?” talvez não seja a primeira a ser feita. Com os pais somente posso agradecer, porque eles estão em outro plano. Olhando pelo retrovisor, foi fácil viver com eles. Com os irmãos a relação está madura e plena, talvez resultado da própria idade que temos. Hoje é fácil viver com eles. Com os amigos as pequenas diferenças fazem parte do encanto de cada um. É fácil viver com eles. Com a esposa ainda preciso aprender a pendurar a roupa no cabide, por isso a pergunta: é fácil viver com quem eu sou?

Moacir Rauber

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“BOM DIA POR QUÊ?”

Bom dia por quê?

O pai saía do prédio para levar o filho à escola. Encontra um vizinho e outro. Bom dia para um e para outro, afinal viviam no mesmo condomínio. Conhecia alguns, outros não, mas os cumprimentava da mesma forma. Havia um morador que ele saudava sempre, porém não recebia resposta. Mais uma vez e disse:

– Bom dia!

O vizinho não respondeu, sequer o olhou. O filho, intrigado, indagou porque o pai sempre o cumprimentava sabendo que ele não responderia. Que o vizinho passaria por ele com a cara fechada. Que não havia retorno para o “bom dia” que o pai lhe desejava. O pai olhou para o filho e respondeu:

– Isso é problema dele!

Um diálogo simples que fala das relações humanas. A tendência a que ajamos com o outro como ele age conosco segue a lógica da reação, momento em que abro mão da minha escolha de ação. É a hora em que desalinho as minhas intenções e as minhas ações. No nosso círculo de familiar, de trabalho e de convívio vamos encontrar pessoas generosas, distantes e mesquinhas. Provavelmente, para algumas pessoas nós seremos generosos, distantes e mesquinhos. Dessa forma, não cabe a mim julgar o outro. A minha escolha está no alinhamento das minhas ações e intenções, uma vez que a natureza humana é AMAR. Se a minha natureza é amar, as minhas ações são de amor? Desse modo, é não natural não amar e “o único pecado é a ausência de amor nas ações” (Adroaldo Palaoro).

Para exemplificar, há uma analogia de Francisco de Sales que compara o ímã e o amor. A natureza do ímã é atrair o ferro, assim como a natureza da pessoa é amar. Caso o ímã não atraia o ferro há algumas razões, entre elas a interposição de algo entre eles, o excesso de peso ou a distância. Caso haja um diamante entre o ímã e o ferro não haverá atração. O diamante pode estar representado pela busca desenfreada para atender os próprios desejos. Foco no dinheiro, mais do que no bem estar. Foco na vaidade, mais do que no cuidado. Foco no orgulho, mais do que na humildade. O diamante, além de interpor-se entre o ímã e o ferro, ou entre o amor e as pessoas, anula o poder de atração entre um e outro, levando a sobrevalorização de si mesmo. A pessoa se torna excessivamente pesada de si mesma e não haverá ímã ou amor capaz de resgatá-la. Portanto, o diamante pode ser representado pelo egocentrismo em que a sobrevalorização de si mesmo impede que o ímã atraia o ferro. Amar-se demasiadamente impede que se ame ao próximo.

Enfim, para amar e para atrair é preciso não ser avarento nem esbanjador, generosidade é a escolha. Para amar e atrair é essencial não ser excessivamente vaidoso nem desleixado, o cuidado é a opção. Para atrair e amar a proximidade é essencial, seja ela física ou virtual, para poder abraçar e expressar o amor alinhando intenções e ações.

“Bom dia por quê?” mostra a sabedoria do pai ao ativar a sua inteligência positiva, comunicando-se de forma não-violenta. Ele dizia “Bom dia” é o (1) fato que demonstrava que ele não se responsabilizava pelo (2) sentimento do outro e atendia a sua (3) necessidade de respeito e de amor. Resultado? (4) Comunicação não-violenta num movimento de inteligência positiva, diminuindo o papel dos sabotadores ao não deixar que o outro determinasse a sua ação. O sábio se sobressai quando se valoriza a beleza que cada um carrega dentro de si. O Pai fez isso!  

