Qual é a tua xícara 2?

Qual é a tua xícara?

O professor desligou o celular e entrou na sala. Um minuto a mais e ele estaria atrasado. Foi uma aula tranquila dada com a consciência de ter feito um bom trabalho. Terminou a aula, ligou o celular e olhou as mensagens. Muita movimentação nos grupos e uma mensagem lhe chamou a atenção: “Quem é o irresponsável que não sabe usar um espaço comum? Sujou, lavou para que os outros possam usar. Incrível como tem gente sem noção!”. A mensagem lida parecia que lhe ia direto ao coração. Ele sabia que era para ele. A raiva veio de forma descontrolada e a resposta do professor que deixou a xícara na pia não demorou a chegar no grupo:

Irresponsável é quem não consegue fazer algo simples como lavar uma xícara quando um colega está no limite para chegar no horário. A falta de colaboração e de cooperação mostra quem é sem noção. Quantas vezes eu lavei a xícara de colegas… e seguiu com as justificativas.

Cada um com as suas interpretações e com os sentimentos gerados por um mesmo fato. Cada um com as suas necessidades, nesse caso não atendidas, e com a escolha das estratégias, talvez não a melhor, para expressar um pedido. Os danos relacionais que impactam diretamente o ambiente de trabalho das pessoas envolvidas na situação estavam feitos. Seguramente, os prejuízos não se limitavam aos envolvidos, porque eles se estendem as partes que compõem o cenário das relações, como os demais professores, os alunos, os pais dos alunos e a comunidade como um todo. Nada acontece de forma isolada. Tudo está interconectado, porque o “bater de asas de uma borboleta pode provocar uma tempestade do outro lado do planeta” (teoria do caos). A situação pela perspectiva da Comunicação Não-Violenta (CNV), seria: (1) observa-se uma mensagem num grupo, que ao ser lida por um professor gera um (2) sentimento de raiva ao identificar que não teve atendidas as suas (3) necessidades de cooperação e de colaboração.  A partir dessa leitura, o professor fez o (4) pedido para atender as suas necessidades com a estratégia de responder no grupo. Estratégia apropriada para as necessidades exibidas? Provavelmente, não. A busca por colaboração e cooperação dificilmente será atendida com uma resposta que ao ser lida possa ser entendida como crítica e agressão. Ao se analisar as duas interações dos professores, as necessidades de ordem e respeito de um estavam alinhadas com as necessidades de colaboração e de cooperação do outro, apenas as estratégias de um e de outro não foram compatíveis. Assim, a CNV como ferramenta de comunicação compassiva e afetuosa, demanda a implementação do Passo Zero: PARE! (Miriam Moreno). É essencial parar para observar a situação com a isenção de julgamento. Com isso, se pode entender as necessidades envolvidas, em mim e no outro, os sentimentos vivos, em mim e no outro, para escolher uma estratégia que se revele num pedido que atenda a mim e ao outro. Simples? Não. Complicado? Tampouco. Possível? Sim, com prática, prática e prática de CNV com a consciência de que eu AFETO o mundo e de que o mundo me AFETA.

Enfim, a xícara suja pode representar a necessidade cooperação e colaboração de um, assim como pode, aparentemente, colocar em oposição às necessidades de ordem e de respeito de outro. Porém, o mais provável, é que elas estejam alinhadas na busca individual por um mundo melhor. O bem-estar de um não está no mal-estar do outro. Provavelmente, o bem-estar de um se complementa e se renova com o bem-estar do outro. Muitas vezes, apenas falta a clareza daquilo que está por detrás da xícara de um e de outro. A CNV com a consciência de que eu AFETO o mundo e de que o mundo me AFETA pode ser um caminho.

O que está por detrás da sua xícara?

Moacir Rauber

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qual é a tua xícara?

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Qual é a tua xícara?

O grande desafio são as pequenas coisas, como as manias, os chiliques e os descuidos para consigo e com os outros que acabam com muitos relacionamentos. Nas famílias aguentamos ou explodimos. Nas amizades toleramos. No trabalho explodimos ou aguentamos. Quase sempre é assim. A sala dos professores é um lugar em que se iniciam muitas guerras por pequenas coisas. Os escaninhos têm nomes, porém, o restante do espaço é compartilhado. O café é um espaço quase sagrado, porque é onde se diminui o estresse e a ansiedade e se aumenta a confiança e a sensação de controle. As xícaras são de uso comum, por isso a regra é “usou, lavou, guardou”. Deveria ser assim, mas nem sempre é assim. E aí começam os problemas. Uma professora, que se considerava organizada e cuidadosa, por vezes, se deparava com uma xícara suja na pia da sala. Quando queria tomar o seu café, olhava para a pia e lá estava a xícara, suja. Ela sabia quem era o responsável por essa “falta de respeito” e não aguentou. Assim, tirou uma foto com o seu celular e compartilhou no grupo dos professores com o comentário:

Quem é o irresponsável que não sabe usar um espaço comum? Sujou lavou para que os outros possam usar. Incrível como tem gente sem noção!

