Se fossem as suas últimas palavras?

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Na última semana li a seguinte reflexão:

– E se estas fossem as suas últimas palavras, você poderia viver bem com isso?

Não lembro onde a li, por isso não posso citar a fonte. Entretanto, a pergunta ficou em minha mente e, logo, transferi a reflexão para os diferentes ambientes de que cada pessoa faz parte. E se fossem as suas últimas palavras como líder, como profissional, como pai, como filho ou como cônjuge? Imagine a força das ações e das palavras se vivêssemos com esse pensamento em mente? Sei que alguns levariam para o tom da brincadeira dizendo que esculhambariam com tudo, entretanto, entendo que a grande maioria das pessoas tenderia a refletir de uma forma positiva.

Desse modo, pense se as palavras recém ditas e as ordens proferidas fossem a suas últimas como líder da sua organização, você conseguiria viver bem com isso? Ou melhor, você poderia morrer bem com elas? As palavras que foram ditas e as ordens proferidas tinham em mente os objetivos da organização, alinhados com o bem-estar das pessoas envolvidas, como os colaboradores, os acionistas e a comunidade em geral? E se levássemos a mesma indagação para outras situações. Caso você fosse um vendedor, se fosse a sua última venda? O pedido foi tirado respeitando a relação de justiça que deve existir entre as partes, atendendo as expectativas da organização que vende e do consumidor que compra? Avançando para outras áreas de interação humana: se tivesse sido a sua última aula? Ela teria cumprido com as expectativas daquele que a recebeu? E nos aspectos pessoais, imagine se tivesse sido a sua última interação com os seus pais, você poderia partir tranquilo pensando nas palavras ditas e nas ações realizadas? Como pai ou como mãe, se na última vez que você falou com os seus filhos tivessem sido as últimas palavras ditas por você, estaria bem com o conteúdo transmitido e com o legado deixado para eles? E no seu relacionamento íntimo, se as últimas palavras ditas e as últimas ações feitas fossem as últimas que você tivesse tido a chance de dizer e de fazer estaria tudo dito e tudo feito? Mais ainda, se o último abraço dado e o último contato feito fossem os últimos você poderia partir tranquilo?

Pode parecer um pouco piegas, mas a única certeza que temos é que em algum momento serão as últimas palavras e as últimas ações. Por isso, a reflexão pareceu-me forte, sensata, justa e bondosa. Uma reflexão forte porque ela nos lembra da finitude de nossas vidas e dos nossos papéis sociais, por mais importantes que eles possam parecer. A reflexão pareceu-me sensata, porque com a finitude de nossas vidas em mente, as palavras e as ações ditas e feitas tenderiam as ser mais humanas. A reflexão pareceu-me justa porque nos coloca num patamar de igualdade sem par, porque o fim é inevitável para todos. E, por fim, a reflexão pareceu-me bondosa, porque é justa, sensata e forte.

Enfim,

…o mundo pode não ser um local de muitas bondades, mas eu posso ser bondoso. A vida pode não ser justa, mas eu posso ser justo. Nem todos os outros podem ser sensatos, mas eu posso ser sensato.

Dessa forma, viver com a força da reflexão de que as atuais palavras e ações poderiam ser as suas últimas palavras e ações, pode criar organizações mais produtivas, relacionamentos mais sinceros e um mundo mais bondoso. Por isso a pergunta: e se fossem as suas últimas palavras e ações, você poderia morrer bem com elas?

Ahh, o Dia dos Namorados pode servir de inspiração!

Moacir Rauber

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Trabalho, carreira & vida: qual é a sua escolha?

Fui agricultor até os vinte anos. Meus irmãos ainda são agricultores. Meus sobrinhos, em determinado momento da vida, ficavam na dúvida se continuavam os estudos ou seguiam os passos dos pais. Numa das muitas conversas com os sobrinhos, disse o seguinte:

– Olha, por mais que os pais de vocês conheçam tudo sobre agricultura, eles não podem ser agrônomos. Porém, um agrônomo sempre poderá ser um agricultor, ainda que não tenha tanto conhecimento prático como os pais de vocês.