No dia seguinte o filho também disse “bom dia”, ele estava apto para amar. Ele estava alimentando o seu sábio interior. O menino, assim como o pai, queria afetar o mundo com afeto. Algum tempo depois o vizinho respondeu “bom dia” pela primeira vez. Alguns meses depois, a amizade entre os vizinhos nasceu pela força da natureza de amar.

“Bom dia por quê?” Bom dia para amar.

Moacir Rauber

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NÃO AGUENTO FICAR SEM O CELULAR…

Fonte: https://anamariabraga.globo.com/materias/praia-e-celular-como-evitar-danos-ao-seu-aparelho/

Não aguento ficar sem o celular…

Observar as pessoas na rua é sinônimo de ver a conexão que desconecta. Estávamos num dos parques mais lindos de Florianópolis sentados à sombra de uma árvore. Tomávamos chimarrão, líamos um livro e víamos a paisagem que estava a nossa frente. A areia da praia, a água do mar, a imagem e o som do vaivém das ondas, além de ver as pessoas que caminhavam no parque. Não pudemos evitar. Vimos o fenômeno dos celulares. Das 100 primeiras pessoas que contamos, 79 estavam com o celular na mão ou fone de ouvido. Estavam quase todos conectados com um mundo longe de sua realidade física. Havia a grande possibilidade de que estavam desconectados de si mesmos. Um amigo meu que caminhava por ali, igualmente com celular na mão, nos viu. Parou, nos saudou e começou a conversar. Perguntei-lhe sobre caminhar e o celular na mão. Ele respondeu:

– Não aguento ficar sem ele. Não desgrudo dele…

Ficamos intrigados com a frase dita em que ele admitiu não aguentar ficar sem o celular, o fenômeno dos estímulos externos. O celular é o mais representativo deles, pois concentra as redes sociais, a televisão, a internet com todo o conhecimento e informação disponíveis e o e-mail, além dos arquivos que antes se viam somente no escritório. Além do celular, a quantidade de eventos, programas e outras atividades a que as pessoas tem acesso é inimaginável no período em que o homem fazia parte da natureza. Hoje dizemos “o homem e a natureza”. Aventamos outras possibilidades. Uma delas é que as pessoas aguentariam ficar sem o celular, porém não aguentam ficar com elas mesmas. As pessoas já não se escutam e não conversam consigo mesmas. Sequer cruzam a rua sem o celular na mão, colocando em risco a própria vida e a de outros. Nunca se está sozinho. Nas demais fases da história da humanidade estar sozinho não era opção, acontecia. O caçador ficava em silêncio para caçar. O agricultor ficava sozinho ao trabalhar. O atleta saía para treinar sem nada para escutar. As pessoas no caminho de casa para o trabalho e do trabalho para casa eram acompanhadas pelo som do seu diálogo interno, assim como ao se deitar para dormir somente poderia se escutar ou o tic tac do despertador. Esses momentos, poderiam ser considerados meditativos e eram pausas para recobrar a consciência das metas e dos objetivos pessoais e profissionais. Os diálogos internos que o meu amigo talvez não queira ter, representa o encapsulamento externo em que nos prendemos fora de nós mesmos. O que fazer? Os retiros de silêncio mais prolongados, as meditações diárias e as pausas entre uma atividade e outra podem ser de grande ajuda para restabelecer a conexão consigo mesmo e com o mundo. Os (1) Retiros de Silêncio mais prolongados podem ser um processo curativo e de planejamento estratégico do indivíduo. O mundo e a minha organização são melhores porque estou neles? Eu estou onde quero estar e estou indo para onde quero ir? Entre outras questões existenciais que fazem diferença responder de tempos em tempos. As (2) Meditações Diárias no princípio de um dia podem contribuir para estabelecer os padrões de conduta frente aos desafios diários. Qual é a minha intenção na relação com os demais? Quais serão as minhas ações? O desafio será manter elas alinhadas a partir das (3) Pausas entre uma interação e outra ou entre uma atividade e outra. Qual será a minha resposta? Qual será a minha ação? As pausas contribuem para que cada um possa identificar se aquilo que vê e escuta é a realidade ou a interpretação dela, permitindo que a ação esteja alinhada com a intenção, levando-me para onde quero ir.