Alguém já vivenciou alguma situação semelhante? Pode parecer caricato, mas acontece.

Uma xícara suja, uma porta aberta, uma luz ligada ou os livros fora de ordem são as pequenas coisas que desencadeiam grandes problemas. Como enfrentar uma situação, aparentemente, simples sem deixá-la se transformar num problema? Pode ser simples, porém não sejamos simplistas. A situação pode ser complexa, entretanto não é necessariamente complicada. O que fazer?

Quando a olhamos detalhadamente, ela traz todos os passos da Comunicação Não-Violenta de Marshall Rosenberg: a (1) observação do fato de encontrar a xícara suja gerou um (2) sentimento de raiva pelas (3) necessidades de ordem e respeito da professora que verbalizou o seu (4) pedido com a estratégia de reclamar no grupo virtual dos professores. Para Miriam Moreno (Facilitadora de CNV), é fundamental acrescentar um passo a mais, que é a capacidade de parar. Com esse movimento é possível observar sem julgar: o que estou vendo? Descrever aquilo que se vê de maneira que seria retratado por uma câmera fotográfica faz com que se tenha uma perspectiva isenta daquilo que se vê. O que estou sentindo? Registrar acuradamente o sentimento gerado com a consciência de que ele não é bom nem ruim, apenas indica que há uma necessidade atendida ou não. Quais as necessidades atendidas ou não nessa situação? Identificar quais as minhas necessidades e a do outro que podem estar envolvidas no fato observado. Por fim, o que vou pedir? Escolher qual a estratégia usar para atender as minhas necessidades que geraram um sentimento decorrente de um determinado fato. Enfim, entende-se que toda manifestação é uma estratégia, acertada ou não, de atender uma necessidade, reconhecida ou não, que gerou um sentimento, bem identificado ou não, a partir de um fato, observado ou não. Desse modo, o ponto fundamental é entender qual a necessidade que quero atender e como ela se relaciona com a necessidade do outro para escolher a estratégia mais adequada. Tirar uma foto e compartilhar no grupo a xícara suja foi a melhor estratégia? Atendeu as necessidade de respeito e de ordem? Provavelmente, não. O que você faria?

Se nas famílias aguentamos, ainda que explodamos*, nas amizades toleramos, ainda que nos incomodemos, no trabalho, se aguentamos ou explodimos, rompemos. O que fazer?

É preciso lembrar que uma xícara suja pode impedir que alguém tenha as suas necessidades de ordem e respeito atendidas, porém com a consciência de que o meu comportamento pode ser “a xícara suja” de alguém. Qual é a “tua xícara”?

Moacir Rauber

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Inspirado por Miriam Moreno

* Alguns gramáticos consideram explodir um verbo defectivo, não sendo conjugado em todas as pessoas ou tempos verbais. Alguns dicionários conjugam explodir como um verbo regular, aceitando essas duas opções como formas conjugadas no presente do subjuntivo, salientando que exploda é a forma mais utilizada no português falado no Brasil e expluda é a forma mais utilizada no português falado em Portugal. (https://duvidas.dicio.com.br/exploda-ou-expluda/)

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Tomar sorvete e levar susto de carro