Essa foi parte da argumentação para que os meus sobrinhos não parassem de estudar e seguissem um plano de formação profissional que lhes permitisse fazer escolhas. Não se trata de desvalorizar as profissões que não requerem uma formação profissional específica, mas de salientar a importância da preparação para se exercer livremente determinadas escolhas.

Os estudos, em determinadas áreas, vão preparar o indivíduo para exercer uma profissão com o reconhecimento da sociedade. Desse modo, para ser um Engenheiro Agrônomo, um Dentista ou um Advogado é preciso que se faça a faculdade de Engenharia Agronômica, de Odontologia ou de Direito. São marcos regulatórios da nossa sociedade. Isso não quer dizer que não existam agricultores, dentistas práticos e não formados em direito que conheçam mais da respectiva atividade do que muitos graduados. A questão que aqui se coloca é a importância do reconhecimento. Nos dias de hoje, você, agricultor, aceitaria que alguém sem a devida formação técnica desse a assistência para a sua lavoura? Você, paciente, iria até um consultório de um dentista sabendo que ele não tem formação? Você, demandante, contrataria alguém para o defender em tribunal sem que ele tivesse a formação e o reconhecimento da sua profissão? Não. Por isso, ao cobrar de meus sobrinhos que continuassem os estudos para que concluíssem uma faculdade e obtivessem o reconhecimento que somente a educação formal oferece, além de trabalho, eu falava de carreira e de vida.

O trabalho é a base para que cada um possa conseguir o seu sustento com o suor do seu rosto. É bíblico.

Assim, trabalho é o esforço realizado pelas pessoas para atingir as suas metas por meio de atividades específicas. Realiza-se no dia a dia. A ideia de carreira resulta do percurso dos diferentes trabalhos realizados ao longo dos anos. Até há pouco tempo, a carreira era pensada de forma linear em que se assumiam responsabilidades em ordem crescente conforme os anos passavam e estava muito mais fortemente associada a uma profissão escolhida. Atualmente,

… a carreira é a busca individual com base em desafios.

mbora uma carreira possa acontecer independentemente de uma formação técnica específica, a faculdade tem papel fundamental para que se possa conseguir trabalho, construir uma carreira e fazer escolhas na vida.

Vida são as escolhas que fazemos que nos permitem ter um trabalho e construir uma carreira.

Enfim, mais uma vez destaco a conversa tida com os meus sobrinhos. Um agrônomo pode ser um agricultor, um apicultor, um jardineiro, um tirador de leite ou realizar qualquer outra atividade ligada a zona rural. Ele pode construir a sua carreira e passar a sua vida como escolher. Porém, o contrário não é verdadeiro. Um agricultor não pode construir a sua carreira fora das limitações de sua atividade e ser um agrônomo, por exemplo. O mesmo raciocínio se aplica às demais profissões.

Desse modo, entendo que o trabalho é uma necessidade individual, assim como um direito e uma obrigação coletivas e acontece no dia a dia. A carreira é uma construção deliberada ao longo do anos como resultado das escolhas feitas na vida.

Por isso, estudar é uma forma de exercício da liberdade na vida, que nos permite construir uma carreira e, inclusive, escolher o trabalho.

Quais são as suas escolhas?

 

Moacir Rauber

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Como ser verdadeiramente autêntico?

Quem é casado sabe como algumas situações são difíceis. Basta lembrar de momentos em que um cônjuge pede a opinião do outro sobre um assunto e nos ocorrem inúmeras saias justas. Imagine a esposa, com um vestido de gosto duvidoso, pedindo a opinião do marido:

– Ficou bonito, não ficou?