Conversamos mais um pouco e o meu amigo seguiu o seu caminho com o celular na mão, desconectado da beleza física que o rodeava e conectado no mundo virtual que sempre o acompanhava. Oxalá a análise acima seja somente uma interpretação da realidade e que ao não desgrudar do celular o meu amigo possa se conectar com aquilo que seja essencial.

Quem é você da porta pra fora?

Quem é você da porta pra fora?

Outra vez o nosso grupo estava reunido para explorar os temas relacionados ao corpo, à mente e ao espírito. A fala do dia (@Cris.faria) tratava da mente, da lógica e da busca por resultados por meio do conhecimento que impacta diretamente a performance individual, das equipes e das organizações. A exibição de inúmeras ferramentas de desempenho que podem ser utilizadas no dia a dia por cada um que esteja disposto a desenvolver as habilidades para delas se beneficiar. É uma escolha. A reflexão sobre a mente, invariavelmente, se volta para o corpo. A mente e o corpo se conectam com algo que muitos creem ser o espírito e outros tantos, que não creem, desconfiam que há algo que ainda não conseguem entender. Espírito? Alma? Energia? Transcendência? Finitude? Perguntas sem respostas que se possam comprovar pela ciência. Entre questionamentos e reflexões a pergunta que muitos demoram, não querem ou se recusam a responder:

– Quem é você?

Não se tratava de saber qual a profissão ou quais os papéis sociais desempenhados. A pergunta ia além. Responder que sou advogado, professor, atleta, marido ou pai somente fala daquilo que faço da porta para fora. A pergunta proposta pela Cris tinha a ver com quem é você da porta pra dentro. Com quem você vai dormir à noite? Tampouco tem a ver com a companhia do outro que deita na cama comigo, mas com a essência que me acompanha no íntimo do meu ser. Essa pergunta é o desafio a ser vencido por cada um de nós na busca pelo desempenho do corpo, no esforço para desenvolver as capacidades da mente e na tentativa de desvendar os segredos do desconhecido que podem nos revelar o sentido daquilo que fazemos. Falamos do Espírito, da Alma ou da Energia Cósmica? Não sei, é desconhecido. Ainda que não se tenha uma resposta, porque não há ciência ou método científico que possa aclarar e nem acalmar essa busca, saber quem se é da porta pra dentro pode ajudar a que cada um seja pleno da porta pra fora. A clareza dos métodos pode ajudar.

O conhecimento pode dar a sua contribuição quando nos leva ao caminho da humildade de reaprender; da curiosidade de redescobrir; e da coragem para ressignificar.

(FISEC 2022)

Voltamos para a analogia do carro presente em textos anteriores (Você cuida do seu carro e A quem você saúda?). As escolhas de como você vai cuidar do seu carro, o corpo, e da sua mente, o condutor, darão tranquilidade para encontrar a essência, a sabedoria. Ela está na alma, no espírito, na energia cósmica ou no coração. Quem vai ditar o rumo? O condutor com as suas escolhas para saber se dirigir será um ato de perigo, de prazer ou de construção. Assim, chegamos ao conhecimento que organizado e compartilhado criam novas teorias e práticas inovadoras num processo de retroalimentação contínua.  Surgem as ferramentas que operacionalizam a ciência fazendo com que as pessoas alcancem alto desempenho. Porém, isso tudo somente faz sentido se o uso das ferramentas vindas do conhecimento é feito com sabedoria que a espiritualidade pode oferecer. A reaprendizagem, o redescobrimento e a capacidade de ressignificar a vida fazem a diferença para se perguntar: o mundo é melhor porque você está nele? Isso é espiritual.