Tomar sorvete e levar susto de carro

Nasci e me criei na roça, com muito orgulho. Ser agricultor me dava prazer, mas não impedia de sempre ouvir umas piadas dos amigos que moravam na cidade. Diziam eles que os agricultores somente iam à cidade para chupar picolé e levar susto de carro. Essa teoria se explica. Até o final da década de setenta a maioria dos colonos não tinha energia elétrica e as pessoas tampouco possuíam carros. Mesmo aqueles que dispunham de tais luxos tinham em sua rotina poucos encontros com pessoas que não fossem do círculo familiar e não consumiam muitos dos produtos comuns para quem morava numa cidade. Muitos agricultores iam uma ou no máximo duas vezes ao mês para cidade e nessas idas encontravam mais novidades que os curiosos olhos podiam acompanhar. Com isso, a cabeça girava para todos os lados para poder admirar uma casa linda, um edifício enorme, pessoas bem-vestidas e carros, muitos carros. Eram carros novos, velhos, bonitos e feios, uma imensidão de variedades. Assim, muitas vezes ao cruzar a rua os olhos se dirigiam para o lado contrário ao fluxo de veículos, que resultava em frequentes quase atropelos e muitos sustos. Ao finalizar o dia de aventura na cidade, antes de retornar para casa, invariavelmente se comprava um sorvete ou um picolé, afinal, esse era um prazer de que não se podia usufruir na roça.

Esse sujeito que se admira com as novidades, com diferentes costumes, impressionando-se, espantando-se e apaixonando-se pela vida continua muito vivo em mim, apesar de já de ter deixado a roça há um bom tempo e circulado por muitos lugares exóticos deste nosso pequeno grande mundo. Lembrei-me desse período da minha vida com muita força recentemente. Numa saída de casa passeando com minha cadeira de rodas pelas redondezas, fiquei zanzando e admirando a beleza dos jardins e das ruas, além de observar as pessoas caminhando pelas calçadas, muitas delas ensimesmadas. Tantas coisas acontecendo que não conseguia prestar atenção em tudo. A cabeça continuava girando, ansiando por ver coisas que não havia visto ou situações não presenciadas, resultado daquela curiosidade nunca completamente saciada oriunda lá da minha infância e adolescência agrícola. Às vezes eu ia bem devagarzinho, outras acelerava minha cadeira de rodas. Numa dessas aceleradas, com os olhos buscando algum detalhe antes não percebido, as pequenas rodas dianteiras da cadeira se toparam com uma saliência na calçada. Foi um impacto e um tombo. A cadeira parou, mas eu deslizei para frente, estatelando-me no chão. Antes que eu a pudesse segurar ela correu para trás, distanciando-se uns cinco metros de mim. Lá estava eu esparramado na calçada sem alcançar a minha cadeira. Nisso vem uma mulher completamente distraída, mexendo em seu celular e chupando um picolé. Ela aproximou de mim a minha cadeira e me ofereceu um picolé.

A curiosidade pode nos causar impactos que nos assustam, mas ela nos amplia a expectativa de vida. A curiosidade nos traz conhecimento, o conhecimento nos dá alternativas, as alternativas nos fazem aprender a usar o conhecimento que se transforma em experiência. Por fim, viver é experimentar e para experimentar é essencial ser curioso. Se não se pode viver muito mais do que 80 ou 90 anos é possível experienciar mais. É preciso estar disponível para se assustar. Qual foi o susto que você levou a partir da sua curiosidade? O que você aprendeu? Nada? Então pelo menos se sente e chupe um picolé ou tome um sorvete.

Moacir Rauber

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Inspirado: Anthony de Mello, S. J.

Todos os rituais são convenientes?

Todos os rituais são convenientes?

Tenho muitos rituais incorporados no meu dia a dia. Para dirigir tenho toda uma sequência de movimentos que repito todas as vezes que eu utilizo o carro. Basta que eu não cumpra com um deles para ter um momento de confusão. Além de ser um ritual, trata-se de um procedimento de segurança e de organização, tendo como função a de manter o foco naquilo que é importante. Assim, entendo que no ritual a pessoa, inicialmente, (1) para, (2) olha para si, (3) contextualiza, (4) reflete e (5) expande. No esporte, antes de remar, me alongo e nesse período me preparo mentalmente para o desafio. Na saída de casa me pergunto: para onde vou? O que vou fazer? Ao repetir esse ritual consigo sair sem deixar a metade daquilo que preciso para trás. No trabalho ao me questionar, “qual é o sentido daquilo que faço?” cumpro um ritual que deixa tudo mais claro. No retorno para casa me indago: o que levei? O que trago? Antes de entrar em casa faço uma limpeza emocional para não contaminar um ambiente que é sagrado para mim. Ao cumprir com os rituais tenho um dia melhor com a minha família, com os meus colegas de trabalho, com os meus amigos e, principalmente, comigo mesmo. Desse modo, com os rituais tudo fica mais sereno, tranquilo e produtivo com relação aquilo que importa. Algumas perguntas: todos os rituais são convenientes? Quais rituais manter e quais os rituais que não contribuem para você e sua organização? Qual é o ritual mais importante para você?