O frio na barriga é imediato. Caso ele responda “sim”, não será autêntico. Caso ele seja autêntico, é um homem morto. O exemplo pode parecer caricato, e machista, porém o outro lado também tem a sua versão. Quantas vezes as mulheres são confrontadas com a ideia fantástica do marido que vai transformá-los em milionários da noite para o dia? Se ela for autêntica e afirmar que a ideia não tem pés e nem cabeça, a briga está feita. Se ela concordar e disser que a ideia é maravilhosa, eles irão a falência. E tais situações também ocorrem no ambiente profissional nas interações com nossos chefes e colegas de trabalho. Quantas vezes enfrentamos momentos em que ser autêntico representaria o fim da negociação, o rompimento de um negócio ou a perda do emprego?

Por isso a pergunta: o que fazer para ser autêntico num mundo em que, por vezes, é difícil ser verdadeiro? Entendo ser menos difícil do que ser falso.

É importante (1) não mentir, mas (2) nem sempre falar a verdade. Como assim? A mentira gera em nosso corpo um estresse elevado, por isso é importante não mentir. O nosso dia a dia já é extremamente desafiador por demandas pessoais e profissionais, desse modo, não se precisa de mais estresse originado por mentiras.  E como nem sempre dizer a verdade? Muitas vezes, basta não falar nada. Nos casos do vestido e da ideia de negócios é quase impossível não falar nada, entretanto pergunte-se: quem é você para acreditar que a sua opinião é a verdade? Assim, se for falar algo esteja seguro e deixe claro que você está expressando a sua opinião, que pode ser a sua verdade e não “a verdade”.

Para ser autêntico também é importante aprender a (3) ler o próprio corpo, que responde autenticamente nas diferentes situações. Pode ser um arrepio que nos indica afeição ou rejeição; um calor que nos aponta proximidade ou distância; ou uma intuição que nos mostra qual a melhor alternativa frente a situação. Lembrando que a intuição pode ser aumentada conforme ampliamos o conhecimento. Quanto você conhece de moda para saber avaliar uma roupa? Qual é o seu conhecimento sobre o mundo dos negócios para classificar uma ideia? A intuição de alguém com profundo conhecimento em determinada área permitirá que ele tenha mais acertos em comparação com aqueles com pouco conhecimento. Então, estudar é uma forma inteligente de ser autêntico.

Outro ponto importante para ser autêntico é saber (4) ficar com a sua verdade. Isso quer dizer o que? A vida se divide em três tipos de negócios: os meus, os dos outros e os de Deus. Muitas vezes nós nos metemos nos negócios de Deus, querendo controlar o que não está em nosso alcance. Outras vezes nos metemos nos negócios dos outros, sempre tendo opiniões sobre aquilo que não nos compete. E, com isso, esquecemos de cuidar dos nossos negócios, os únicos ao nosso alcance.

Um último passo para ser autêntico é (5) aceitar, com bom humor, as partes negativas que cada um tem, incluindo as competências, ou a falta delas, e as emoções, nem sempre as melhores. Desse modo, reconhecer uma limitação permite que se aprenda com as observações e não a se irritar com elas.

No texto Falsidade Autêntica: é possível? há uma crítica ao uso de técnicas para se desenvolver habilidades comportamentais. Porém, o conteúdo que aqui se apresenta não são técnicas? Poderiam ser técnicas, mas a pretensão é que sejam reflexões que nos permitam agir a partir do bom senso, extraindo o melhor de cada um para se ter um ambiente autenticamente verdadeiro e positivo. Antes das técnicas o propósito daquilo que se faz.

Qual é a cor do seu vestido?

Qual é a sua ideia?

Moacir Rauber

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Falsidade Autêntica: é possível?

Falsidade Autêntica: é possível?

Por onde ele passava os cumprimentos eram efusivos, os elogios eram distribuídos a torto e a direito e o sorriso estava sempre presente. Ele era o rei da simpatia. Não esquecia as datas importantes de ninguém. No aniversário mandava um presente. No Natal, Ano Novo e Páscoa sempre enviava uma mensagem. A rede de relacionamentos dele era muito bem administrada. De tão atencioso que era, dava-nos a impressão de que não podia ser verdadeiro. Enfim, o que será que era autêntico por trás do comportamento do “Senhor Simpatia”?