Por fim, o nosso encontro terminava com o entendimento da importância de integrar corpo, mente e espírito a partir de um movimento de liderança interna. Responder quem é você da porta pra fora é fácil. Basta dizer a sua profissão ou outro papel social que te pareça interessante.  Porém, a pergunta a ser respondida é: quem é você da porta pra dentro? Quem é você no fundo do seu coração? É esse entendimento que vai permitir Reaprender, Redescobrir e Ressignificar fazendo com que o mundo seja melhor com a sua, a minha presença. Pergunta: o mundo é melhor com quem você é da porta pra dentro? Se sim, o mundo da porta pra fora agradece a sua presença!

Moacir Rauber

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Inspirado por: Cris Faria

Onde está o problema?

Onde está o problema?

Os dois começaram conversando tranquilamente, cada um expondo a sua ideia sobre qual cor deveria predominar na pintura da porta. O primeiro tenta convencer o segundo sobre o acerto da sua sugestão. O segundo refuta e tenta convencer o primeiro das vantagens da sua escolha. O diálogo se acelera. Enquanto um defende que se deveria pintar com uma cor mais sóbria para combinar com os móveis do interior do escritório o outro acreditava que deveria ser usada uma cor mais viva para combinar com o jardim que circundava a empresa. A simples questão de definir a cor com a qual pintariam a porta que separa o ambiente interno do ambiente externo da empresa se estava transformando numa polêmica. Sem papas na língua, o primeiro disparou:

– Mas você é um teimoso…

– Teimoso é você… retrucou o segundo.

O impasse estava armado. O profissional se transformava em pessoal. Você já presenciou alguma situação similar? É uma situação caricata, porém exemplifica como os conflitos emergem nas situações mais corriqueiras possíveis. Ao observarmos a situação da perspectiva da Comunicação Não-Violenta (CNV) e da Inteligência Positiva (IP) se poderia ter alternativas sem a rispidez desse o tom. Na CNV a sugestão é a de que as pessoas façam uma pausa para se ater aos fatos, registrem os sentimentos envolvidos e identifiquem quais as necessidades de um e de outro para, por fim, expressar-se de maneira clara e concreta num processo de autocuidado cuidadoso para si e para com o outro. A IP propõe que se faça os exercícios de reconexão com a realidade para diminuir a velocidade da atuação dos sabotadores e chamar a ação do sábio. É a pausa. Na situação acima, nem um nem outro usou os recursos da CNV ou da IP. Ambos estavam preocupados em manter a sua posição. Queriam muito mais estar certos do que alcançar o melhor resultado. Se pelo menos um deles tivesse usado a pausa para se conectar com a realidade poderia ter observado com clareza diferentes alternativas daquelas que se apresentavam. Teria escutado o outro e a si mesmo. Teria visto que se poderia trabalhar de forma conjunta num processo evolutivo em que as ideias são complementares. Um exercício muito simples proposto pela IP frente a uma ideia que você considera absurda é procurar nela alguma coerência para poder dizer um “sim”. Para diminuir a tensão e transformar o conflito em um momento de crescimento, é essencial encontrar um ponto de convergência, dizer “sim” para em seguida juntar “e…” para acrescentar a própria sugestão. Para usar essa técnica a pausa é fundamental para poder ver o fato diminuindo a interpretação que se tem dele, considerando sentimentos e necessidades envolvidos, além de se expressar de maneira educada. É a pausa que permite que o sábio se manifeste ao empatizar consigo e com o outro; ao explorar a situação da própria perspectiva e da do outro; ao inovar a própria ideia com a do outro; ao navegar por propostas não vistas por si mesmo presentes na visão do outro; e ao ativar o sábio diminuindo o poder dos sabotadores que não respeitam os sentimentos e as necessidades próprias nem do outro ao se basear numa interpretação da realidade que, muitas vezes, não corresponde aos fatos. O resultado? Expressa-se de forma trágica para atender uma necessidade não atendida e não corretamente identificada, gerando conflitos.