Para muitos pode parecer estranho, até piegas, mas o meu ritual preferido ocorre ao entrar numa igreja, templo ou sinagoga. Para mim, estar nesses espaços, que nós culturalmente denominamos como sagrados, representam os passos perfeitos de um ritual de expansão das possibilidades de Ser Humano a partir da centelha divina que nos acompanha. Minha crença. Ao entrar numa igreja e me por de joelhos (simbolicamente) diante daquilo que não entendo, percebo a minha dimensão humana de reconhecer-me pequeno e de me valorizar com a importância da individualidade. Assim, nesse momento, (1) parar é um exercício de humildade ao discernir que muitas das minhas ações poderiam ser melhores. Isso permite me (2) ver para (re) conectar-me com o outro na autêntica intençãode contribuir. Os textos lidos nesse espaço me chamam para a responsabilidade de contribuir ao (3) contextualizar o passado, o presente e o futuro com a minha presença no mundo: o mundo é melhor porque você está nele? É uma pergunta que me leva a (4) refletir sobre o meu papel no mundo e ao compartilhar com os demais tomo consciência de que eu sem o outro não tenho sentido. E a benção final é um convite para (5) agir e expandir deixando a minha marca no mundo do que qual faço parte.

Enfim, é essencial entender os rituais para que as pessoas encontrem o sentido daquilo que fazem e do que acontece nas famílias, na sociedade e nas organizações. Assim, o meu ritual mais importante é o tempo que uso para refletir e entender que nem todos os rituais são convenientes, fazendo com que eu exclua da minha rotina os contraproducentes. Da mesma forma, alguns rituais organizacionais devem ser revisados. Os rituais de passagem nos ajudam ou nos paralisam? Os rituais de renovação engajam ou afastam? Os rituais de integração homogeneízam ou mantém a unicidade? Os rituais de valorização estimulam ou diminuem? Portanto, é preciso observar e entender para avaliar se o ritual cumpre com a sua função. Ao parar vocêse conecta de forma contextualizada? A sua reflexão tem levado a que você aja e se expanda? Enfim, dogmas e crenças a parte, o fundamental é assimilar que o único pecado na nossa conduta é a ausência de amor nas ações e isso está dentro de cada um, nas intenções. Qual será a minha ação? Isso é comigo. Isso é com cada um.

Moacir Rauber

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Qual é o MOVImento da esperança?

QUAL É O MOVIMENTO DA ESPERANÇA?

Fazer silêncio com tantos elementos que nos distraem é um desafio. É o celular que toca, vibra e piscam as luzes pelas notificações. Há uma série que não quero perder. São reuniões de zoom que nos chamam. Além de ser possível sair de casa com certa normalidade em tempos de pandemia. Fazer silêncio como? Oração ou meditação quando? Complicado, mas ainda assim uma escolha. Por isso, resolvi fazer um retiro de silêncio para me escutar por meio da oração e da meditação. O grupo do retiro assumia o compromisso de não falar por uma semana. Teríamos um encontro diário com o mentor do retiro para alinhar os exercícios espirituais e as leituras orientadas. Na chegada ele fez uma reflexão:

– As crises de expectativa, a tristeza e as desilusões são reações emocionais a eventos que nos atingem. Por outro lado, manter viva a nossa esperança é uma decisão, um dom e uma habilidade que precisamos desenvolver. E a oração é precisamente a respiração da esperança!

Fiquei encantado com a reflexão, resultando numa alegria incontida de ter feito a escolha certa ao optar por alguns dias de silêncio. Terminada a interação com o mentor fomos jantar. Um espaço simples, uma comida básica e uma música de fundo sublime. A alegria que trazia no peito se transformava em satisfação, harmonizando o corpo, a mente e o espírito. Olhava para os meus companheiros que exibiam um semblante semelhante de paz. Um a um nos servimos e nos dirigimos a uma mesa compartida. O silêncio de palavras, o ruído dos talheres e o som da música durante a refeição nos fazia entender de que não precisamos muito para estarmos bem. Depois do jantar um espaço de oração e meditação do final do dia. O sono foi tranquilo. O despertar, seguido de nova meditação, igualmente foi sossegado. Dia após dia a oração e a meditação confirmavam as palavras do mentor do retiro no primeiro dia: elas eram a respiração da esperança. Respirar com consciência fazia com que a esperança fosse uma verdade interior. O retiro estava por terminar e o ruído interior recomeçava com a ansiedade sobre o que nos esperava fora do ambiente do retiro. O que fazer na volta ao dia a dia do mundo familiar, social e organizacional? Correr para acompanhar os outros? Parar não é possível e o movimento é um imperativo da vida. Assim, teria diante de mim algumas alternativas: (1) seguir com a consciência de que as crises de expectativa e a tristeza oriunda das comparações são criações nossas a partir dos estímulos do ambiente externo e mudar para não permitir que isso ocorra; ou (2) deixar-se levar pelo fluxo daqueles que competem com os outros indo para lugares que não se quer ir. Portanto, a consciência que nos é dada pela oração e meditação ao diminuir a ansiedade das expectativas ao não nos compararmos seria a escolha mais sábia, não a mais fácil.