Festa de final de ano. Todos reunidos. Chega um e outro. Os abraços, cumprimentos e sorrisos do “Senhor Simpatia” seguem cumprindo o seu papel, quase sempre acompanhados de um elogio:

– Caramba, a melhor caipirinha do mundo é você quem faz! Diz o “Senhor Simpatia” para um conhecido seu.

Nesse momento, outro presente que ainda não havia sido percebido pelo “Senhor Simpatia” se manifestou, “Ei, você sempre falou que a minha era a melhor do mundo…”. Um leve constrangimento. O “Senhor Simpatia” puxou o recém visto para o lado, deu-lhe um aperto de mão mais caloroso, fez-lhe um afago e cochichou-lhe ao ouvido, “Falei isso para ele apenas para agradá-lo. A tua é a melhor!” E ele seguiu para abraçar uma amiga que chegava.

É muito bom ser recebido com um sorriso, um aperto de mão ou um abraço ou ainda todos eles juntos. É muito bom receber um telefonema, uma mensagem ou um presente em datas especiais. Embora, tão importante quanto recebê-los é que eles sejam autênticos. Ao observar e refletir sobre o comportamento do “Senhor Simpatia”, imaginei que se ele fala isso para um também poderia falar para o outro. Com um é a melhor caipirinha, com outro é o abraço mais caloroso, com mais outro é o sorriso mais lindo e assim pode ser com relação a qualquer elogio do seu repertório. Fica a dúvida: o que será autêntico no comportamento do “Senhor Simpatia”? Difícil saber, porque estamos ensinando muitas técnicas de como fazer para parecer algo que não se é e esquecemos do mais importante que é ser aquilo que se parece. Você quer parecer simpático ou você é simpático? Você quer passar a impressão de ser competente ou você é competente? A sua rede de relacionamentos é de pessoas com quem você se importa ou apenas de pessoas que importam para você? Para tudo existe uma técnica de como fazer para parecer ser, muitas vezes, o que não se é. Pode-se encontrar informações sobre as técnicas de como dar um abraço para que ele pareça verdadeiro sem que a pessoa queira dar um abraço verdadeiro. Existem as técnicas para dar um aperto de mão que passe a impressão de ser respeitoso, de parecer amistoso e de exibir força sem que haja respeito, amizade ou força. E não para por aí. Ao preparar alguém para se candidatar a uma vaga de emprego, nós ensinamos como o candidato deve se comportar na entrevista para falar aquilo que o entrevistador quer ouvir e não para exibir a real competência para a vaga.

Assim seguimos ensinando e aprendendo técnicas para se passar uma determinada impressão sem a real preocupação em ser aquilo que se aparenta ser. Com isso, vive-se um momento em que o único comportamento autêntico, de muitas pessoas, é a falsidade.

Particularmente, acredito que as técnicas que aprimoram o desempenho em qualquer área são importantes para que sejamos mais educados, e isso se aplica às relações sociais. Podemos e devemos usar todos os recursos comportamentais e tecnológicos para melhorarmos as nossas relações sociais e profissionais. Entretanto, penso também que as técnicas devem ser complementares ao sentimento, à emoção e à vontade de se relacionar, que devem autênticas. Transfere-se, desse modo, autenticidade à imagem que se passa por meio da técnica. Por isso, é bom parecer autêntico, mas é fundamental ser autêntico.

É possível melhorar isso no ambiente organizacional? Se é possível ser autenticamente falso, é muito mais fácil ser autenticamente verdadeiro. Basta que as pessoas sejam transparentes no processo de contratação, nas formas de comunicação, na atribuição dos papéis e das funções, nos processos de treinamento e desenvolvimento e até no momento do desligamento. Autenticidade com respeito permite que cada um seja autenticamente verdadeiro.