Enfim, o impasse frente a acusação de teimosia pelas partes chamou a atenção do gerente que passava por ali. Ele olhou e disse “Sim, boas ideias. Por que vocês não pintam de uma cor pelo lado de dentro e de outra pelo lado de fora?”. Os dois se entreolharam, fizeram a pausa para assimilar os fatos e se puseram de acordo com a solução proposta. Onde estava o problema? O problema estava no modo em que ambos percebiam a situação e não na situação. 

Moacir Rauber

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Para quem você está onde está?

Para quem você está onde está?

Um mea culpa. Algumas considerações sobre um fato que me tirou o sono durante uma semana.

Fui convidado para fazer uma palestra de abertura de uma competição em que deveria estimular os competidores a darem o seu melhor falando sobre motivação e superação. Mas o evento não somente sobre isso. Um dos focos era a disseminação das melhores práticas das atividades daqueles profissionais. A competição era tão somente uma forma lúdica encontrada pelos coordenadores da organização de consolidar e de transmitir conhecimento. Eu fiquei muito feliz com o convite. Para tanto, escrevi um texto com o título Não acredito em competições… Não compreendo o que se entende por superação… No texto discorri sobre a minha crença de não acreditar em competições, porque elas necessariamente deveriam se basear no princípio da igualdade. Como somos todos diferentes esse princípio não teria como ser cumprido. Mesmo assim gosto de competições, porque ela faz com que aflore o melhor de cada competidor. Uma competição saudável não se refere ao outro, é sobre cada um ser competitivo. O resultado é uma consequência, fazer o melhor é uma obrigação.

Também comentei sobre a superação, que normalmente é entendida como uma atitude quase heróica de conseguir algo diferenciado. Muitas vezes ela é associada às pessoas com deficiência. Porém, o meu entendimento é de que a superação é o contínuo ato de se tornar aquilo que se é. São os pequenos avanços realizados diariamente que representam a superação. Isso já foi discutido e apresentado por muitos autores, embora hoje prevaleça a ideia do herói, com a qual não concordo. Mas foi nesse ponto que tropecei. Não concordo e não acredito nisso, mas comportei-me como tal.

Fui para a apresentação com a convicção de fazer o meu melhor. Estava seguro de mim pelo texto que havia escrito ao qual associaria todo o meu raciocínio para ser fonte de inspiração para aqueles profissionais e competidores. Acrescentei um pouco de teoria motivacional para fundamentar a exposição, porém, assim como a lei da gravidade existe sem a necessidade de uma teoria, a motivação também está presente nas pessoas. A teoria até pode explicar, mas não muda a realidade. Comecei a minha apresentação expondo esses pontos. Avancei para fazer uma associação com a minha história pessoal, falando rapidamente do acidente que me deixou em cadeira de rodas. Expliquei como foram as batalhas para trilhar um caminho profissional e, finalmente, como entrei no mundo dos esportes. Não sei exatamente em qual ponto da minha exposição aconteceu, mas sei que aconteceu. De repente eu acreditei que era um herói. A minha história me convenceu e tudo aquilo que havia dito inicialmente eu mesmo contradizia. Passei a falar como herói. A fala sobre humildade sem ser subserviente passou rapidamente pela assertividade e se tornou arrogância. Esqueci para quem falava, porque afinal falava de mim. Estava achando o máximo, porém fui o mínimo. Saí de casa com a firme intenção de fazer o meu melhor, mas terminei o dia sentindo que havia falhado redondamente.

Ao final da palestra as pessoas aplaudiram com entusiasmo, mas a minha sensação foi de frustração. Nesse dia senti que não merecia os aplausos, porque esqueci que eles não estavam ali por minha causa, mas eu é que estava ali por causa deles. Quando acreditamos que viramos estrelas o suposto brilho nos ofusca e nos tira a visão. Não ver por causa do brilho é muito pior do que não ver na escuridão, porque, mesmo cegos, acreditamos que estamos vendo. Assim, entendo que é essencial ter em mente que nós estamos onde estamos para o outro.

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Moacir Rauber

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