Enfim, seja no ambiente familiar, social ou organizacional a oração e a meditação são essenciais para manter o foco naquilo que importa. Nas relações familiares os momentos dedicados a oração ou a meditação tendem a gerar a cumplicidade das relações amorosas. Nas relações sociais a oração e a meditação podem estimular o entendimento da importância do bem comum. E nas organizações a oração e a meditação vão permitir que cada colaborador entenda o sentido daquilo que faz mantendo o foco no que é importante fazer. Finalmente, ao parar numa oração ou diminuir o ritmo pela meditação se pode manter a esperança ao entender o sentido daquilo que se faz.

Moacir Rauber

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Contração e expansão: qual é o seu movimento?

Contração e expansão: qual é o seu movimento?

Na volta às aulas as reuniões de planejamento entre coordenação e professores é uma constante. Todos avisados e confirmados. O coordenador pede para que um dos professores, meu amigo, entre um pouco antes na sala virtual. O professor se apresentou com a tranquilidade de quem faz bem a sua parte. Entretanto, a conversa foi diferente. O Coordenador agradeceu o tempo dedicado à instituição e disse que as portas continuariam abertas, porém para o período que se iniciava ele estaria dispensado. Concluiu:

– Passa no RH para acertar tudo, tá? Muito obrigado!!!

Uma situação difícil e emocionalmente impactante que pode derrubar qualquer um, principalmente numa fase de tanta insegurança econômica. Ele não acreditava no que havia acontecido. O que faria agora desempregado? Como pagaria a pensão alimentícia para o seu filho? O que fazer para manter o seu novo núcleo familiar que contava com esposa e filha? A porta do escritório se abriu e entrou a esposa que o viu em estado de choque. Ele não conteve a emoção e as lágrimas apareceram em seus olhos. Ela indagou o que havia acontecido. Ele disse que estava sem trabalho e o choro veio de forma convulsiva. A esposa se aproximou e disse, Respira fundo e solta. Respira fundo e solta. E ele foi se acalmando até que finalmente pode comentar a situação.

Respirar é um movimento natural do nosso organismo. Inspirar e expirar servem para alimentar com oxigênio o nosso corpo. Respirar pode ser feito de maneira voluntária, porém obrigatória. Posso até escolher não respirar, mas não por muito tempo. A contração e a expansão refletem um movimento comum no universo. O nosso coração também se contrai e se expande para bombear o sangue com oxigênio para todas as partes do nosso corpo num movimento involuntário. O movimento de respirar é um constante inspira e expira sem consciência. Para que seja um ritual, respirar precisa de consciência. Por isso, “Respira fundo e solta devagar” é um mantra entre os diferentes rituais de meditação. Trata-se de um momento de grande oxigenação do cérebro que nos permite ampliar a consciência do mundo dentro de nós e à nossa volta. Quando você inspira você expande os pulmões. Quando você expira você os contrai. Quando você inspira você expande a consciência da sua intenção. Quando você expira você expande as possibilidades de ação. Para os momentos mais difíceis da vida, é fundamental respirar com a clareza de que é um movimento de tomada de consciência. Pergunte-se: que mundo você quer respirar? A resposta é individual e está conectada com o mundo que você inspirar. O meu amigo foi demitido, porém qual o mundo que ele quer inspirar para nele respirar? O momento foi um convite para que ele olhasse para dentro de si num movimento de contração emocional com a expansão dos pulmões para depois expirar num movimento de contração dos pulmões para a expansão das ações. Qual é a sua intenção? Quais serão as suas ações? Aí vem o movimento do coração.