Moacir Rauber

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Qual é o seu juramento?

As pessoas quando vão a um hospital, normalmente, estão em um momento difícil. Elas vão para visitar alguém querido que está no hospital ou elas mesmas estão hospitalizadas. Dificilmente alguém vai fazer turismo no hospital para visitar e agradecer aos enfermeiro(a)s. Na última semana fui parar num hospital por um acidente que tive. Já sou usuário de cadeira de rodas, o que me limita a mobilidade que ficou ainda mais prejudicada. No hospital a percepção do tempo muda. Um minuto vira uma hora facilmente que parece uma eternidade. O que pode fazer a diferença para que as dificuldades do paciente sejam minimizadas? Como diminuir a dor de quem lá está sem querer lá estar? É aí que entra o trabalho dos médicos, do(a)s enfermeiro(a)s e da equipe de manutenção. A qualidade de atendimento faz toda diferença para uma rápida recuperação de quem se encontra enfermo. E como fazer para que o atendimento seja de qualidade? Não creio que haja uma única resposta, mas parte dela eu encontrei na semana em que passei hospitalizado. Fui tratado por pessoas que vivem a plenitude do conceito de sua profissão: o(a)s enfermeiro(s).

Até ser encaminhado ao hospital nunca havia pensado na definição de enfermagem como profissão. Agora que estou em casa fiquei pensando em quão bem fui tratado. Fui assistido com respeito às minhas necessidades básicas, considerando as minhas limitações. Fui tratado com cuidado para que a minha reabilitação ocorresse de maneira mais rápida. Fui ensinado a tomar medidas de autocuidado para promover a saúde em todas as suas dimensões. Assim, ao olhar um dos conceitos de enfermagem como sendo “a ciência e a arte de assistir ao ser humano (indivíduo, família e comunidade), no atendimento de suas necessidades básicas; de torná-lo independente desta assistência, quando possível, pelo ensino do autocuidado, de recuperar, manter e promover sua saúde em colaboração com outros profissionais” (http://saudeevidavidaesaude.no.comunidades.net/conceito-de-enfermagem). No momento em que li o conceito de enfermagem entendi que ele estava sendo vivido pelo corpo de enfermeiro(a)s que me atenderam. Entrava um, saía outro e os cuidados continuavam focados no paciente. Desse modo, se o objetivo da enfermagem é “a promoção, conservação e restabelecimento da saúde, dando especial atenção aos fatores biológicos, psicológicos e socioculturais, e com absoluto respeito pelas necessidades e direitos da pessoa a quem se presta esse tipo de serviço” (https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/educacao/o-conceito-de-enfermagem/28733), o objetivo estava sendo alcançado por aqueles profissionais enfermeiro(a)s que me atendiam.

Enfim, foi nessa situação que a pergunta do título surgiu, Qual é o seu juramento? Todas as profissões têm um juramento solene no momento da colação de grau, entretanto, sabe-se muito bem que são muitos os profissionais que não respeitam o juramento e não vivem de forma a honrar o conceito e os objetivos da profissão. Naqueles profissionais que encontrei no período em que estive hospitalizado senti o juramento sendo vivido. Em uma de suas versões o profissional de enfermagem diz: JURO “Dedicar minha vida profissional a serviço da humanidade, respeitando a dignidade e os direitos da pessoa humana, exercendo a Enfermagem com consciência e fidelidade; guardar os segredos que me forem confiados; respeitar o ser humano desde a concepção até depois da morte; não praticar atos que coloquem em risco a integridade física ou psíquica do ser humano; atuar junto à equipe de saúde para o alcance da melhoria do nível de vida da população; manter elevados os ideais de minha profissão, obedecendo os preceitos da ética, da legalidade e da mora, honrando seu prestígio e suas tradições”. Esse é o juramento que está alinhado com o conceito e com os objetivos da enfermagem que senti serem vividos pelo corpo de enfermeiro(a)s do hospital onde estive internado.

Qual é a sua profissão? Qual é o seu juramento? Você o vive na prática? As respostas para essas perguntas não sei, mas quero registrar aqui que são muitos aqueles que vivem em conformidade com o juramento de sua profissão simplesmente ao tratar o paciente/cliente com Amor e Respeito.

(Inspirado no Corpo de Enfermagem do HCO)

Moacir Rauber

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Poderia ter sido pior…

Lá ia ele visitar o amigo que sofrera um acidente. O sujeito estava todo estropeado e ficaria por um bom tempo fora de circulação pelas sequelas físicas. Na chegada do amigo, cheio de dores, ele esboçou um sorriso. Os comentários do visitante eram famosos pela sua presença de humor, às vezes, um pouco maldoso. Os dois começaram a conversar. O acidentado explicou o que havia acontecido. O visitante prestava atenção. Era realmente impressionante como um pequeno detalhe, o descuido ou a falta de prevenção podem fazer estragos na vida de qualquer um. Ao final da exposição, o amigo visitante comentou:

– É realmente complicado. Mas olhando daqui acho que “poderia ter sido pior…”

O amigo acamado se remexeu nervosamente no leito. Como é que alguém em sã consciência poderia dizer que poderia ter sido pior? Porém, ele observou o sorriso irônico no rosto de seu amigo e, logo, perguntou:

– Como assim? Poderia ter sido pior?

O amigo visitante exibiu um largo sorriso antes de responder:

– Poderia ter sido comigo…

O acamado não resistiu e riu também.

É um diálogo que aconteceu entre dois amigos, que revela uma intimidade que somente está presente na confiança de uma grande amizade. Porém, a observação tem lá as suas razões de ser. Primeiro, ela revela a visão otimista a partir da percepção de mundo de um pessimista. Acredito ser interessante a observação do pessimista num momento em que todos são induzidos a serem apenas otimistas. Entendo que ser positivo ou otimista não se trata de negar o negativo ou ser pessimista, mas sim de entender o negativo ou o pessimismo para extrair o positivo e o otimismo. Segundo, a expressão expõe que cada um deve cuidar dos seus problemas, porque não há situação mais difícil do que aquela vivida por cada um quando se está com um problema. E nesse ponto entramos numa tendência em que as pessoas buscam negar o negativo para expor apenas o positivo. Nos dias correntes, as vidas das pessoas expostas nas redes sociais retratam o positivo de tal maneira que faz com que o outro creia que a sua própria existência é um fracasso. O mundo virtual criou a possibilidade de que cada ser humano seja a estrela do próprio show. As fotos, as postagens e os vídeos mostram o sucesso individual no trabalho e no amor. As pessoas se esforçam para compartilhar detalhes de uma vida glamourosa que expresse uma realidade, muitas vezes, inexistente. É importante estar bem no trabalho e no amor? Claro que sim. Acho que devem ser compartilhadas as boas experiências a que cada um tem acesso. Entretanto, sabemos que a vida não é sempre um mar de rosas, embora muitas pessoas tenham a necessidade de passar essa impressão. Entendo ser esse um movimento resultado de um individualismo que ultrapassa o respeito à individualidade na busca pela atenção. Todo o ser humano precisa de atenção, mas encontrar o equilíbrio entre a exposição e o recato para entender o negativo de forma otimista a partir de uma visão positiva ainda que se tenha uma vertente pessimista é essencial.

É fácil? Não, é preciso de bom senso que não é uma medida exata. Aquilo que pode ser bom senso para um não o é para o outro. Afinal, tudo está ligado ao comportamento humano representado numa infinitude de visões e de interpretações de mundo originados na individualidade de seres múltiplos. Entretanto, por meio do estudo e da aquisição de conhecimento podemos melhorar o bom senso e aprimorar a nossa intuição, porque, afinal, são esses seres que nós somos e com que nos relacionamos. São essas as pessoas que nós gerimos, ou por quem somos geridos, atendemos, convivemos, compartilhamos, vendemos e, quando bons gestores, resolvemos os seus problemas.