Em cada ritual, inicialmente, a pessoa contrai e depois expande. O fato do meu amigo ter respirado com consciência permitiu que ele se acalmasse e tomasse ciência de toda a situação. Passada a fase mais difícil que gerou a contração veio o movimento de expansão. Faz um ano que ele foi dispensado do trabalho e a expansão foi muito grande. Iniciou uma empresa na área digital aproveitando o conhecimento que dispunha. Hoje, a cada momento ele precisa respirar com consciência para inspirar o coração. É assim que cada um pode agir com o coração que é involuntário no seu movimento, mas que é conduzido pela intenção. Qual é a sua intenção? Um momento de contração que define a sua ação, a expansão.

Moacir Rauber

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Qual é o propósito do seu ritual?

Qual é o propósito do seu ritual?

A conversa com o diretor não estava muito amistosa, porque ele não concordava com a perda de tempo dos rituais defendidos e praticados por tantas pessoas. Para ele, rituais, celebrações ou exercícios de meditação, oração ou cerimônias não faziam sentido. Dizia:

– Precisamos de ação. É muito tempo perdido com essa mania de meditação ou sei lá o que mais…

Logicamente que não se pode viver sem ação, porém, os rituais foram criados por alguma razão e estão presentes no trabalho, esportes, homenagens, mudanças, nascimentos, partidas ou em momentos importantes da vida. E qual momento da vida não é importante? Os rituais são parte essencial da vida humana definidos como “um conjunto de gestos, palavras e formalidades, geralmente imbuídos de um valor simbólico, cuja performance é, usualmente, prescrita e codificada por uma religião ou pelas tradições da comunidade” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Ritual). O ritual, muitas vezes, está ligado a questões religiosas, entretanto, é muito mais do que isso. Acredito que o ritual está presente sempre que uma pessoa decide parar, reconhecer-se, contextualizar, refletir e agir. Ao parar e olhar para si na sua relação com o momento, a pessoa se permite conectar com o propósito daquilo que acontece. Nos rituais de nascimento, de passagem ou de mudanças mais representativas na vida há um reconhecimento de si e do outro por meio de gestos e simbolismos. Os rituais podem estar presentes em momentos mais simples como ao sair de casa, ao iniciar um procedimento no trabalho, antes ou durante uma competição esportiva. Entender essa conexão transforma aquilo que fazemos em sagrado. A parada reflexiva nos conecta com o contexto e nos permite agir com a consciência da relevância daquilo que se faz ou acontece. Fala-se de conectividade e conexão com o outro que nos leva a um movimento de transformação e reinvenção. Um ritual traz em si método e exige movimento, por isso facilita a expansão da pessoa com o foco naquilo que se vive. A presença da mentalidade de crescimento é uma tendência nos rituais e o líder que aprender com eles pode transformá-los em elementos de produtividade, competitividade, segurança, engajamento e humanidade. No surgimento da gestão mecanicista se perdeu parte da nossa humanidade ao não darmos o devido valor aos rituais. Tudo deve ser feito para ontem. Desse modo, no momento que se deixa a era industrial e se avança para a sociedade do sentido se pode (re) criar a humanização ao revalorizar os rituais que indagam sobre o “porquê” e o “para quê” daquilo que se faz.

Enfim, entender os rituais para que as pessoas encontrem o sentido daquilo que fazem e do que acontece fará com que as organizações tenham colaboradores conscientes de seu papel. É o reconhecimento da importância de um ritual como método que gera movimento, porque nele você (1) para; (2) conecta-se; (3) contextualiza; (4) reflete; e (5) age para expandir. No trabalho, nos esportes, nas homenagens, nas mudanças, nos nascimentos, nas partidas, nas celebrações ou em outro momento da vida o ritual tem o poder de nos fazer entender a nossa diminuta dimensão frente ao todo, ao mesmo tempo que nos coloca em contato com a importância dada pela nossa unicidade múltipla. O ritual representa a humildade sem a submissão e a altivez sem a arrogância. Por isso, cada ritual traz em si perguntas como: qual o sentido daquilo que faço ou daquilo que acontece? Entender o sentido é encontrar o propósito. O que faço é importante para mim e qual é o impacto no outro? Responder a essas perguntas encoraja a proteção, estimula a segurança e incentiva a competividade por meio da conectividade. Desse modo, diferentemente do entendimento do chefe do início do texto, creio que reconhecer a importância dos rituais não é perda de tempo, mas uma oportunidade de reinvenção.

Quais são os seus rituais? Eles o conectam com o seu propósito e permitem que você se expanda e se reinvente?

Moacir Rauber

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Somos únicos. Somos múltiplos.