Enfim, antes de invejar a vida maravilhosa do outro, que nem sempre é resultado das suas próprias competências, lembre-se que o que parece ser positivo para um pode não ser se aplicado a mim. Mais uma vez, creio que a fala do “poderia ter sido pior, poderia ter sido comigo” revela uma visão otimista da perspectiva de um pessimista que reconhece o positivo ainda que de forma negativa.

Moacir Rauber

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Não se ensina truque novo para cachorro velho…

Lá estava eu com minha aluna de dezenove anos que comentava sobre o seu avô desempregado e que se recusava a voltar a estudar. Ela disse:

– Ele tem muitas ideias fixas. Talvez ele já seja muito velho para aprender algo novo…

– Quanto anos ele tem?

– 54.

– Hum, você está me chamando de velho? Eu tenho 53…

Ela ficou constrangida. Eu ri. Ela se explicou, dizendo que ela não achava o avô velho, mas realidade ele é que se achava velho para fazer uma faculdade ou mesmo para se inscrever num curso profissionalizante. Ela o incentivava e o desafiava para procurar algo novo para fazer, porém ele resistia. Concordo com a análise dela. Ninguém com cinquenta e poucos anos precisa ser velho, mas qualquer um pode ser velho. A postura do avô da minha aluna dá razão a expressão “não se ensina truque novo para cachorro velho”. Porém, será a expressão verdadeira?

Acredito que há muito conhecimento nas expressões populares que representam o conhecimento do senso comum. São tantos os ditados que carregam em si conhecimento e sabedoria que a ciência terá ainda muito trabalho pela frente até que consiga entendê-los, explicá-los, comprová-los e/ou refutá-los. Porém, nem todos os ditados devem ser internalizados como verdades absolutas, cabendo a nós discernir entre àqueles que trazem em si sabedoria e àqueles que nos induzem a assumir crenças que nos limitam.

Nas minhas andanças envolvo-me com pessoas dos oito aos oitenta anos. Muitas vezes, vejo jovens que se comportam como velhos e idosos que agem como jovens. Com relação a aprendizagem encontro a mesma realidade em total desacordo com a expressão de que não se pode ensinar truque novo para cachorro velho. Há jovens e idosos que acreditam que já sabem de tudo e que não precisam e não conseguem aprender mais nada. Por outro lado, há jovens e idosos que acreditam que podem continuar a aprender, porque a plenitude da vida se revela na aprendizagem contínua. Entendo que ao manter a mente aberta para a aprendizagem se pode continuar a ter novas experiências, independentemente da idade.

A realidade de que se pode aprender sempre está comprovado pela neurociência que constatou a neuroplasticidade cerebral que permite que o fenômeno da aprendizagem seja uma escolha individual. Da mesma forma, a história é rica em exemplos de idosos sábios e a sabedoria somente se consegue alcançar com a aprendizagem contínua. Porém, percebo que a expressão “não se ensina truque novo para cachorro velho” permeia boa parte das pessoas em nossa sociedade. É uma expressão até simpática, mas extremante prejudicial para quem internaliza a suposta verdade presente nela, impedindo-as de se apropriarem da vida em todas as suas fases. Jovem? Adulto? Idoso? Pouco importa, o ditado “não se ensina truque novo para cachorro velho” não se aplica às pessoas, porque o Ser Humano pode aprender sempre. Depende das escolhas, inclusive das do avô da minha aluna.

Importante destacar que o ditado foi criado e dirigido a um cachorro mais velho que na visão de seu dono não aprendia mais. Porém, o ditado foi desmentido inclusive para os cães, porque o programa televisivo “Caçadores de Mito” comprovou que cachorros velhos também aprendem.

 

Moacir Rauber

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Somos únicos. Somos múltiplos.